Pesquisa
apreende o nível de consciência metropolitana em
São Paulo
Consciência metropolitana como fator de cidadania e o
cidadão como co-responsável pelas ações
comunitárias dessa consciência.
Com o apoio do Instituto Florestan
Fernandes, a SBPM promoveu o ciclo de debates, O Uso da Pesquisa
pela Administração Pública, no qual Paulo
Mondin-Gomide, coordenador da Unidade Técnica de Mercado
da Secretaria do Estado de Transporte Metropolitano de São
Paulo, expôs a pesquisa "Consciência da Região
Metropolitana de São Paulo", e Cecília Guedes,
mestre em Psicologia, atuando como especialista em pesquisa
há 13 anos, no Metro de São Paulo, falou sobre
"O Transporte na Cidade de São Paulo na Visão
dos Usuários do Metrô".
Chovia muito na noite de 8 de outubro, mas ninguém arredou
pé, pois os assuntos em pauta despertavam vivo interesse
da platéia.
Apaixonado pela pesquisa, que pratica desde 1963, e em particular
pelo ser humano, Paulo Mondin-Gomide, afirma que é capaz
de ficar horas ou dias falando desta pesquisa, razão
de mais de 40 exposições para públicos
diversos: pesquisadores, universitários e às vezes
empregados de empresas de ônibus. "Sempre, o que
mais me chama a atenção são os olhinhos
brilhan-tes das pessoas, porque quando se fala com o coração
o outro entende imediatamente tudo que se diz, não há
diferenças. Falo do mesmo jeito para um grupo de acadêmicos
ou de trabalhadores, porque o que interessa é o ser humano.
Eu me coloco como o Paulo, me exponho como ser humano e como
tal eu puxo o outro ser humano, pois afinal somos todos muitos
parecidos, um é mais magro, o outro é mais gordo,
ou mais emocional. Não tem diferença de nível
cultural, nem ideológico e se acabam todas as coisas
superficiais quando se entra como gente".
O transporte como meio natural
A pesquisa sobre a região
metropolitana de São Paulo demonstra que um equipamento
urbano como o transporte pode ser a interface ideal para as
ações de conscientização da cidadania,
entendendo-se a região metropolitana como um espaço
de interação de relacionamentos, identificando,
paralelamente, que neste momento já se faz necessário
uma intervenção dos setores que podem gerar as
condições que fomentarão essa conscientização,
evitando que as rupturas de caráter esquizóide
se sedimentem ainda mais, impedindo os cidadãos de vivenciar
o espaço metropolitano com qualidade e consciência
compatíveis com os novos rumos da região metropolitana.
Esta foi a primeira pesquisa - conta Paulo Gomide - feita com
este objetivo e essa envergadura. Não tenho notícia
de nenhum outro trabalho que tenha sido tenha sido feito aqui
ou em outro lugar sobre o tema. Na verdade essa pesquisa não
terminou, ela é um processo. Os resultados que estamos
discutindo foram levantados e analisados no período de
1997 e 1998, a parte qualitativa, e em 1999, a quantitativa.
Neste momento estamos realizando mais uma etapa, onde os objetivos
são sempre os mesmos, ou seja, levantar o grau de consciência
espacial das regiões metropolitanas e o sentimento de
pertinência do cidadão ao município de residência
e à região metropolitana, de utilização
dos equipamentos urbanos, assim como o grau de acessibilidade
a esses equipamentos.
A pesquisa não se atém a uma visão de equipamento,
mas sim a uma visão macro desses equipamentos, pois a
região metropolitana se constitui de um conjunto de pessoas
que se relacionam, e os equipamentos fazem parte de um sistema
de relações humanas, inclusive o equipamento de
transporte. Dentro dessa visão mais ampla, o mercado
de trabalho, por exemplo, também é equipamento
"urbano", e nesse complexo, o equipa-mento transporte,
entra como um facilitador ou dificultador do acesso aos equipamentos
urbanos e das relações humanas na região
metropolitana
A metrópole muda sua
cara
O trabalho foi o responsável
pela organização da região metropolitana
e tem relevância entre os equipamentos urbanos por ser
o organizador, não só como a mão-de-obra
que executa, mas enquanto organização de um sistema
de produção, esclarece Paulo Mondin.
Hoje, no entanto, o que nós assistimos é uma mudança
da metrópole industrial para uma metrópole cultural,
onde passam a ter relevância as pessoas, porque na metrópole
cultural e de serviços o que conta mais são as
pessoas do que coisas.
Já se faz necessário uma monitoração
dessa mudança - complementa o pesquisador - que representa
uma mudança de valores, e o que precisa ser feito é
a preparação da região metro-politana como
um todo, inclusive em seus equipamentos, para desempenhar esse
novo papel, pois o foco sai das relações de produção
para a produção de relações, então
o ser humano é que passa a ser o central.
Essa pesquisa é conclusiva a ponto de indicar este caminho:
a valorização do ser humano e a responsabilização
enquanto grupo e indivíduo, sobre o que acontece. Esta
é que é a conclusão geral, da qual podemos
deduzir ações específicas para a valorização
do ser humano. Por exemplo, a cultura brasileira é profundamente
desvalorizada, o nosso cidadão de classe mais baixa é
percebido como um desvalor por não participar de uma
cultura que é alienígena, de primeiro mundo, e,
no entanto, esse concidadão é detentor de um saber
extremamente útil e valorizado lá fora, porque
o estrangeiro quando vem aqui, não tira foto do City
Bank, tira foto da baiana de acarajé, exemplifica Paulo
Mondin-Gomide, concluindo também, que "essa percepção
aparece no processo de construção, na medida em
que se começa a entender o funcionamento do ser humano
e a aparente ruptura entre a elite e a massa da população.
Quando você olha com o olho da elite você percebe
um mundo; quando você olha com o olho do cidadão
da classe mais baixa você descortina um outro mundo e
é isso que a pesquisa tenta fazer, lançar um olhar
novo, que não é esse olhar tradicional da elite".
Esses resultados são iniciais, esclarece ele, porque
a pesquisa vai crescendo na espiral, ela só dá
o impulso inicial, este é o papel da pesquisa. Aí
vai se falando de outras coisas, vai se falando sobre vida,
relações sociais, relações pessoais,
relações psicológicas. Dá para falar
sobre tudo, a partir dessa idéia da pesquisa. Ela pode
funcionar como um caleidoscópio, onde se pode ver todas
essas instâncias.
Nesse sentido a pesquisa oferece opção e direcionamento
às políticas públicas? À resposta
não poderia ser outra: "Com certeza, afirma Paulo
Mondin, mas ainda é preciso que também os governos
tomem consciência para este passo, porque há uma
profunda inconsciência daquilo que vivemos, daquilo que
é real, que é factual, porque o que existe de
fato é o que está no coração e na
mente das pessoas e não é pra isso que nós
olhamos, o nosso olhar está nas regras, normas, sistemas,
para outras coisas, mas não para as mentes e para os
corações. Então a primeira coisa é
esta consciência da necessidade de olhar o outro, entender
o outro, e a pesquisa é um primeiro entendimento do outro".
Tipos que definem a dicotomia
metropolitana
A partir dos resultados da pesquisa
qualitativa, discussões em grupo e entrevistas em profundidade,
e basicamente, de uma sensibilidade de conseguir entender que
há complexos de comportamentos, de atitudes e de visões
de mundo que formam uma totalidade, bem na direção
hegeliana do meu tipo ideal, foram construídos tipos
de perfis de cidadãos e municípios da região
metropolitana.
"É claro que nós construímos esses
tipos a partir de um ponto de vista, sendo possível à
construção de outros tipos a partir de outros
pontos de vista, pondera o pesquisador. Eles são úteis
neste momento, porque identificam para nós, enquanto
Secretaria de Negócios Metropolitanos, e na perspectiva
de sermos uma Secretaria de Assuntos Metropolitanos, os aspectos
relevantes na maneira de estruturação e desestruturação
das comunidades, porque não se pode pensar a região
metropolitana como um bloco monolítico. Ela provém
de uma articulação ou desarti-culação
de uma série de grupos. Alguns com recortes geográficos,
mas com outros recortes setoriais e de segmentos. Então
este é um primeiro passo, uma primeira entrada num segmento
a partir de tipos onde o transporte é definidor de tipos,
não como premissa, mas como conclusão. E a partir
dessa atitude, vimos ao que leva isso, que em muitos casos,
leva ao transporte".
Foi também na fase qualitativa da pesquisa, que se percebeu
que há de fato um processo de aculturação,
de rebaixamento da cultura propriamente brasileira, dos nossos
valores mais tradi-cionais em nome de uma falsa cultura estrangeira,
porque ela não é importada na sua essência,
mas nos seus aspectos mais aparentes.
"A melhor imagem, no meu entender, diz Paulo Mondin, é
a de que a elite brasileira procura, se espelha e se imagina
européia ou americana, mas na verdade, tal qual os nossos
ancestrais índios foram seduzidos por miçangas
coloridas, a elite brasileira é seduzida por aparelhos
eletrodomésticos, carros coloridos, mas a relação
de apropriação de primeiro mundo que se estabelece
com esses objetos, é uma relação de adereço,
é uma relação plumária, porque o
ponto de referência da elite, no fundo e de maneira inconsciente,
é de diferenciação da massa da cultura
brasileira. Ela se pensa referida lá fora, mas está
referida aqui nos aspectos de diferenciação, a
partir dos enfeites que ela conquistou, das miçangas
do primeiro mundo. Esta é uma consciência que não
temos", sustenta.
A tônica geral de todos os grupos da região metropolitana
de São Paulo (com exceção de dois) é
a segurança. O cidadão tem medo da violência
física, da perda de bens e de algum envol-vimento com
drogas, seu ou de algum familiar. É notório que
existem fatos reais de violência, mas hoje o medo é
a priori, exatamente porque quando não existe um sentido
de nós o outro é uma ameaça, interpreta
Paulo Mondin. O outro é uma ameaça na medida em
que eu não me identifico com ele. Se eu não me
conheço, esta ruptura esquizofrênica que acontece
- porque eu não me conheço - o outro vira uma
ameaça. Hoje é comum quando alguém te para
na rua para pedir uma informação, você imediatamente
trava, com medo de ser assaltado. Nós chegamos numa situação
tão maluca, que a pessoa pára pra pedir uma informação
e não se aproxima para não gerar medo. Pede a
informação de longe. Coisa mais louca! Exclama.
Apesar da base real, o que faz
esse medo inerente é a falta do sentido de pertinente
ao mesmo grupo. Por exemplo, se eu vou numa assembléia
de sociólogos, eu não tenho medo que o sociólogo
do lado vá me assaltar, porque tem um nós ali
envolvido, mas se eu estou num lugar onde não há
um sentido de nós, o medo aflora. Então essa insegurança
predominante na maioria dos grupos não se fazia presente
quando as pessoas tinham um grupo sólido de referência.
Passando à segmentação
feita a partir dos resultados da pesquisa, Paulo Mondin-Gomide
batizou com nomes distintos os tipos referidos:
O tipo Juquitiba
o É a primeira exceção
deste problema de segurança que descrevemos. Aí
pouco se fala sobre problemas de segurança; o cidadão
se define como morando no interior e não na região
metropolitana; volta-se mais para Registro - onde faz compras,
vai ao médico etc, - que para São Paulo. Se vai
a São Paulo, raramente ultrapassa o bairro de Pinheiros.
Na cidade de Juquitiba, é um cidadão conhecido
e reconhecido pela comunidade. Mesmo desempregado, conta com
a solidariedade do grupo e mantém sua dignidade; as relações
são múltiplas e pessoais, ultrapassando os papéis
sociais (freqüentam a mesma igreja, o mesmo bar, jogam
futebol junto, sabem um onde o outro mora, onde trabalha etc);
tem forte identidade pessoal e comunitária: sabem quem
são, quem é o outro e como manter laços
e relações; não há separação
entre a vida cotidiana e o universo político (conhece
o prefeito antes de ele se eleger e continuarão mantendo
a relação após o mandato); político
tem, além da função racional de administração
da coisa pública, a de redistribuidor de excedente (o
que tendemos a traduzir como função assistencial).
Estão fortemente enraizados e não querem mudar
para São Paulo ou vir trabalhar em São Paulo.
Não conseguem vir a São Paulo diariamente pela
precariedade do transporte; constituem-se em exército
industrial de reserva: quando houver situação
de pleno emprego e necessidade de mão de obra, a sociedade
proverá um transporte suficientemente eficiente para
arregimentar essa mão de obra. O seu símbolo é
a pessoa mais velha da cidade.
Tipo Região Norte
o Está nos municípios
de Franco da Rocha, Francisco Morato, Cajamar, Caieiras, Mairiporã;
que se estabelece quando chega um transporte suficientemente
eficiente para arregimentar a mão de obra disponível.
O transporte tende a ser deficiente e pouco confiável
(trem quebra, atrasa; ônibus sujeito às condições
da única via de acesso a São Paulo, a Avenida
Raimundo Pereira Magalhães). Início da desestruturação
da vida comunitária: passa pouco tempo no município
de residência, já não é conhecido
e não conhece as pessoas; dissolve-se a relação
de solidariedade em caso de perda de emprego; trabalha, produz
riqueza e gasta em outro município, que centraliza sua
vida e onde passa a maior parte do tempo, em cuja vida política
não tem nenhuma ingerência; já não
conhece pessoalmente o prefeito e os vereadores. A vida política
se distancia do cotidiano; tende a interpretar o universo político
como composto de ladrões e aventureiros ("todo político
é ladrão"). Em São Paulo, se sente
discriminado, como cidadão de segunda categoria; o indicador
para isso é seu sapato sujo de barro ou de pó
(estigma). Começa a haver uma perda de identidade, uma
perda de raiz, não se sente pertencendo nem ao município
nem à região metropolitana. Já não
têm clareza de quem são nem de quem é o
outro (daí a insegurança); dada a precariedade
do transporte, o empregador tende a rejeitar os moradores desses
municípios porque sabe que não pode contar com
eles em horários estabe-lecidos - isto os leva a inventar
um endereço em São Paulo quando procuram emprego.
Em São Paulo, pouco conhecem além da Lapa, em
especial as mulheres. A eficiência do transporte define
a maneira de inserção na sociedade: se o transporte
é eficiente, mantém seu emprego e se insere positivamente
como trabalhador, se deficiente, perde o emprego, já
não conta com a solidariedade do grupo comunitário
e é empurrado para a marginalidade. A mesma lógica
vale para o acesso à escola e para o incentivo a adolescentes
para ficar na rua e se envolver com drogas. Nos casos de depredação
de trens deve ser identificado, além do vandalismo e
do comportamento anti-social, um traço de cidadania,
de último grito de quem quer se inserir positivamente
na sociedade - transporte não foi estruturado para o
ser humano, mas para a mão de obra; o transporte não
dá acesso a outros "equipamentos" que não
o trabalho: não há transporte para o lazer (sábados
à noite), para educação (escola noturna,
insegurança nos trens e ônibus), para emergências
de saúde na madrugada (Brasília amarela sem combustível).
O Tipo Itaquaquecetuba
o O tipo de município
se instaura quando o transporte é suficientemente eficiente
não só para levar a população residente
ao mer-cado de trabalho, mas também para acolher e atender
a população de baixo poder aquisitivo, expulsa
de São Paulo, pela transformação de bairros
de classe pobre em bairros de classe média. Criam-se
as "favelas de alvenaria", sem nenhum espaço
social comum (praça, campo de futebol etc); perdem-se
as relações de vizinhança e, por esta via,
de confiança no outro, e a identidade pessoal; abre-se
o campo para o domínio de traficantes; impera a lei do
silêncio, não vi, não ouvi, não digo;
evita-se que as crianças saiam às ruas e as mulheres
da vizinhança pouco se relacionam; há total distanciamento
da vida política, mal se sabe o nome do prefeito e de
nenhum vereador; perda de identidade.
A Baixada Santista
o É entendida como o
trecho que vai de Praia Grande até Guarujá; Bertioga
está se incorporando. Mongaguá, Itanhaém
e Peruíbe são mais nebulosas e um pouco diferenciadas;
há uma utilização do espaço urbano
muito grande por todos os cidadãos. Vai-se a Santos,
ao Guarujá, a todos os municípios; todos se sentem
com direito ao uso do hospital de Santos. As Prefeituras promovem
eventos para turistas que atraem moradores dos diversos municípios,
integrando-os. Praias e barzinhos cumprem o mesmo papel; há
um forte sentimento de orgulho da região em que moram,
que é percebida como mais bonita do que o Rio de Janeiro.
Tendem a conhecer a vida política de cada um dos municípios,
as realizações de cada prefeito; chegam a discutir
a necessidade de uma instância metropolitana jurídica
e política. Os moradores têm um sentimento da História
do município, que faz parte de sua raiz (primeiras cidades
brasileiras), orgulho das raízes e consciência
política.
O Tipo ABC
o Os municípios do ABC,
principalmente os que nomeiam a sub-região, se aproximam
de certa maneira à Baixada Santista; são vistos
como municípios ricos, com equipamentos urbanos, escolas,
shopping e faculdade (símbolos de desenvolvimento), postos
de saúde etc.. Orgulho regional. Há um grande
intercâmbio principalmente entre os habitantes do três
municípios principais, os vínculos são
fortes e se refletem em certo orgulho, mais da riqueza do que
da história dos municípios; o movimento sindicalista
não é citado, deixou poucas marcas conscientes;
vêm a São Paulo de maneira muito instrumental,
apenas para realizar alguma atividade, e não criam vínculos
afetivos com a Capital.
O Tipo Osasco / Guarulhos /
Mogi
o Há uma certa ambigüidade
nos mora-dores deste tipo de município: Guarulhos, a
identificação com sua cidade é maior, tendendo
ao modelo ABC, mas ficam num ponto intermediário; houve
processo acelerado de fornecimento de equipamentos urbanos nos
últimos anos, causa de orgulho para a parcela mais tradicional
da população (da faculdade, do transporte), mas
são cidades que também ficaram rodeadas de Itaquaquecetubas,
devido às recentes migrações; a acessibilidade
a São Paulo é alta, mas não funciona de
maneira integradora, apenas instrumental; pesquisa recente em
Guarulhos (Sebrae) confirma identidade dividida.
São Paulo
O transporte é essencial
porque dá acesso ou possibilidade de acesso a mais lugares,
mas o uso do espaço é bastante restrito. Há
meia dúzia de trajetos que são privilegiados:
a casa da sogra, o trabalho, o barzinho habitual; o centro da
cidade deixou de ser um espaço comum, nós perdemos
esta referência do centro; o paulistano tem uma consciência
dos contornos de sua cidade e é capaz de enumerar os
bairros até o limite, mas evita os bairros mais distantes
por insegurança; evita ainda mais os demais municípios
da região, com exceção do ABC. Têm
medo de assalto e de outras violências: a visão
que se tem é a de que quanto mais se aproxima dos limites
do município, maior é a insegurança, maior
a marginalidade e maior o risco de assalto. A maioria dos habitantes
não é nativa; dificilmente se mora na casa ou
no bairro em que se nasceu, há portanto poucos vínculos
afetivos com o bairro de residência atual; perdeu-se o
sentimento de "nós", paulistas ou paulistanos,
na medida em que a bandeira do desenvolvimento, do trabalho
e do progresso apresentou-se na sua outra face: insegurança,
má qualidade de vida e poluição. Não
há vínculo histórico, se conhece Nóbrega
ou Anchieta é apenas uma informação de
cultura geral, e não de raiz; a insegurança é
fruto não só do real aumento de criminalidade
mas da falta de um "nós" que referende uma
confiança a priori no outro.
O Tipo Diadema
o Trata-se menos de um tipo
de município que de cidadão; o grupo em questão
tinha alto número de pertencentes a igrejas pentecostais.
Têm cons-ciência do crescimento de Diadema, que
cresceu, se modernizou e disponibilizou equipamentos urbanos
e uma boa rede de transportes; conseguem acesso ao mercado de
trabalho num âmbito geográfico amplo e, por essa
via, a cursos de desen-volvimento nas empresas onde trabalham;
evidente ascensão social. Ainda que pertençam
à classe pobre, melhoraram de vida nos últimos
anos, deixaram a favela e foram para apartamentos tipo Cohab;
conseguiram uma nova identidade (de "crente"), uma
nova comunidade e um novo grupo de solidariedade, que atua até
no sentido de auxiliar a conseguir emprego em caso de necessidade;
diferentemente da igreja católica, que ao voltar-se para
as camadas menos favorecidas, tratou-as como massa para reivindicações
políticas, as igrejas pentecostais trataram do indivíduo,
dando conta de suas necessidades pessoais, novidade: movimento
carismático; não engrossaram as fileiras dos expulsos
para a periferia, porque contaram com o grupo religioso de solidariedade;
preocupa-se menos com segurança, por serem mais confiantes,
mais centrados em si e com maior identidade.
Essa pesquisa mostra que é essencial o estabele-cimento
de um diálogo com estas populações a respeito
de suas problemáticas de transporte, saúde, educação
e de vida, adverte Paulo Mondin-Gomide, porque é o transporte
que na prática define os contornos da região metropolitana,
aquela que permite um acesso fácil, quotidiano, diário
entre os diversos municípios. A rede de transporte dá
esse contorno e foi se estabelecendo de forma desorganizada,
atendendo às necessidades de recrutamento da mão-de-obra.
Na medida que se precisa de uma mão-de-obra e ela existe
em uma comunidade, coloca-se uma linha de trem ou metrô,
para trazer essa mão-de-obra para o trabalho. Esta foi
a lógica que criou essa região metropolitana.
O segundo momento desse modelo foi o da expulsão das
camadas mais baixas para os municípios vizinhos. Em Guarulhos,
por exemplo, a maior parte dos seus moradores não nasceu
neste município, mas em São Paulo, Capital, e
isso quer dizer que essas populações foram expulsas
por contas das transformações de bairros de classe
pobre em bairro de classe média e média alta,
como Pinheiros e Itaim Bibi, que viraram bairros com prédios
de luxo e comércio, enquanto a classe mais baixa e pessoas
que moravam à beira dos córregos e rios - Água
Espraiada, por exemplo - foram expulsos para o Pantanal, Itaquera,
e para outros municípios como Guarulhos, Osasco, Itaquaquecetuba
etc..
Entre os tipos identificados não é possível
destacar algo em especial, porque a descrição
é muito extensa, explica Paulo Mondim, mas podemos pincelar
algumas coisas, mais pelo aspecto curioso que pode levar a uma
consciência do que como uma prioridade se a gente elencar
assim. Quando se faz uma comparação entre a Baixada
Santista e São Paulo, percebe-se uma profunda diferença
no nível de enraizamento. Durante as discussões
em grupo na Baixada se menciona Martin Afonso, Brás Cubas
como raiz, algo assim: "eu, santista, quando falo de Martin
Afonso, estou falando de mim".
Já nos grupos de São Paulo, em nenhum momento
citou-se Anchieta ou Manoel da Nóbrega. Não há
essa raiz. Quando a questão é colocada para pessoas
de nível de instrução mais elevado, elas
são capazes até de citar, mas como quem diz como
extrair uma raiz quadrada, não é um referencial
interno, é uma coisa exterior, uma informação
superficial. Donde se pode concluir que o nível de enraizamento
dos paulistanos é muito baixo, por conta de uma maneira
tecnicista, que se implantou a partir da década de 60,
de negação da História e de um olhar para
o futuro, que foi idealizado como um futuro tecnológico:
a indústria crescendo e crescendo; São Paulo não
pode parar, a locomotiva do Brasil, onde trabalhamos produzindo
mercadoria, pois é isto que se diz. Quando as indústrias
pularam fora, acabou o sentido de nós que existia, nós,
homens do trabalho, e sobrou a má qualidade de vida,
poluição e a insegurança. Perdemos o referencial
de raiz que tínhamos, perdemos o centro da cidade, fomos
perdendo as coisas que davam um sentido de totalidade, de um
grupo que, quando um olha para o outro, diz: nós pertencemos
ao mesmo grupo. O paulistano não olha para o outro com
este olhar, olha o outro como uma ameaça.
No tipo de São Paulo esse é um aspecto marcante,
a perda de raiz não apenas do ponto de vista social,
mas também pessoal, pois poucas pessoas moram no bairro
onde nasceram. Elas moram no bairro onde compraram um Plano
100, mas não criaram uma raiz com o local onde estão,
não conhecem o vizinho. Há um grau de isolacionismo
e ausência de vida comunitária muito alto.
No cenário metropolitano, esses tipos distinguem qual
é o grau de vida comunitária que permanece, e
ela vai num gradiente, onde a vida comunitária é
efetivamente presente, no caso de Juquitiba ou regiões
de Osasco, Biritiba-Mirim e Salesópolis, e até
na própria São Paulo, em trechos dos bairros da
Mooca e do Ipiranga, para citar dois exemplos, existem certas
ilhas de comunidade num quadro geral não comunitário.
Continuando a exposição da sua análise,
Paulo Mondin-Gomide recorda que este processo é extremamente
complicado e profundo e que o transporte tem um papel nisso
porque é como se o cidadão não estivesse
onde está, pois quando está num espaço
e não o compartilha com o outro, está ausente.
A mente está em outro lugar, há um processo esquizóide
e isto começa no transporte coletivo.
Explicando um pouco mais esse mecanismo: quando se vive uma
situação desagradável se processa uma ruptura
entre a mente e o físico, entra-se num estado de devaneio
e não se vivencia o problema presente. Digamos uma situação
em um ônibus lotado. O indivíduo tem duas alternativas:
vive aquele problema e aí se tem a promiscuidade sexual
ou violência, porque o assédio sexual não
é uma questão de tara, mas das condições
ambientais. Se alguém está colado no corpo do
outro, se inicia uma relação sexual, não
tem como, ou o indivíduo entra num processo de ruptura
e põe a sua mente no capítulo da novela de ontem,
no trabalho, na briga com a mulher, menos ali, na condução.
Este é um processo de ruptura que é normal e que
é saudável para resolver um problema desagradável.
Mas quando isso não dura quinze minutos, mas uma hora
e meia a duas horas e acontece todo dia, essa ruptura se instaura
como processo vital. Se a pessoa enfrenta esta situação
por quinze minutos uma vez por semana, acabou a situação,
centrou-se e se organiza novamente. Mas se fica duas horas de
manhã e mais duas horas no fim do dia, amanhã
faz igual e no dia seguinte a mesma coisa e, assim sucessivamente,
instaurou-se um processo esquizóide de não viver
o real, mas a fantasia. Seu corpo está presente mas a
mente encontra-se noutro tempo ou espaço. E isto como
processo, ele não consegue mais me relacionar com o outro,
ser cidadão, porque o processo de cidadania exige uma
integração entre o físico, o mental e o
emocional. Criou-se essa ruptura e não tem mais cidadania
e não tem relação com o outro, é
individualista, cada um está no seu processo de ruptura,
cada um num lugar, apesar de todos estarem em volta da mesma
mesa, as mentes estão cada uma em um lugar.
"Essa pesquisa pode ser entendida como uma intervenção
para despertar a consciência metropolitana, na medida
em que eu não faço uma mera apresentação
da pesquisa. Normalmente a gente faz uma lista de perguntas
para as pessoais que querem trabalhar no tema, mas infelizmente
eu não tenho tempo para poder organizar esses grupos,
mas tem muita gente que gostaria de trabalhar nesses objetivos",
lamenta Paulo Mondin-Gomide.
A expectativa sobre a forma como as pessoas trabalhariam esses
aspectos de cidadania seria no sentido de aprofundar uma série
de questões que são levantadas e que não
cabem à Secretaria de Negócios Metropolitanos
aprofundar, mas a grupos específicos de universidades
e outros segmentos que possam trabalhar, ou seja, começar
a olhar pro outro na sua comunidade ou no seu trabalho, e estabelecer
um diálogo efetivo e eficaz. Talvez a criação
de grupos de discussões através de grupos de e-mail,
com programáticas próprias, propõe Paulo
Mondin. A questão que eu levantei do samba, por exemplo,
ou do processo de ruptura, tudo isso merece um estudo aprofundado,
porque são hipóteses que eu trato como verdades,
mas ainda são hipóteses. Trato-as como verdadeiras
na medida que há uma coerência interna, no entanto,
é preciso investigar cada questão para ver se
é isso mesmo. Esta Secretaria, no entanto, está
buscando parceiros para discutir algumas temáticas.
Há um experimento clássico na Psicologia que é
o dos ratos, no qual você vai enchendo a gaiola de ratos,
continua dando água e comida, mas começam a surgir
alguns comportamentos patológicos: de comer demais, de
um não deixar o outro comer, de agressividade etc. A
gente entende então, que o processo de aglomeração
é um processo que leva a patologias, por isso entendo
que isto mereceria, no estudo das relações metropo-litanas,
alguns aprofundamentos. Imaginemos, a partir desse exemplo,
o que acontecerá se eu começar a tirar ratos quando
chegar no patamar em que o processo patológico se instaurou;
o comportamento se extingue ou se mantém? Indaga o coordenador
da pesquisa. Aí entram os estudos específicos,
que podem lidar com outras variáveis, como tipo de ventilação,
cor, musica, será que se consegue minimizar estes efeitos,
porque é isso que nós teríamos que colocar
nos meios de transporte. Quais são as variáveis
que aceleram esses processos patológicos e quais os que
desaceleram?
Seria preciso um trabalho conjunto entre Psicologia e Arquitetura,
porque esta última mexe com processos ambientais. Da
Psicologia, nem sei se esses estudos existem, eu não
consigo sair por aí atrás dessas coisas, enquanto
Secretaria de Negócios Metropolitanos. Talvez existam
engavetados numa faculdade, só não foram traduzidos
numa aplicação prática, e essa ponte precisa
ser feita. Traduzir problemas metropolitanos para serem estudados
do ponto de vista teórico pelas universidades e traduzir
as conclusões das universidades para que tenham uma aplicação
prática, o que é diferente de usar a universidade
como braço prático da sociedade. Não, ela
tem que continuar no seu caminho, que o de fazer as traduções
de um campo para outro.
Mais que uma sensibilização, "essa pesquisa
é um processo inteiro que pretende atingir simultaneamente
o físico, o emocional e o mental - esclarece o pesquisador
- mas é claro que as pessoas podem captar as coisas no
nível dominante para cada um, no emocional, ou mental,
assim, cada um vai privilegiar o seu nível. Ela mostra
também que existem algumas rupturas que são absurdas,
por exemplo, o modo como nós segmentamos a administração
pública em federal, estadual e municipal, que pouco se
conversam, não existindo sincronicidade nas ações
entre esses três níveis, o que na verdade se torna
um álibi para não se fazer o que se tem que fazer,
não é meu, é do outro", critica Paulo
Mondin-Gomide.
Mas não são apenas os governo que agem desta forma.
A população não vê isso, apenas diz:
"você é governo, não interessa, vocês
que se entendam, vocês ganham pra isso, vocês que
se entendam com os outros níveis", não quer
saber se é da Prefeitura, da Federação
ou do Estado, porque nós propusemos essa divisão
e vendemos esse peixe achando que ele era mais eficiente, e
agora funciona como álibi para não fazer. Então
é imprescindível que estas se falem e, principalmente,
se acertem".
É fazendo a sua parte, o pesquisador conclui: "é
para isto que a gente ganha, para se acertar com a Prefeitura,
com o Governo Federal, não é para brigar, mas
para entrar em acordo com eles e fazer o melhor para a população,
mas não é isso que a gente vê. Não
é esta a ideologia que temos, não é esta
a nossa visão, a nossa visão é de defender
a corporação: do Estado, se eu estou no Estado,
da Federação se eu estou na Federação.
Só que nada acontecerá enquanto não se
quebrar isso".
Incansável, Paulo Mondin-Gomide, recorda outro ponto
importante do seu trabalho, que é a identificação
do por quê que nós perdemos as relações
comunitárias:
Pela maneira como arregimentamos a mulher para o mercado de
trabalho, afirma. Nós precisamos de mão-de-obra
e dissemos assim: você, dona-de-casa é uma burra,
venha trabalhar fora que se tornará muito inteligente,
como se todo trabalho que oferecêssemos às mulheres
fosse o da analista, da pesquisadora, da historiadora; esquecemos
da ascensorista que passa o dia todo ouvindo 2º, 5º,
13º andar. E como se disséssemos que toda a tarefa
de dona-de-casa é um trabalho embrutecedor e aborrecido,
o que é uma mentira, porque a mulher dona-de-casa depois
de trinta anos vira uma sábia, e a ascensorista, sabe
a mesma coisa de quando entrou na função.
Nessa medida nós perdemos aquilo que era prática
na cultura brasileira e que era assim: você faz um doce
de abóbora e manda um pratinho para a sua vizinha, que
devolve o pratinho com arroz doce, pois não se manda
salada de alface para a vizinha, manda-se o que se tem de melhor,
que você fez de mais gostoso, e isso é profundamente
simbólico, que é você ofertar no alimento
o que tem de melhor. Já a vizinha não te manda
doce de abóbora, porque você já mandou esse
doce pra'ela, isso define uma tineta, um âmbito de atuação.
Ela manda outra coisa, vai buscar outra especialidade, e é
nesse momento que nós temos a base das relações
entre as pessoas, a partir das mulheres e da troca do alimento
de alta qualidade, simbólico, porque quando as mulheres
trocam esses pratos, há uma troca entre famílias
que estabelece a confiança entre vizinhos.
A tessitura social começa neste ponto. Quando a mulher
achou que mandar doce de abóbora para a vizinha é
babaquice, as relações sociais acabaram, não
se troca mais com o outro o que se tem de melhor. Começou
a troca no doce de abóbora e a partir dele as outras
coisas. É por aí que a cidadania não é
um troço agressivo, nem de terno e gravata, a cidadania
é festiva, ela começa nas festas sociais. Mas
como você vai fazer festa social se nem a base que é
do mandar doce de abóbora você não manda?
É claro que há outras determinações,
mas esta é fundamental, para se ter perdido as relações
de vizinhança que se estabeleciam através do feminino,
e o homem, o masculino, se inclui na relação cotidiana,
que é a relação da mulher com a vizinha,
na feira, no açougue, no levar o filho para a escola,
nessa coisa toda. Quando você tranca a criança
dentro de casa, com grades, não as deixa ir brincar na
rua, não recebem e não dão porradas do
outro, para aprender a conviver. Como é que se aprende
a conviver com outros? Lendo Manual de Educação,
de Moral e Cívica? Não, é dando e recebendo
porradas. Quando nada disso acontece, as relações
sociais se esgarçam completamente. E é aí
que entra o papel do equipamento.
Vejamos outro exemplo: as crianças de hoje vivem nos
guetos. No meu tempo brincavam de roda, de esconde-esconde,
de mocinho e bandido, de pagador, todo mundo brincava de tudo,
que se transmitia de grupo para grupo. Hoje o mundo infantil
é mediado pelo adulto, que cria e produz o game, a televisão,
não há uma transmissão espontânea
de geração ao nível infantil, nós
perdemos essa cultura, que era transferência da brincadeira
infantil sem a interferência do adulto. Agora a cultura
infantil é toda mediada pelo adulto. Mas o que se fazia
através dos jogos e brincadeiras só de crianças?
Aprendia-se a se relacionar com o outro. E o que faz o adulto
sério? Faz as mesmas brincadeiras para se relacionar,
porque é a mesma brincadeira de pegador, mocinho e bandido
que está em qualquer projeto, que é treino para
relacionamento, então estes projetos só são
objetos intermediários como o doce de abóbora.
Com a diferença que o doce é uma doação,
e um projeto, não necessariamente é uma oferta,
mas é um passo na construção do aprendizado
de relacionamento.
Passar estas informações para um grupo de pessoas
que traba-lham numa empresa de transporte, significa que nós
estamos caminhando cada vez mais para fazermos um transporte
cidadão, estabelecer laços com as comunidades,
desempenhar o nosso papel. É um trabalho árduo
porque é de mudança de mentalidade, mas estamos
caminhando nesta direção, inegavelmente, alegra-se
Paulo Mondin.
Hoje nós estamos, por exemplo, projetando uma linha,
não apenas no seu aspecto físico - fazer o buraco
e passar o metrô - mas também nos seus aspectos
de relações sociais, quais os indicadores de cidadania,
quais os indicadores de desenvol-vimento humano, quais os indicadores
de geração de emprego, ou seja, aspectos sociais
passam a ser geridos também por quem gera um projeto,
não é mais só um projeto de engenharia,
nós temos que incorporar que qualquer projeto é
um projeto social, então os indicadores e o trabalho
social têm que estar acoplados ao aspecto de engenharia.
Estamos engatinhando, levamos sete anos para sair do deitado
para entrar nas cartinhas. Só que este é um processo
contínuo.
"Os próximos passos dessa pesquisa incluem um projeto
que se chama Usuário Cidadão, antecipa Paulo Mondin,
com o qual estamos entrando em três comunidades ligadas
a obras da Secretaria de Transporte Metropolitano, que são
o Morar Leste, a Linha 5 do Metrô e a extensão
Norte do Metrô, que objetiva reunir lideranças
comunitárias e tentar estabelecer um diálogo,
não de governo para a comunidade, mas de gente pra gente.
Estabelecer uma parceria e uma co-responsabilidade pelas ações".
Por trás de tudo isto, há uma visão que
eu também estou tentando vender, que é a de que
os nossos governos não cumprem a sua função.
Nós temos uma má definição da função
de governo. A função de governo não é
de fazer projeto, de encontrar solução nem de
botar regra. Não! A função de governo é
em primeiro lugar mobilizar os grupos, não só
os grupos comunitários, mas os grupos setoriais, ou seja,
tem a função de mobilização.
A segunda função é de moderação,
porque na hora que se mobilizam grupos aparecem interesses conflitantes.
Nunca mais se ouviu falar a palavra moderação
depois do Império - onde tínhamos um Poder Moderador
- e caímos na falácia de que esses interesses
individuais estarão representados nas assembléias
e nos partidos, e de que lá as coisas se resolvem. Não
se resolvem. É preciso que se instaure um Poder Moderador
nos grupos e façam com que as pessoas entrem em acordo,
o que não é difícil quando há clareza
ao trabalhar com esses dados. É próprio da cultura
brasileira entrar em acordo, recorda Mondin. Quando a gente
diz que tudo acaba em pizza, quer dizer, nós entramos
em acordo a respeito de tudo. Isto é uma vantagem e é
por isto que nós não jogamos bombas uns nos outros.
Tem-se aí o Carandiru, Candelária etc, ou seja,
aqui não é um mar de rosas, mas a nossa índole
é inclusiva, de ouvir o outro e tentar entrar em acordo,
e este é o papel essencial dos governos, ou seja, primeiro:
mobilizar; em segundo lugar, moderar, e terceiro, viabilizar
técnica e financeiramente as soluções que
os grupos propõem. Mas é uma viabilização,
não a responsabilidade pela implantação,
que isto é conjunto com o grupo.
Quem sabe qual é a rua a ser asfaltada numa comunidade?
Indaga, para responder: É a comunidade, não é
o meu técnico da Secretaria. O Mário Covas chegava
numa comunidade com o plano de um técnico e dizia, vamos
asfaltar tais e tais ruas. A comunidade dizia, não! Nós
queremos asfaltar aquela ruazinha porque ela está no
alto do morro e quando chove o caminhão de gás
não sobe. Esta sabedoria não se tem no gabinete,
só no contato com a população.
Claro que os recursos são limitados, mas é a população
que vai dizer o que prefere, se quer uma creche, escola, um
parque ou um circo. É isso que precisa ser estabelecido.
Não pegar um projeto do gabinete e dizer para a população,
engula. É jogar dinheiro fora! O arquiteto sabe disso,
quando ele vai fazer uma casa para o sujeito de classe A ouve
o filho, a mulher, é feita em conjunto com quem vai usar,
mas quando vai fazer um conjunto habitacional, ele ouve alguém?
Quando nós propomos uma arquitetura e regras de projeto,
nós ouvimos o outro? Temos que pegar essa sabedoria do
arquiteto para ouvir o outro e perguntar: você vai usar,
como será, como você quer? Quer a parede rosa ou
cor de abóbora?
Na linha do projeto Usuário Cidadão com grupos
nas comunidades, há também grupos internos para
desenvolver aspectos de cidadania na própria Secretaria
- onde existem 10 mil funcionários e cerca de 150 pessoas
com envolvimento nessa questão. "Mas a quantidade
não é o problema, pois o que vale é a qualidade"
diz um confiante Paulo Mondin. A pesquisa tem resultados práticos
nesse sentido de desenvolver a consciência, a partir do
que as coisas se corporificam em ações.
E finalmente, não podemos esquecer os sonhos deste paulistano
nascido no Bairro da Aclimação em 1946 e hoje
morador de Osasco, "numa região bem periférica,
de classe pobre, onde eu conheço todos os meus vizinhos
e fazemos os pratinhos voadores: o meu sonho é este,
de tornar as relações mais harmônicas, ou
tornar mais claro que as relações já são
harmônicas, nós só não temos consciência.
Basta lembrar a situação de estarmos ouvindo um
rádio com o som que é uma porcaria, e ao darmos
um leve giro no botão, ouvimos um Bach. É só
isso que precisamos fazer".
Esta pesquisa vem sendo desenvolvida sob coordenação
da Secretaria de Transportes Metropolitanos com realização
FIA-FEA-USP e Fundação Escola de Sociologia e
Política, com análise de Paulo Mondin-Gomide,
Bete Azevedo e Cliuton Jr., e colaboração de Regina
Nogueira, a partir de amostra feita em 30 municípios
da Região Metropolitana de São Paulo e 5 da Baixada
Santista. Foram ouvidas 330 pessoas, em técnica qualitativa,
tendo como público alvo população residente,
usuários de ônibus intermunicipal, usuários
com problemas específicos (deficientes, gestantes, idosos),
líderes de opinião (imprensa, políticos
etc.).
O Transporte na Cidade
segundo os usuários do Metrô-SP
A pesquisa "O Metrô segundo seu Usuário: uma
Avaliação do Serviço", vem sendo realizada
desde 1974, com o intuito de seguir a opinião dos usuários
sobre o serviço prestado pelo Metrô-SP. A metodologia
integra uma etapa qualitativa (discussões em grupos de
usuários) e outra quantitativa.
Considerando que a dinâmica urbana não mais admite
um olhar setorizado, restrito a cada modo de transporte, entendemos
que ao Metrô-SP cabe considerar a viagem como um todo,
tal como é vivida pelos usuários. Assim, na última
versão dessa pesquisa, em 2000, buscamos conhecer as
percepções sobre a rede de transportes e apresentamos,
nessa oportunidade, os resultados de sua etapa qualitativa.
Aos grupos foi solicitado que represen-tassem concretamente,
através do uso de sucata como objeto intermediário,
o funcionamento do transporte na cidade. O objetivo foi avaliar
a inscrição da rede de transporte no imaginário
através da territorialização simbólica
de cada modo. Procuramos identificar as funções
e a percepção do papel dos transportes públicos,
confrontando os padrões de mobilidade com os modos de
articulação entre as práticas culturais
efetivas de cada grupo. Procuramos nos ater, principalmente,
ao conjunto de experiências e afetos associados a esse
campo simbólico e às estratégias de enfrentamento
no uso cotidiano.
De uma maneira geral, constatamos que a percepção
dos usuários sobre cada modo e a inter-relação
entre eles se dá a partir de uma lente limitada pelo
seu território de circulação cotidiana
e pela concretitude dos problemas regionais no uso do transporte.
Os relatos espelham os estoques culturais e as experiências
diversas de cada grupo, reproduzindo as desigualdades sociais
e mostrando que o posicionamento dos indivíduos no tecido
social é o fator mais influente na construção
da representação coletiva do sistema de transporte.
Destacamos que entre algumas idéias mais genéricas,
de consenso entre os grupos, está a ausência de
uma gestão unificada ou pelo menos mais entrosada entre
as esferas do poder público sobre o sistema de trânsito
e transporte. Entre os principais problemas do sistema de integração,
também apontados por todos os segmentos pesquisados,
está o descompasso entre os vários modos (filas,
muita espera) e a inexistência de um bilhete único
para uso em diferentes modos.
Para os mais pobres, estar no transporte coletivo significa
uma situação inevitável de submissão
e os identifica como perten-centes a este estrato social: o
transporte coletivo é visto como transporte de pobre.
Hoje a política de integração dos sistemas
produz efeitos perversos para aqueles que usam mais de um modo
de transporte, considerando-se o peso que o gasto com transporte
acaba significando no orçamento familiar e o estresse
causado pelo tempo e desconforto da viagem. Na representação
desse segmento aparecem todos os modos de transporte, sendo
os mais destacados o trem, o metrô e o lotação.
O ônibus, apesar de muito usado, foi alvo de muitas críticas
e o carro está no plano da aspiração.
Alguns julgam que há muitos carros circulando porque
não tem corredor para o ônibus, caso contrário
as pessoas deixariam seus veículos em casa. Outros discordaram,
pois acham que as classes mais favorecidas não toleram
o desconforto do transporte coletivo. Mas os sentimentos demonstrados
diante desta situação aparecem de forma ambígua,
ora como raiva, ora como ironia: "...eu estou melhor no
metrô e dou tchauzinho prá quem está parado
no trânsito...." "...eu preferia mesmo estar
ouvindo uma musiquinha no carro do que estar no aperto...".
O terreno do transporte é conhecido para eles, mas está
longe de proporcionar sensação de bem-estar e
conforto, principalmente nos horários de pico do metrô,
do ônibus e do trem. As pessoas foram representadas em
fila, com alguns desmaiados ou com falta de ar. O lotação
garante o conforto da viagem sentado, mas a sensação
de insegurança física está sempre presente.
Especialmente para essa população, que vive mais
distante dos pólos urbanizados, os terminais de integração
e as estações de transferência intermodais
são referenciais de acessibilidade na cidade e são
vistos como espaços que conferem segurança e permitem
deslocamentos mais rápidos.
No outro extremo, vimos que a classe média alta se coloca
distante da realidade do transporte público. É
um mundo de outros, visto como penalizado e abandonado. No seu
universo, a primeira opção é o automóvel.
Metrô e ônibus aparecem apenas como alternativas
para suas viagens e o trem e o lotação sequer
foram lembrados. A classe média alta expressa incisivamente
a sua possibilidade de opção e a "cultura
do carro". O carro para os mais favorecidos tem um sentido
de proteção e, ao mesmo tempo, de uma arma na
guerra do tráfego. A idéia de abrigo vem da sensação
de, em movimento, se isolar do lado de fora. Mas, a ameaça
deste isolamento ser rompido está sempre presente.
Nesse grupo apareceram autocríticas quanto à postura
individualista dos mais favorecidos, no sentido que, sendo o
segmento mais informado, ele se exclui do problema. Podemos,
com isso, ver que as falas nessa direção reforçam
a auto-imagem de potência do grupo, já que imaginam
que caberia a eles próprios serem os porta-vozes dos
excluídos.
A grande requisição de todos os grupos diz respeito
à expansão de metrô. No cenário projetado
para o futuro, entre as expectativas ressaltam-se: a prioridade
da circulação do transporte coletivo sobre os
carros, com a construção de mais corredores de
ônibus e terminais de integração; melhor
distribuição dos empregos pelas diversas regiões
da cidade e escalonamento de horários de entrada e saída
do trabalho para evitar a concentração excessiva
de viagens um mesmo período; uso de um bilhete único
em todos os modos. Outro aspecto importante mencionado nos grupos,
refere-se à criação de um sistema de informação
ao usuário sobre todos os modos, visando a realização
de trajetos mais racionais na cidade. As classes com maior poder
aquisitivo sugerem, entre outros incentivos, estacionamentos
com descontos para os usuários de metrô, transportes
mais confortáveis e atrativos com preço mais elevado;
associações entre o metrô e grandes empreendimentos,
tal como shopping centers, para facilitar as atividades cotidianas.
Pode-se ver, assim, que cabe, não só ao metrô,
como também às demais gestoras e operadoras de
transportes, um papel mais contundente na vida da cidade. O
desenvolvimento urbano, a diversidade de territórios
dentro da metrópole e as diferentes formas de relacionamento
das pessoas nesses espaços incitam o setor a ultrapassar
o campo de produção de viagens e atuar juntamente
com outros setores públicos. Esse cenário, cada
vez mais dinâmico e complexo, exige um posicionamento
mais sistêmico, integrado e ativo das empresas, como gestoras
da mobilidade e da acessibilidade, concorrendo, em parceria
com outros importantes atores urbanos, para a construção
e desenvolvimento da cidade e da cidadania.
A gravura como apoio à
cidadania
O município de Santo
André, localizado na região metropolitana do ABC,
no Estado de São Paulo, está promovendo a sua
primeira Bienal de Gravura, evento iniciado em novembro e que
se estendeu até janeiro último, onde foram expostos
mais de 500 obras de artistas de Portugal, China, Canadá,
Itália, Venezuela, além dos artistas brasileiros.
Entretanto, a grande novidade foi uma das formas de chamar a
atenção para a Bienal, através da colocação
de painéis nos ônibus urbanos e terminais rodoviários,
como estímulo à participação dos
usuários do transporte coletivo e moradores da região
neste evento.
A mostra competitiva - organizada pela Casa do Olhar, órgão
da Secretaria de Cultura de Santo André - recebeu 118
inscrições de todo o Brasil, somando 350 obras,
das quais 275 foram selecionadas para a exposição.
A Bienal pôde ser vista em vinte espaços distribuídos
pelas sete cidades da região do Grande ABC, além
do Joh Mabe Escritório de Arte e da Gravura Brasileira,
em São Paulo, tendo como enfoque que a mostra iria ao
encontro da população.
Para atingir esse objetivo, os organizadores utilizaram os dois
terminais rodoviários e os 450 ônibus urbanos para
abrigar reproduções das principais obras. "Decidimos
realizar o evento em diversas cidades da região por conta
da simbologia da multiplicação da imagem que a
gravura permite", explica Paula Caetano, curadora do evento,
sendo esta mais uma forma de integrar a região por meio
da arte".
A Bienal de Santo André e a segunda maior do gênero
no País, atrás apenas de Curitiba. O evento foi
dividido em quatro partes: Exposições, Encontros,
Ações Educativas e Projetos . O principal núcleo
de exposições concentrou-se em Santo André.
"A Bienal é uma retomada dos caminhos da gravura
na região, que teve seu período de maior efervescência
nos anos 70 e 80", recorda Paula Caetano.
A lista de brasileiros na exposição incluiu Evandro
Carlos Jardim, Aldemir Martins, Claudio Mubarac, Livio Abramo
e Maria Bonomi entre outros. O time internacional contou com
obras dos portugueses Alvarenga Marques, Teresa Pato e Irene
Ribeiro, da canadense Jeanne de Chantal, do italiano radicado
no Brasil Marco Buti, que teve sala especial, e de artistas
venezuelanos.
A exposicão teve ainda gravuras que traçavam um
panorama da produção contemporânea em Macau,
na China, e exemplares da gravura tradicional chinesa, que foram
exibidas no Brasil apenas uma vez.
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