A
força e as fragilidades da Pesquisa Eleitoral
Rachel
Moreno
Pesquisadora (Instituto Opinião) e
Presidenta da SBPM –Sociedade Brasileira de Pesquisa de
Mercado, Opinião e Mídia.
“Roseana
despenca”, “Serra dispara” , “Lula se
estabiliza em seu patamar histórico” . Chamadas
como estas nas manchetes vendem jornais, captam a atenção
do leitor . Na televisão despertam os telespectadores.
Aí entram para o planejamento do marketing político
e recebem críticas quanto à sua credibilidade
ou elogios à sua fidedignidade, dependendo do candidato
estar “subindo” ou “caindo” em comparação
à última pesquisa de medição da
intenção de voto.
Finalmente, passada a eleição, cientistas políticos
são convidados a expor na mídia a sua interpretação
para as razões da vitória de tal ou qual candidato.
Numa iniciativa inédita, a SBPM – Sociedade Brasileira
de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia,
organizou um debate em que a transversalidade dos três
segmentos envolvidos na produção, interpretação
e divulgação das pesquisas se fizeram presentes:
jornalistas, cientistas sociais e pesquisadores debateram suas
fragilidades, necessidades de intercâmbio e como atender
às necessidades do eleitor, o primeiro alvo da pesquisa
eleitoral.
O
rei está nu
Rogério Schmitt, professor de Ciências Sociais
da Escola de Sociologia e Política da USP, apontou a
fragilidade da formação dos cientistas sociais
e políticos em pesquisa quantitativa, ressaltando que
em pesquisa qualitativa, ela simplesmente inexiste. Ele lamentou
também o fato de os cientistas políticos basearem
suas análises em dados desagregados, ao invés
de pesquisas de opinião, que subsidiariam melhor a análise.
Silvio Bressan e José Roberto de Toledo – destacados
profissionais da Imprensa - acusaram as dificuldades dos jornalistas
em ler e interpretar adequadamente os resultados de pesquisa,
identificando o que pode ser efetivamente entendido como uma
variação significativa da intenção
de voto detectada através de uma amostra representativa.
Marcus Figueiredo, doutor em Ciências Políticas,
professor e consultor do IUPERJ, denunciou o interesse político
do fazedor de manchetes na defesa dos interesses econômicos
e políticos do dono do seu jornal, revista ou emissora
de rádio ou tevê, interesses estes, que podem ser
identificados na diferença do espaço concedido
aos diversos candidatos, nos diferentes veículos de comunicação.
Eliane Cantanhêde, articulista do jornal Folha de S. Paulo,
em sua crítica à pesquisa eleitoral, lembrou algumas
que falharam na previsão dos resultados de eleições
locais anteriores e enfatizou o valor do jornalismo investigativo,
em que o jornalista não se limita a escrever sobre o
resultado da última pesquisa, tomada como verdade única
e definitiva. Eliane Cantanhêde, entretanto, ressaltou
enfaticamente a riqueza da pesquisa qualitativa como ferramenta
para a compreensão das tendências e das expectativas
dos eleitores.
Silvia Cervellini (MCI-SP) e Márcia Cavallari (Ibope)
salientaram o caráter diagnóstico e descritivo
do momento – e não preditivo – dos resultados
das pesquisas eleitorais, lembrando a limitação
da cobertura jornalística das eleições
à interpretação dos resultados das pesquisas
divulgadas, apresentando-os como se fossem predições.
As mudanças na legislação eleitoral, introduzindo
novidades a cada ano (necessidade de se aprender a usar as urnas
eletrônicas, uso paralelo de urnas eletrônicas e
das antigas, política de alianças etc.) também
confundem o eleitor e introduzem uma variável não
mensurada pelas pesquisas.
Finalmente, convém ainda notar, que vários meios
de comunicação, particularmente a televisão,
deixaram de divulgar o número de indecisos nos resultados
das pesquisas, passando ao seu público a impressão
de uma tendência de voto já consolidada, quando
a maioria dos eleitores nem sequer pensou no caso. Essa atitude
esconde o fato de que, na verdade, a esta distância da
eleição, seriam mais significativos os resultados
espontâneos, e não aqueles obtidos de forma estimulada,
estes os únicos que são divulgados (principalmente
pela televisão), e que refletem melhor a opinião
do eleitor já decidido.
Entre pesquisadores
Mauro Paulino (Datafolha), questionou o comportamento dos institutos
de pesquisa que se prestam a fazer pesquisas que posteriormente
são utilizadas pelo marketing político-eleitoral.
Segundo ele, o Datafolha tomou a decisão de não
fazer pesquisa para candidaturas, mas apenas para órgãos
de divulgação (jornal, tv etc).
Questionou-se também, no debate, o critério de
quando fazer e quando divulgar e a quais interesses de fato
serve a divulgação de resultados de pesquisa oito
ou seis meses antes da eleição, quando a maioria
dos eleitores sequer definiu seu voto. Destacou-se, afinal,
que as pesquisas “precoces” são um bom instrumento
para os candidatos conseguirem recursos financeiros para as
suas campanhas, quer porque contem com um bom “recall”,
quer pela proposta de mobilizar recursos para se derrotar o
candidato adversário que toma a dianteira.
Em certos momentos, pesquisas oportunamente divulgadas “enterram”
uma candidatura que sofreu algum acidente de percurso, ao mostrar
a queda do candidato pouco depois de alguma denúncia.
Dessa forma, a pesquisa eleitoral pode servir aos interesses
de quem reforça a sua própria candidatura com
isso, ou aos interesses de seus defensores.
Convém notar, ainda, os nomes dos “prováveis
candidatos” apresentados aos entrevistados, na pergunta
estimulada (“Se fossem estes os candidatos, em quem o
sr(a) votaria se a eleição fosse hoje?”).
Em nenhuma das pesquisas divulgadas – salvo na véspera
da prévia do PT, em São Paulo – o nome do
senador Eduardo Suplicy apareceu como alternativa, embora disputasse
a indicação de seu partido na prévia eleitoral.
Esse é apenas um exemplo do quanto um procedimento pode
desvirtuar um resultado.
Resultado
de pesquisa “faz a cabeça” do eleitor na
reta final?
Gustavo Venturi (NOP da Fundação Perseu Abramo)
negou que a divulgação da pesquisa defina o voto,
próximo à hora da decisão. O resultado
das pesquisas constitui uma informação a serviço
do eleitor, que pode decidir-se a votar em quem está
na frente ou justamente em quem não está, para
ajudar a definir o jogo eleitoral da forma que lhe parecer mais
conveniente.
Com isso, nega-se a necessidade de divulgação
antecipada dos resultados das pesquisas eleitorais, até
porque há outras informações no ar –
da propaganda, das manchetes dos noticiários, das pesquisas
não registradas para divulgação mas que
“vazam” (voluntária ou involuntariamente)
e que, dependendo do momento de seu “vazamento”,
impede a realização de outra pesquisa que possa
checar os seus resultados.
Tudo isso leva à conclusão de que é justamente
a multiplicidade de pesquisas que faz com que uma pesquisa controle
a outra, limitando a possibilidade de divulgação
do resultado desejável para quem a patrocinou, juntamente
com as regras de sua boa divulgação.
Na rodada final do debate mais uma vez se salientou a importância
das manchetes – e eventualmente do lead das matérias
– que terminaram por carregar a principal responsabilidade
de “fazer a cabeça” do eleitor. Essas manchetes
refletem mais os interesses políticos dos donos da mídia
do que os resultados efetivos da pesquisa eleitoral e, alem
disso, não têm data-limite para a sua publicação,
criando impressões falsas ou, no mínimo, imprecisas,
que criam impunemente um clima de “já ganhou”
ou “já perdeu”, não sujeito a nenhuma
réplica ou verificação.
Perspectivas
e continuidades
O objetivo do debate foi criar um diálogo produtivo entre
esses três universos de análise do comportamento
eleitoral do país – pesquisadores, jornalistas
e cientistas políticos –, procurando jogar luz
sobre a velha questão do "acerto" das pesquisas.
Propostas, projetos e intenções coroaram o final
do evento:
A SBPM se dispôs a preparar um curso especial para jornalistas,
treinando-os na leitura correta dos resultados das pesquisas
eleitorais; os profissionais de pesquisa dos diversos institutos
presentes e os representantes da “academia” declararam
a sua intenção de viabilizar o teste das hipóteses
existentes sobre os principais fatores que explicam o voto do
eleitor brasileiro; os pesquisadores propuseram-se a retomar
e aprofundar a discussão sobre a possibilidade de viabilizar
a inclusão de algumas questões para divulgação
aos eleitores (mesmo em pesquisas encomendadas por candidaturas),
para permitir o conhecimento pelo eleitor das variáveis
às quais ele está sujeito, numa tentativa de se
cumprir o dever de cidadania e da vontade política do
pesquisador.
O debate demonstrou que a transversalidade das abordagens em
pesquisa eleitoral pode ser esquizofrênica e empobrecedora,
se cada qual ficar trabalhando em seu canto, à mercê
dos seus próprios meios e limitações. O
jornalista tem o poder da mídia, o pesquisador tem a
eficiência da técnica, os dados e a rapidez de
colhê-los e interpretá-los; a academia tem o tempo
de se debruçar sobre as séries históricas
e as teorias eventualmente construídas em outros países.
É a somatória das competências, dos acessos
e dos poderes que tornarão a transversalidade enriquecida
pelos diversos aportes, produzindo crescimento profissional
e fertilização mútuos para todos.
Para encerrar, uma convocação: se os que têm
o poder de viabilizar estas intenções se somarem
às boas intenções declaradas dos que põem
a mão na massa, ganharemos todos: pesquisadores, acadêmicos,
jornalistas e, principalmente, os eleitores (quer dizer, todos
nós).
Opinião
Pública, esta desconhecida
Antonio
Fernando Beraldo.
Engenheiro, professor do Deptº de Estatística
da Universidade Federal de Juiz de Fora/MG
“Lula
sobe e também lidera o 2º turno”(FSP, 10/04/2002).
No gráfico ao lado, o sr. Lula aparece com 31% das intenções
de voto, e está ascendendo. O sr. Serra estaciona nos
19%, o sr. Garotinho e a sra. Murad empatados, e a evolução
do sr. Ciro é representada numa linha cinza, bem clarinho,
com os seus também cinzentos 10%. Vida que segue, e Roseana
que não segue, lá vem o Ibope, com mais um pouquinho:
Lula com 35%. Acende-se o sinal roxo (pois vermelho é
do PT) e é o bastante para os juros continuarem nas alturas,
as bolsas despencarem e o dólar saltar! Afinal, o primeiro
turno já era, e o segundo turno é liderado com
folga pelo pré-candidato do PT, que, conforme alertam
os adversários, fará este país desabar
num abismo digno de uma centúria de Nostradamus. O próprio
PT se encarrega de dizer que não, não é
nada disso, e fazem pesquisas qualitativas verificando se o
episódio dos sem terra na hacienda do sr. FHC arranhou
a imagem do PT “bonzinho” junto à opinião
pública. Opinião pública? De novo?
Imagino que este negócio de “opinião pública”
deve vir desde os tempos da Atenas de Péricles, século
V a.C. Em tese, todos os homens livres da Ática podiam
votar e serem votados na ekklesia, ou Assembléia. Mas
como os distritos eram muito longe, e os cidadãos tinham
mais o que fazer, as discussões ficavam por conta de
uns dois ou três mil atenienses “da gema”
– que decidiam tudo, desde o preço do azeite até
quem seria mandado para um “honroso exílio”
(ostracismo). O órgão máximo administrativo,
o Conselho dos 500, era formado por sorteio, vê se pode,
de uma lista de cidadãos, enviada pelos demos (não
os demônios, mas sim os distritos – daí democracia,
governo dos distritos). Outra coisa: a democracia ateniense
não era representativa, ou seja, não havia cidadãos
representando cidadãos. Era direta - não havia
partidos, embora já devesse existir o PFL, ainda não
com esse nome. Cada um que votava, votava por si. Então,
tirando as mulheres, os servos, os escravos, os homens de menos
de 30 anos, os estrangeiros e os poetas, ficamos com 0,3 % dos
gregos “com opinião”. Nunca mais tivemos
algo nem perto disso.
Depois que Roma promoveu a primeira globalização,
o mundo ficou muito grande e representado por cada vez menos
gente. Apesar de, nos estandartes, apregoar-se o partidão
SPQR (Senado e Povo Romano, nesta ordem), o poder mesmo era
dos patrícios, que se lixavam para o resto. Depois veio
a Idade Média, o feudalismo, mais a Igreja Católica
e as invasões dos bárbaros (o MST da Europa).
A tal de opinião pública, se existia, nem era
cogitada. Em seguida, os reis absolutistas e os déspotas
esclarecidos se encarregaram de tocar o barco sozinhos. Os quase-republicanos
ingleses do século 17, depois que separaram a real cabeça
de Carlos I do real corpo do retrocitado, tiveram muito trabalho
em fazer prevalecer a sua opinião, tendo que, para isso,
promover uma diáspora na Irlanda e arrebentar com os
escoceses. Não deu certo, havia muita opinião
pública contra este interregnum, e os ingleses logo,
logo, restauraram a monarquia e foram felizes para sempre.Segundo
o institutuo NOP, apenas 12% dos britânicos desejam o
fim da monarquia. Detalhe: a pesquisa foi feita no fim-de-semana
logo após a morte de querida rainha-mãe (Folha,
10/04). Vale?
A opinião pública só volta a mostrar sua
força muitos anos depois de Cromwell, quando chegaram
os dias de glória, e um bando de citoyens botou abaixo
as torres da Bastilha, numa façanha de desengenharia
digna de um Bin Laden. Divididos em uma dúzia de opiniões,
os jacobinos, os girondinos, a montanha e a planície
e outros eram jogados de um lado para o outro pelo enxame de
panfletos, tablóides e jornais diários que açulavam
os ânimos do peuple, cujos amis acabaram vítimas
do próprio veneno – os artigos nos jornais. A expressão
“quarto poder”, atribuída à imprensa,
nasceu nesta época.
Duzentos cem anos se passaram, e esta entidade misteriosa (o
povo quer!) ainda é invocada a toda hora para justificar
as maiores barbaridades. Repare no que está acontecendo
lá no Oriente Médio: os soldados israelenses cometem
uma série interminável de atrocidades contra palestinos
encurralados em campos de concentração (que tal
darmos o nome correto?); os terroristas palestinos, por sua
vez, se explodem no meio de gente que não tem nada a
ver com isso. O presidente George Dábliu Bush, num dia,
manda que os exércitos judeus saiam imediatamente dos
territórios ocupados; dia seguinte, solicita que, caso
não lhes seja incômodo, comecem uma retirada (ou
coisa parecida) e manda seu general-secretário Powell
numa lenta romaria até Jerusalém, para tentar
botar ordem na casa; mais uns dias, rotula o sr. Sharon de “homem
de bem”. Será que o estadista Bush filho “refletiu
melhor”, ou será que ouviu a voz rouca das ruas?
Segundo o Gallup, mais da metade (53%) dos americanos acha a
guerra contra os palestinos “legítima”, e
67% dos nossos irmãos do norte aprovam a posição
dos EUA (qual delas?). Anos atrás, havia uma tal de silent
majority, que, dizia-se, era a favor da guerra do Vietnã
e contra a liberação dos direitos civis para os
negros, entre outras coisas. Mesmo silenciosa, esta maioria
era invocada toda vez que as marchas pela paz e pelos direitos
dos negros enchia as ruas de Washington. Depois descobriu-se
que esta “grande maioria” (perdão) não
existia, ou, se existia tinha deixado de ser maioria ou tinha
muidado de idéia.
O que venho dizendo há anos neste Observatório
é que não existe este negócio denominado
“opinião pública” - uma espécie
de divindade onisciente, que responde uníssona a todas
as grandes interrogações da vida nacional. Existem,
sim, opiniões públicas (ou seria opiniães
públicas?), emitidas por grupos de pessoas, teoricamente
segundo seus próprios interesses e necessidades. Essas
opiniões são tremendamente instáveis, caprichosas
mesmo. Flutuam ao vento das versões dos fatos, ao sabor
das habilidades da propaganda política. Enquanto nas
cidades menores o rádio e TV fazem a festa, nas grandes
cidades a guerra cresce nos outdoors, nos jornais e revistas.
Uma frase bem colocada de um “formador de opinião”
é capaz de provocar um estrago imenso na imagem de um
político que levou muito tempo e gastou muito dinheiro
para ser construída.
E que dinheiro! Segundo uma reportagem do Globo (22/04), estima-se
o gasto de R$ 5 bilhões em tudo quanto é tipo
de badulaque na campanha deste ano, de camisetas a pregadores
de roupa. Segundo o responsável pelo estudo, prof. Gaudêncio
Torquato, esta grana toda poderia ser até maior, não
fosse o episódio da sra. Roseana. Mesmo assim, diz, uma
campanha pra presidente não sai por menos de R$ 70 milhões.
Enquanto escrevo, de noite, um grupinho de meninas brinca na
rua lá fora. A mais velha não deve ter oito anos.
Oscilam os corpinhos ao ritmo da música que vem da TV,
as barriguinhas de fora, os bracinhos alisando um vento imaginário,
na coreografia aprendida na novela. Imitam a moderna(?) SheraJade,
incorporados todos os trejeitos de uma sensualidade imprecisa,
ensaiada ... Não fazem a menor idéia do que seja
clonagem, adultério, choque de culturas e de religiões,
poligamia, guerra entre árabes e judeus, essas coisas.
Mas já repetem as expressões marteladas pela novela,
os bordões numa língua estranha mas facilmente
assimilável. Alguém chama de volta pra casa, as
meninas se despedem: inshallah. É isso aí.