TEMAS
DE CAPA
abril/2001
ano IV• nº 13
SBPM chega aos 20 anos, como sempre, perseguindo metas e novas
conquistas
Vivenciando todas as fases inerentes
a um organismo vivo e dinâmico, a Sociedade Brasileira
de Pesquisa de Mercado omemora seus vinte anos de existência.
E todos, sejam meros assistentes dessa trajetória ou
provedores de energia para a sua maturidade, congratulam-se
e ressaltam os passos até agora realizados, vislumbrando
futuro promissor.
“Eu acho que nós estamos como todo adolescente
nesta idade. Fortes e vigorosos, sem ganhar dinheiro e procurando
definir novos rumos”, afirma convicta a atual presidenta
da SBPM, Rachel Moreno, psicóloga, atuante há
32 anos em pesquisa de mercado, que continua: "Nesses anos
a SBPM foi um marco, uma referência importante para os
profissionais da área, como espaço de reflexão
sobre as dúvidas e todos os questionamentos que existissem,
assim como foi também importante na tarefa de dar visibilidade
e abrir espaço para a pesquisa de mercado, nos primeiros
tempos.
Presentemente, em função de uma série de
fatores que independem da pesquisa de mercado, e da SBPM, mas
que têm a ver com o nosso mercado - com as inovações
tecnológicas, a globalização e as conseqüências
disso tudo na pesquisa de mercado e para os pesquisadores -
é importante refinar a definição de quem
somos, o que queremos e para onde iremos. É, portanto,
uma crise típica de adolescência, é uma
crise de crescimento. Precisamos nos orientar melhor para nos
dirigir rumo ao que queremos ser enquanto perspectiva no futuro”.
Para retratar a importância da jovem vida da SBPM para
os pesquisadores de mercado, mote de sua existência, e
para o mercado de pesquisa, buscamos depoimentos de ex-presidentes
e pesquisadores que são personagens representativas da
atividade. Alguns não atenderam o chamado, provavelmente
assoberbados em seu dia-a-dia, mas aqueles que doaram seu tempo
a esta tarefa nos deram um quadro de louvores, ressaltando o
objetivo da SBPM em fazer da pesquisa uma atividade com qualidade
e reconhecida.
Continuando, Rachel diz: “Agora, as crises em diversos
setores acabam se refletindo na nossa área. Na universidade,
em virtude da limitação de verbas para educação,
algumas faculdades buscaram uma solução econômico-financeira
constituindo fundações que oferecem serviços,
entre os quais a pesquisa de mercado. E nós estamos sofrendo
a concorrência deste setor.
Paralelamente, temos as licitações públicas,
que são realizadas a partir de uma lei que não
é específica para a prestação de
serviços, tornando-se inadequada porque privilegia basicamente
o menor preço. Há alguns quesitos que visam a
qualificação dos concorrentes, mas por não
conseguir de uma maneira mais refinada essa especificidade,
elas estão abertas a qualquer um, e as empresas de engenharia
- que têm habilidade com as licitações públicas
e a prática de vencer pelo menor preço - têm
ganhado as concorrências de pesquisa. Essas empresas e
outros que não entendem do ‘metier’ estão
presentes e tem concorrido no nosso mercado, mesmo não
sabendo fazer pesquisa. Assessorias e consultorias americanas
ou estrangeiras, com gente que nem sempre entende de pesquisa
também estão entrando no mercado.
Uma outra faceta importante de se considerar são as nossas
relações e vínculos de trabalho que são
muito diferenciados: nós temos desde ‘free-lancers’
que são analistas, constituídos como empresas
porque precisam dar nota fiscal pelos trabalhos que fazem, até
entrevistadores que não têm vínculo empregatício
com as empresas, e que não têm constância
no seu vínculo com qualquer empresa mesmo na condição
de ‘free-lancer’. São relações
de trabalho diferentes do que é o mais tradicional e
tranqüilo. E esse tipo de relação não
acontece sem conflitos e problemas.
Esse cenário todo nos coloca, pelos mais diversos motivos,
a necessidade de regulamentarmos a profissão. É
o único jeito que teríamos para garantir - não
a reserva de mercado - mas a qualidade do trabalho, a nossa
identidade como profissionais, a definição mais
civilizada e harmoniosa das nossas relações de
trabalho, e ao mesmo tempo nos dá as condições
de zelar pela qualidade do trabalho que é prestado, ou
todos nós sofreremos as conseqüências dessa
terra de ninguém onde cada um faz o que acha sem obedecer
aos requisitos mínimos de qualidade - o que acaba se
refletindo enquanto imagem para todos nós.
Presentemente a SBPM está trabalhando com algumas bandeiras:
esta, a da regulamentação da profissão
é a bandeira de maior fôlego, a mais importante,
que nós puxamos - mas que temos clareza que devemos encaminhar
junto com todos os pesquisadores e entidades como Anep, Abipeme,
porque senão não chegamos lá e porque é
do interesse tanto dos profissionais da área, como das
empresas do setor.
Temos também outras bandeiras que são importantes.
Estamos dando espaço grande para a questão da
ética porque estamos preocupados com coisas que vimos
e ouvimos a respeito de como andam as relações
nos mais diversos segmentos do setor. Então de formas
diferenciadas, a cada mês e a cada espaço nós
temos retomado o tema; já fizemos um debate sobre Ética
na Pesquisa, agora estamos com uma matéria sobre ética
no âmbito do recrutamento, estamos discutindo isso enquanto
pesquisa qualitativa e estamos fazendo uma parceria com o Instituto
Akatu, e nos propondo a discutir o consumidor consciente, que
é ainda outra faceta da ética das relações
que compõem o cenário pesquisa-consumo.
Outro espaço é o que chamamos de "Espaço
Crítico" - onde nos propomos a refletir criticamente
sobre nós mesmos, entre pares. O "Espaço
Crítico" abriu uma reflexão sobre recrutamento,
e sobre pesquisa qualitativa e seus rumos. Ali também
retomamos e aprofundamos a reflexão que se inicia nos
debates que promovemos e que passaram pelos ‘Usos e Abusos
da Pesquisa Eleitoral’, pela "Ética na Pesquisa"
e pela discussão da inclusão do ‘Quesito
Cor’.
Fizemos um esforço grande para que os debates fossem
abertos, sem custo, para que pudéssemos sensibilizar
a todos os pesquisadores sem barreiras econômicas e onde
todos pudessem vir a refletir sobre as nossas questões.
Esses três eixos de certa forma têm caracterizado
a nossa preocupação fundamental. De resto, é
continuar tocando tudo quanto foi muito bem feito pelas gestões
anteriores, e que é muito importante. Continuamos editando
a Revista, que tem que cada vez mais ganhar importância
e representatividade no mercado; estamos dando aos cursos uma
formatação mais diferenciada e incluindo cursos
novos - ou seja, estamos fazendo esforços para tocar
em frente, e se possível melhorar, o dia-a-dia e as coisas
boas que nos foram delegadas pelas gestões anteriores.
Finalmente, eu gostaria de colocar ainda o seguinte: para crescer
nós temos que ser fortes, e para sermos fortes nós
temos que nos congregar. Volta e meia nós estamos pedindo
a participação de todos, e mais uma vez voltamos
a pedir a participação de todos, seja nas discussões
sobre regulamentação, nas comissões de
trabalho específicas, na preparação de
debates e festas, ou de qualquer outro tema em que não
tenhamos pensado e que qualquer pesquisador considere importante.
Precisamos da força de todos e de cada um, porque não
se cresce empurrando esse movimento com um pequeno punhado de
voluntários. Então é fundamental mais uma
vez o convite: estamos de portas abertas e muito contentes de
perceber a aproximação de gente nova - entre os
quais, entrevistadores - e o retorno de pessoas queridas. O
que queremos é que esse movimento aumente mais ainda,
até nos envolver a todos”.
Durante esse período de 20 anos, a SBPM teve como presidente
Octavio da Costa Eduardo (1981 a 1983), Eugênia Sara Paesani
(1983 a 1985), Neysa Mendes B. Furgler (1985 a 1987), Maximiliano
Herlinger (1987 a 1989), Alexander Berndt (1989 a 1991), Célia
Lopes (1991 a 1993), Aloysio Jacques Gonçalves (1993
a 1995), Júlio César Gibrail Tannus (1996 a 2000).
O decano da pesquisa
Iniciamos nossa conversa com
o dr. Octavio perguntando-lhe por quê fora atrás
de saber quem era Baptista Cepelos, ao qual fez referência
quando combinávamos o local onde poderíamos conversar.
“Fiquei curioso com o Cepelos. Fui procurar e descobri
que ele era um jovem promotor paulistano que se apaixonou por
uma moça da classe alta de São Paulo e os pais
se opuseram ao namoro. Era o começo do século
XIX, uma época em que os padrões morais eram muito
rígidos e uma família tradicional certamente achava
que a filha merecia um casamento melhor do que com um promotor
público pobre. Nessa ocasião ele já tinha
poesias publicadas. Desesperado ele suicidou-se”.
Batista Cepelos é o nome da rua onde se encontra a sede
do INESE - Instituto de Estudos Sociais e Econômicos,
do qual é diretor-geral. Essa é uma marca do decano
da pesquisa de mercado e opinião pública no Brasil,
Octavio da Costa Eduardo, 82 anos de idade cronológica
e 52 de idade biológica - diverte-se ao fazer esta afirmação
- que é um dos idealizadores e primeiro presidente da
SBPM (Sociedade Brasileira de Pesquisa de Mercado), no período
de 1981 a 1983.
E como nasceu a SBPM?
Estávamos no ano de 1981 e a idéia de criação
de uma associação de profissionais de pesquisa
de mercado não era nova, recorda o dr. Octavio. Outras
pessoas haviam tentado, houve inclusive eleição
de diretoria, cujo primeiro e único presidente foi Júlio
Vercesi que trabalhava na Mcann Erickson. Mas os esforços
para constituir a primeira associação foram marcados
por divergências entre os seus membros porque alguns defendiam
que a associação fosse principalmente de entrevistadores
e outros pretendiam que tivesse cores ideológicas e se
constituísse um sindicato, e havia outros que pensavam
exatamente o contrário, que deveria ser uma associação
para não só defender os interesses dos profissionais
da área como também para desenvolver o ‘spiritu
corpus’ do grupo e além disso promover o desenvolvimento
cultural dos profissionais. Isso deve ter acontecido por volta
de 1975 ou 1976.
Foi em uma reunião promovida pela Eugênia Paesani,
com a presença de umas 18 pessoas - e na qual um dos
objetivos era convocar profissionais de pesquisa no Brasil para
se associarem a Esomar - que se retomou a proposta de criação
de uma sociedade de profissionais de pesquisa. Quando alguém
me perguntou se eu ia me inscrever na Esomar eu respondi: gostaria,
mas no momento, não me sinto bem me filiando a uma sociedade
internacional sem que antes haja uma associação
de profissionais da área no Brasil. Alguém retrucou:
isso não dá certo! Veja o que aconteceu da última
vez.
Eu ponderei que o fato de ter acontecido tudo aquilo antes não
significava que nós não pudéssemos constituir
uma sociedade de profissionais para valer. E perante a idéia
lançada da formação de uma nova associação,
um dos presentes fez um desafio: eu aposto com você o
que você quiser que não vai dar certo. Nós
não temos capacidade de união, ao que respondi
dizendo que tínhamos criado a Abipeme e que não
via razão para que não criássemos uma associação
séria voltada para o crescimento dos profissionais e
para o desenvolvimento da pesquisa de mercado no Brasil, e essa
pessoa propôs: então vamos apostar uma caixa de
garrafas de uísque. Apostamos e eu nunca recebi porque
a pessoa não cumpriu a promessa que pagaria se perdesse.
As pessoas acharam a idéia interessante e constituímos
uma comissão encarregada de trabalhar para elaborar os
estatutos. Como eu tinha lançado a idéia, praticamente,
e tinha uma certa experiência e familiaridade com a constituição
de sociedades da natureza que pretendíamos fazer, porque
além de advogado - sou mais bacharel que advogado - havia
sido o primeiro presidente da Abipeme e trabalhado na elaboração
dos estatutos juntamente com outros companheiros e havia sido
presidente do Tênis Clube Paulista, eu levei para as reuniões
os estatutos do Tênis Clube e a SBPM tem um estatuto que
pelo menos na estrutura geral é baseado no estatuto do
Tênis Clube, como a forma de eleição, constituição
de um conselho. Fizemos diversas reuniões em lugares
distintos, ora no meu escritório, ora na Lintas, ora
na casa da Neysa, e depois de quinze ou dezoito reuniões,
acho que em novembro de 1981, fizemos uma reunião solene
de constituição que teve lugar na Vila Mariana,
numa grande sala que nos foi cedida pela Hidroservice. Deu certo
porque já havia antecedentes e os profissionais estavam
maduros para essa idéia. Foi assim que se formou a SBPM.
A meu ver, nós todos que fomos os fundadores da SBPM,
um sucesso espetacular porque tivemos mais de 400 pesquisadores
que assinaram a ata de fundação e aprovaram os
estatutos, nós todos podemos sentir uma certa ponta de
orgulho porque a Sociedade teve um grande desenvolvimento, aos
trancos e barrancos em algumas ocasiões, mas de uma maneira
geral é um sucesso. As atividades da SBPM se desenvolveram
muito especialmente nos últimos quatro anos, quando o
Julio Tannus assumiu a presidência, depois de uma fase
difícil. Alguns até pensaram que se devia fechar
a Sociedade, mas esta fase foi vencida galhardamente pelo idealismo,
pelo esforço e pela boa vontade de um grupo importante
de profissionais de pesquisa bem mais jovens do que eu, uma
nova geração, e os últimos anos têm
sido de crescimento da SBPM, o que é um importante acontecimento
numa área que se torna cada vez mais relevante na atividade
econômica do Brasil e de opinião pública.
Outro marco da SBPM é ter proporcionado a possibilidade
de desenvolvimento dos profissionais da área, através
de um programa de cursos iniciado há alguns anos atrás
e que tem produzido resultados muito bons. E além disso,
com o início da publicação da Revista da
SBPM, eu acho que a Sociedade marcou a sua presença definitivamente
na vida não só profissional e econômica,
como cultural do Brasil. Eu me sinto muito feliz e orgulhoso
de ter participado para o desenvolvimento da SBPM.
Escolhido pela pesquisa de mercado
Estudante de Direito e da Escola
de Sociologia e Política, onde aprendia métodos
de pesquisa, o dr. Octavio foi bafejado pela pesquisa de opinião
logo no início da sua atuação profissional,
conseguindo um estágio no Departamento de Cultura da
Prefeitura Municipal, na Divisão de Documentação
Social e Estatística, na época chefiado por Mário
de Andrade. É a partir de então que vêm
suas lembranças:
Eu era um caipira de Bebedouro que aos dezessete anos veio para
São Paulo e foi fotografado na Avenida São João
com a aba do chapéu puxada para baixo, num dia chuvoso,
não porque eu fosse importante, mas porque tinha um fotógrafo
lá que fazia foto de quem quisesse. Esta é a minha
a primeira memória de São Paulo que eu guardo
até hoje, recorda-se ele. Como estudante de Ciências
Sociais, fui contratado como pesquisador pela Prefeitura em
1938, fazendo a tomada de preços de bens alimentícios
- verduras, legumes e frutas -nas feiras livres, empórios
e quitandas. Os supermercados em São Paulo chegaram no
fim da década de 40. Além das pesquisas de preços,
fazíamos pesquisas sobre padrão de vida das classes
mais pobres de São Paulo, especialmente dos lixeiros.
E foi em 1940, quando chegou ao Brasil o pesquisador americano,
Lloyd Free, que se realizou o primeiro estudo de opinião
pública no Brasil, cujo objetivo era determinar como
reagiria a população brasileira com relação
à eventual entrada dos Estados Unidos na guerra e como
se posicionava o povo brasileiro com relação aos
países do eixo, Itália, Alemanha e outros países
de formação democrática como a Inglaterra
e França. Foi na Prefeitura e nessa pesquisa que era
nacional, onde adquiri a minha experiência de campo. A
pesquisa envolvia as capitais e diversas cidades do Interior.
No interior do Rio Grande do Sul encontrei pessoas que falavam
só o Alemão. Esse foi o meu batismo de fogo.
Depois que eu terminei o curso na Sociologia, em 1940, tive
a sorte de ser favorecido com uma bolsa de estudos e fui para
os Estados Unidos, ficando lá durante quatro anos. E
em 1945 iniciei a minha atividade profissional como professor.
Em 1948 o professor Donald Pearson, através de quem eu
tinha sido empurrado para ir aos Estados Unidos, me chamou na
Escola de Sociologia e me apresentou um americano, chamado Elmo
Wilson, diretor de uma empresa de pesquisa americana que fazia
estudos para universidades, empresas e o governo americano.
Viera ao Brasil para fazer duas pesquisas para a Esso, interessada
em saber para onde penderia o povo brasileiro com relação
à exploração do petróleo, estatização,
só por empresas particulares, ou uma operação
mista, pelo governo e empresas particulares, como temos atualmente.
Na época discutia-se muito como explorar o petróleo
brasileiro e a Esso tinha interesse na prospecção
e instalação de refinarias de petróleo
no Brasil, que ainda não tinha nenhuma, só alguns
campos eram explorados na Bahia, e mais nada. Havia, entretanto,
a perspectiva de que houvesse petróleo devido à
extensão territorial e o crescimento da população,
o que tornaria essa exploração um grande mercado.
Nesse encontro com o senhor Wilson ele me disse que o professor
Pearson lhe dissera que eu já tinha experiência
em Ciências Sociais e era um pesquisador com experiência
em pesquisa de opinião pública, então ele
queria me convidar para formar e dirigir uma equipe de pesquisadores
para fazer uma pesquisa de opinião pública sobre
o que achava o povo brasileiro a respeito da participação
do capital estrangeiro na exploração do petróleo
no Brasil.
Assim, em fins de 1948 fizemos uma amostra em São Paulo
e Rio de Janeiro, principalmente. A pesquisa foi realizada segundo
os procedimentos traçados pelos americanos. Traduzi o
questionário que era em Inglês, testamos e discutimos
os problemas de amostragem e como deveria ser feito o estudo.
E havia a seguinte circunstância: o cliente desejava não
só verificar a opinião do público brasileiro
como acompanhar o desenvolvimento dessa opinião após
uma campanha de publicidade que iria ressaltar a contribuição
importante que poderia ser prestada pelo capital estrangeiro
e pelo know how das grandes empresas, Esso, Shell, para o desenvolvimento
da indústria do petróleo no Brasil.
Fiel a esse projeto inicial nós fizemos a primeira pesquisa
antes da campanha publicitária, feita especialmente em
jornais e através do rádio, não havia televisão.
Foi uma campanha muito intensa em que se mostrava que o petróleo
era um negócio muito sério para ser explorado
e que para a descoberta de petróleo era necessário
investir muito dinheiro, know how e pessoal especializado, principalmente
o processamento de petróleo. A campanha durou quatro
ou cinco meses e nela se dizia a importância que teria
o capital estrangeiro para o desenvolvimento da indústria
petrolífera no Brasil.
Terminada a campanha fizemos um novo estudo usando uma amostra
com as mesmas características da inicial para ver a comparabilidade
dos resultados e todo mundo caiu do cavalo, porque o petróleo
era nosso mesmo. A opinião pública brasileira
se opunha terminantemente a qualquer intervenção
do capital ou do know how estrangeiro. Na época o governo
era estatizante e desenvolveu uma forte campanha, o Petróleo
é Nosso, principalmente nas fases de governo de Getúlio
Vargas. A análise final demonstrou que a campanha publicitária
foi um bumerangue, ao invés de atingir o público
alvo de maneira convincente, convenceu ao contrário;
o bumerangue voltou para quem o atirou, conta às gargalhadas,
o dr. Octavio, que continua: esse foi o primeiro grande projeto
de pesquisa de opinião pública e de mercado do
qual eu participei já como gerente de um grande projeto.
Eu sou o decano, a pessoa que está em pesquisa de mercado
no Brasil há mais tempo. Registrei isso em artigo publicado
no número 1 do Boletim da Abipeme - maio de 2000 -, onde
mostro que a primeira pesquisa de opinião pública
realizada no Brasil foi feita em 1940 e 1941. Dirigida por um
professor da Universidade de Princeton e da qual participei
muito jovem ainda, como entrevistador e supervisor de campo.
Desde 1940 que eu faço pesquisa.
E o começo da indústria da pesquisa no País?
O dr. Octavio afirma que a pesquisa de mercado no Brasil é
uma atividade heróica e que no início foi uma
guerra.
O Ibope foi pioneiro e fazia pesquisa de flagrante de audiência
de rádio de casa em casa, algumas pesquisas com consumidores
sobre uso de pasta de dentes, sabonetes, produtos de consumo
popular. Vendia as suas informações sobre audiência
de rádio para empresas de publicidades e as próprias
rádios. Mas era uma atividade pequena e muito difícil
porque as empresas não pensavam em fazer pesquisa de
mercado. Salvo algumas empresas estrangeiras como a Colgate,
Kolinos e Gessy Lever que achavam interessante, a pesquisa era
totalmente estranha às empresas brasileiras. O governo
não era cliente e nunca foi bom cliente de pesquisa de
opinião pública no Brasil. Talvez nesse último
governo - pensa um pouco - tenham investido mais dinheiro para
avaliar a opinião pública perante alguns projetos
governamentais que tenham algum interesse por parte do governo.
As empresas de pesquisa eram pequenas. O Inese, criado em 1955
era o dr. Octavio e mais ninguém. Tive excelentes colaboradores,
como Juarez Brandão Lopes, que depois foi professor da
Universidade de São Paulo e atualmente ocupa cargo importante
no Ministério da Reforma Agrária, excelente sociólogo,
com muitos livros publicados; o Paul Singer foi meu analista,
o Rodolfo Azzi, psicólogo, que também foi meu
analista, o Pergentino Mendes de Almeida que saiu da Lintas
e foi trabalhar comigo, e muitos outros, mas não havia
condições para o desenvolvimento da pesquisa.
Nós lutávamos bravamente para vender os nossos
serviços e éramos poucos. Quando se criou o Inese
havia só o Ibope e o Departamento de Pesquisa da Mcann
Erickson e mais ninguém, e era difícil convencer
os clientes potenciais de que a pesquisa de mercado não
era despesa, mas investimento. Ainda hoje muita gente acha que
sabe de tudo e não precisa gastar dinheiro em pesquisa
de mercado: ‘eu vendo o meu produto e sei o que os meus
clientes querem’, é o que dizem. Mas não
sabem nada!
As empresas de pesquisa que iniciaram a atividade e as que vieram
depois tiveram muita dificuldade para criar clientela, convencer
as empresas de que a pesquisa de mercado não deve ser
considerada inútil, mas um investimento que pode beneficiar
a empresa com a melhoria do seu produto e os seus meios de comunicação
com o consumidor. Hoje a indústria de pesquisa está
definitivamente consolidada. Antes da desvalorização
do real há três anos, vendia-se em torno de 250
milhões de dólares por ano de pesquisa; hoje provavelmente
estamos vendendo em torno de 400 a 500 milhões de reais
de pesquisa por ano, existem mais de 250 empresas de pesquisa
de diferentes portes, cerca de dez de grande porte, cerca de
30 de médio porte e as restantes pequenas empresas. Algumas
empresas como o Ibope se expandiram para a América Latina
e tem hoje um faturamento de 70 milhões de reais por
ano, outras empresas como a Research International deve estar
vendendo mais de 20 milhões, a Indicator e várias
outras que são empresas grandes e consolidadas, com clientela
regular e permanente. A pesquisa de mercado hoje é uma
atividade de reconhecida importância e utilidade”.
Quanto à regulamentação da atividade o
dr. Octavio considera que essa é uma questão que
ele não sabe como será resolvida.
Refletindo sobre a questão ele lembra que hoje não
é necessário ter nenhum diploma para ser pesquisador
de mercado. Não se pede ao profissional que tenha determinado
curso universitário e nem sequer tenha feito algum curso
onde alguma matéria tenha afinidade com pesquisa, e tampouco
existem em outros países cursos especializados em pesquisa
de mercado, inclusive nos Estados Unidos e no Brasil não
existe nenhuma faculdade.
Antigamente não precisava ter curso de Direito, por exemplo,
porque existia o rábula, mas hoje é exigido isso
para o advogado. Como se justifica do ponto de vista da credibilidade
do trabalho do pesquisador de mercado, como alguém pode
se preparar para ser pesquisador de mercado?
Continuando sua reflexão acrescenta: no Brasil os analistas
têm vindo principalmente das faculdades de Ciências
Sociais e Psicologia porque não sendo uma Ciência
há na pesquisa de mercado a utilização
de conhecimentos de diferentes ciências: Psicologia, Sociologia,
Economia, Antropologia e de Estatística na área
quantitativa, Matemática, inclusive. Então no
Brasil não havia até a década de 50, quando
foi criada a Escola de Propaganda, nenhuma faculdade que ensinasse
pesquisa de mercado. Não me recordo quem foi a primeira:
se a Getúlio Vargas ou a Escola de Propaganda, mas as
duas tinham a matéria Pesquisa de Mercado. As faculdades
de Ciências Sociais e Psicologia não tinham. Eu
tentei implantar na Escola de Sociologia como matéria
e durou um semestre. Não houve muita receptividade. Fui
um dos primeiros professores de Pesquisa de Mercado na Escola
de Propaganda, eu era autodidata, havia aprendido com a prática,
havia estudado, habituado a ler muito eu tinha a bagagem das
Ciências Sociais mas não uma especialidade em pesquisa.
No Brasil os pesquisadores que hoje dirigem empresas e são
gerentes em organizações importantes vieram principalmente
das Ciências Sociais ou vieram de baixo, como entrevistadores,
codificadores que depois abriram os seus próprios institutos
de pesquisa e estão aí oferecendo os seus trabalhos
ao mercado e alguns são firmas de reconhecida importância.
Pegue uma pessoa como o Toledo, que hoje é o presidente
da Abipeme, ele era gerente de marketing da Moinho Santista,
e quando entrou em pesquisa não tinha formação
nem em Ciências Sociais, que ele é advogado, formado
em Direito. Outro, Pergentino Mendes de Almeida, era advogado,
era redator da Lintas que entrou em pesquisa de mercado porque
o trabalho dele na Lintas exigia que fizesse uma avaliação
da propaganda usando meios científicos e ele foi aos
Estados Unidos e quando voltou começou a desenvolver
pesquisa qualitativa. Então nós no Brasil não
temos isso. Há o exercício da atividade mas não
há uma faculdade para a formação de pesquisadores.
Há faculdades de propaganda e Administração
que mantém a cadeira de Pesquisa de Mercado, não
como especialização, mas como matéria optativa.
Daí a importância da SBPM dando os cursos e da
Abipeme que também procurou fazer alguns cursos. Então
apesar de que hoje estão gastando mais de 400 milhões,
a Faculdade pioneira em Administração e Marketing,
que é a Getúlio Vargas, simplesmente reduziu o
status da matéria Pesquisa de Mercado de obrigatória
para opcional. Hoje os estudantes da FGV só fazem essa
cadeira se quiserem, o que a meu ver é uma miopia que
eu não consigo explicar, e inclusive discuti com alguns
professores de lá, onde fui professor também.
É uma miopia porque o braço direito do marketing
é a pesquisa de mercado. Todo mundo reconhece isso. O
que deviam era procurar desenvolver essa matéria.
Essa é a situação, mas como indica a procura
por cursos na SBPM e o que tivemos na Abipeme para a formação
de analistas e gerentes de pesquisa de mercado - onde tivemos
quarenta inscritos e uma lista de espera de cerca de cinqüenta
interessados - há um interesse de pessoas que trabalham
ou não em pesquisa, de ganhar, através de cursos,
subsídios para o seu aperfeiçoamento profissional
nessa área.
Então se pergunta: será necessário, para
o desenvolvimento da atividade no Brasil, regulamentar a atividade
de pesquisa de mercado? Essa é uma questão que
está em debate e que é tratada, a meu ver, de
uma forma extremamente emocional e não racional. Em primeiro
lugar, eu acho, quando se fala em regulamentação,
é preciso verificar se é necessário regulamentar
a atividade a fim de moralizar e impedir que apareçam
os pára-quedistas que se pavoneiam em profissionais de
alto nível sem ter uma formação adequada
para desempenhar bem a sua atividade.
A minha impressão é que valeria a pena sim. Seria
importante para nós termos padrões que seriam
observados para a admissão de profissionais dentro desta
área. Afastaria os pára-quedistas, porque há
gente que faz pesquisa quase sem ter uma base teórica
adequada. Como vamos conseguir isso? Acho que será uma
luta extremamente difícil senão inglória,
porque isso exige um reconhecimento federal, de que a profissão
existe a partir de determinadas normas e padrões e isso
só pode ser conseguido através de uma lei passada
pelo Congresso Nacional.
Como a classe ainda é relativamente pequena e ainda não
é uma atividade econômica de uma importância
avassaladora como Direito e Engenharia, por exemplo, é
difícil conseguir essa regularização. Nós
votamos, há questão de uns quinze anos atrás,
em um deputado federal, o Madeira, que foi pesquisador de mercado
no Grupo Matarazzo, no sentido de nos ajudar no congresso e
nada. De tempos em tempos há um grupo que busca a regulamentação,
mas a meu ver há uma desorientação muito
grande a esse respeito, tanto na ABIPEME, como na ANEP e na
SBPM. Seria interessante ter uma regulamentação
porque seria uma maneira de prestigiar a nossa atividade, de
se dar um status que os profissionais bem formados merecem.
Há um risco, continua o dr. Octavio, porque uma regulamentação
diz o seguinte: só podem exercer a atividade aqueles
que exercem ou vêm exercendo a atividade a mais de cinco
anos. Isso já aconteceu com outras atividades, como a
de Estatístico e Administrador de Empresas. Cheguei a
conhecer estatísticos práticos que não
conseguiram registro porque nunca tinham feito uma faculdade
qualquer, enquanto outros que nunca tinham visto o que era Estatística
obtiveram o tal registro. Para termos o reconhecimento da profissão,
eventualmente nós teremos que ter pelo menos uma especialidade
em Pesquisa de Mercado dentro de uma faculdade. Talvez se constituindo
uma equipe de profissionais de reconhecido mérito e experiência
que avaliem aqueles que estão na atividade e que merecem
efetivamente serem considerados ou não pesquisadores
de mercado. Fazer-se um curso ou uma especialização
dentro de um Curso de Administração de Empresas,
ou Sociologia ou Economia, para que se tenha o germe para o
eventual reconhecimento da atividade. Eu acho que seria importante
fazer isso e eu gostaria de ajudar nisso se pudesse.
Agora eu estou afastado da Abipeme, da SBPM e não tenho
mais como trabalhar como representante de uma associação.
Não pretendo mais voltar e pedi demissão da ABIPEME
porque não concordo com os valores do atual presidente,
uma pessoa com a qual não concordo absolutamente.
Mas acho que a regulamentação é importante
e as entidades têm que somar esforços, fazer pressão
junto ao Congresso Nacional, redigir o projeto e levar de mão
beijada para um grupo de deputados e conseguir que eles coloquem
o projeto em pauta. É necessário esse esforço
conjunto dos presidentes das entidades e de pesquisadores reconhecidos.
Aliás eu perdi a eleição na Abipeme porque
defendia a tese de que não havia mais razão para
a existência de duas entidades representativas das organizações
de pesquisa, seria muito melhor para todos se houvesse apenas
uma organização forte, e não uma forte
que é a ANEP e uma fraca que é a ABIPEME. Tem
tradição mas só isso não basta,
porque não se vive do passado, mas do presente e do futuro.
Hipocritamente essa diretoria diz que tem o mesmo objetivo,
fazer a fusão, mas desde que sejam seguidas as normas
estabelecidas pela ABIPEME e não pela ANEP. Deve haver
um acordo, todo mundo cede um pouco. O entendimento que eu tinha
com o Nelsom Marangoni era no sentido da ANEP ceder em alguns
pontos e nós em outros e no fim conseguir alguma coisa
que fosse para o bem maior. Mas não fui entendido dessa
maneira, então perdi a eleição. Tudo bem!
E ainda quanto a SBPM, gostaria de acrescentar que ela teve
maus momentos mas superou-os e agora está numa fase bonita
de desenvolvimento.
A SBPM - Uma Comunidade
Por Eugênia Sarah Paesani
A fundação da
Sociedade Brasileira de Pesquisa de Mercado foi marcada por
um forte sentimento de comunidade em torno de uma profissão
que parecia ter um futuro promissor e brilhante. Havia o entusiasmo
de um grupo profissional que encontrara a sua identidade e afirmava-se
no mercado.
Saíamos de um período de muita atividade, fértil
em idéias no campo da pesquisa, com novas metodologias
implantadas para atender à expansão da indústria
de consumo que, nos anos 70, registrou o nascimento de inúmeras
categorias de produto. De fato, houvera um desenvolvimento significativo
da pesquisa de mercado, de comunicação publicitária
e de mídia .
A SBPM iniciava a sua programação com Seminários
e Conferências de grande sucesso. Havia muito vigor em
todas as atividades , incluindo aquelas que analisavam o final
de um período sonhador da classe média. Houve
uma seqüência de conferências sobre a classe
média, que acabara de “sair do Paraíso”.
Não nos dávamos conta que se encerrara o período
da ascensão social pela educação. As perdas,
que se acumulavam desde 79, ainda não afetavam substancialmente
a grande classe média ( uma classe executiva.) Não
havia uma clara consciência da natureza da mudança
profunda que estava se processando.
Em todos os encontros havia grande envolvimento emocional. As
pesquisas de opinião estavam retomando o seu lugar, depois
de um longo período sem atividade. O clima era de total
otimismo, mesmo após os percalços que a pesquisa
eleitoral experimentava após um erro de previsão
que levara o Fernando Henrique a fotografar-se na cadeira de
Prefeito que Jânio Quadros, vitorioso, iria ocupar. Na
verdade, considerando-se a margem de erro , as pesquisas indicavam
um empate, com probabilidade para ambos os candidatos. Essa
experiência fez parte de um aprendizado importante para
a pesquisa eleitoral.
Nestes 20 anos que nos separam da fundação da
SBPM houve um crescimento da atividade de pesquisa de mercado
e opinião, que hoje fatura no Brasil mais de quatrocentos
milhões de reais . Mudanças importantes também
ocorreram , com fortes repercussões em nossa atividade
: a globalização, a concentração
de receitas nos centros de decisão, a evolução
da internet, a redução de funcionários
das empresas , as fusões e tantas outras alterações
de ordem.
Mudou o papel da pesquisa nas empresas, mas muitas vezes este
ficou enfraquecido.
São muitos os desafios a enfrentar. Por essa razão
a ESOMAR, como Organização Internacional dos Profissionais
de Pesquisa de Marketing e de Opinião, juntamente com
a ARF Advertising Research Foundation lançaram, no início
deste ano, um movimento - RELEAS, visando o fortalecimento da
atividade.
Como parte do programa a desenvolver-se em três anos,
o RELEAS (Research Leader's Summit), houve duas importantes
reuniões: uma em Genebra, na Suíça, onde
estiveram Paulo P. de Andrade e Eduardo Schubert; a outra foi
em Nova Iorque, onde Bárbara Corrales esteve me representando.
Voltaram à tona as discussões sobre o papel da
pesquisa, as reflexões sobre a identidade do pesquisador
e sobre a nossa dificuldade de nos afirmarmos profissional e
comercialmente, fazendo valer efetivamente nossa contribuição
nas atividades que desenvolvemos
Chuck Chakrapani, em sua Carta do Editor do n.º 3, volume
12 de Marketing Research, publicação da AMA -
American Marketing Association, faz um depoimento que gosto
muito e que transcrevo para encerrar . Diz ele:
"Quando comecei a trabalhar com pesquisa de mercado, há
duas décadas atrás, achava o trabalho divertido,
excitante e estimulante. Nada do que ocorreu durante os anos
que se passaram me fizeram mudar de opinião. As técnicas
quantitativa e qualitativa que usamos, a variedade de assuntos
com os quais lidamos, o número de disciplinas com as
quais interagimos, o leque de tecnologia que utilizamos, a multiplicidade
de problemas que resolvemos e a constante mudança de
ambiente que temos que enfrentar - tudo contribui para nosso
envolvimento profissional. É um privilégio nosso
poder dizer que o conhecimento é nossa disciplina.
E, ainda assim, como profissionais da área não
temos sido bem sucedidos na tarefa de transferir esse estímulo
intelectual, presente em nosso trabalho, para outros - nossos
clientes, os colegas mais novos, e o mundo de um modo geral.
... O fato de estarmos numa profissão que é, a
um só tempo, divertida, intelectualmente excitante e
estimulante permanece guardado no mais absoluto segredo".
Eugênia Sarah Paesani, é sócia fundadora
da SBPM. Foi diretora cultural da primeira diretoria e posteriormente
presidente da SBPM. Foi também membro do Conselho Administrativo
da SBPM e representante da ESOMAR, durante vários anos.
Atualmente é membro do Conselho da ESOMAR, com sede em
Amsterdã, sendo a primeira profissional não européia
a ocupar tal posição.
SBPM 20 anos
Por Julio C. Gibrail Tannus
Em A História das Idéias
no Brasil, João Cruz Costa nos lembra que o nome Brasil
é originário de uma atividade comercial, o Pau-Brasil,
comercializado pós-descobrimento de nosso país.
Essa lembrança é fundamental se quisermos compreender
a importância do fortalecimento das instituições
no país, desde sua fundação até
os dias de hoje. É importante também para compreender
porque desde nossa fundação o aspecto institucional
não é valorizado e devidamente respeitado: funda-se
um país a partir de uma referência comercial.
Dados obtidos através de pesquisa nos indicam que o descrédito
institucional e a falta de participação efetiva
de seus representados, com raras exceções, sempre
pautaram a vida nacional brasileira. O Emprego, A Empresa, de
acordo com esses dados, são praticamente as únicas
instâncias que dão conta da cidadania e do cidadão,
no nosso breve currículo de nação.
Se agregarmos a estes fatos a inexistência de uma formalização
em uma determinada atividade profissional, fica evidenciada
mais ainda a importância de se batalhar para a efetivação
de uma representação institucional forte. Na nossa
compreensão, este é o nosso caso, o dos pesquisadores
de mercado.
Desta forma, não compreendemos a participação
institucional como um sacerdócio, pois não acreditamos
que deva ter qualquer caráter de desprendimento. Ao contrário,
pensamos muito mais como uma obrigação, uma responsabilidade
de cada um, não apenas de filiar-se mas de ter uma participação
efetiva no processo de desenvolvimento e amadurecimento da representação
institucional. É através dela que atingiremos
individualmente e coletivamente a maturidade, a capacidade de
nos compreendermos enquanto atividade, a capacidade de nos representarmos
adequadamente junto à sociedade como um todo. Sem ela
e distante dela, fica fácil criticarmos, atribuirmos
culpa às nossas dificuldades. Com ela e próximo
dela, fica fácil compreendermos as nossas dificuldades,
encontrarmos caminhos comuns para suas soluções.
Daí porque julgarmos de fundamental importância
esses 20 anos de existência da SBPM. É preciso
nos regozijarmos!
Competência e dedicação
Por Célia Lopes
Um fato relevante na história
da SBPM, a despeito das dificuldades, é que chegamos
aos 20 anos demonstrando a competência e dedicação
do ‘Pesquisador de Mercado’, que mantêm a
‘Sociedade’, garantindo o espaço e condições
para integração, debates, trocas de experiência
e manutenção da profissão.
Nestes 20 anos a SBPM vem colaborando para formação
do profissional de pesquisa haja vista que, embora o pesquisador
tenha um papel relevante nos estudos de mercado, político
e social, as entidades educacionais, as universidades dão
pouco espaço para a formação do pesquisador.
O destaque da minha gestão foi a manutenção
da formação do ‘Pesquisador’ através
de cursos e conferências, destacando-se a atuação
de Maria Luiza Peret Antunes, à frente da Diretoria Cultural.
Considero que, se uma nova contribuição pode ser
dada pela SBPM, que já tem um papel importante na formação
do ‘Pesquisador’, com a aproximação
da ‘maior idade’, está pronta para consolidar
e oficializar o reconhecimento da profissão, fato este
que seguramente será conquistado pela atual gestão.
Outra intervenção será
Intensificar as discussões sobre a Ética na profissão
e criar mecanismos para que a ‘Pesquisa de Mercado, Política
e Social’ não se prolifere de forma desregrada,
permitindo a atuação de indivíduos e empresas
que comprometem a eficácia e a credibilidade do pesquisador.
E finalizando, desejo parabenizar a atual gestão, em
particular a qualidade da comunicação com os associados,
destacando-se a Revista da SBPM.
Pena que a SBPM esteja comemorando
20 anos de existência
Por Maximiliano Herlinger
O que é pena? Que esteja
comemorando? Não, acho até que a comemoração
deveria ser maior. A pena é que se comemora apenas 20
anos. Poderia ser muito mais. A primeira vez que houve movimentação
para se formar uma associação de profissionais,
deu- se no final da década de 50 e início da década
de 60. Muita reunião, muita exaustão, pouca ação,
nenhum resultado. Se tivesse dado certo, com algum nome que
certamente seria encontrado na época, estaríamos
comemorando 40 anos.
É assim mesmo. Primeira vez, é sempre primeira
vez. Aprendizado tem custo. E a falta de resultado, deve ser
o estímulo para sua conquista. Foi o que aconteceu em
2 ou 3 anos depois quando também após as muitas
reuniões, nasceu a Associação Brasileira
de Pesquisa de Mercado. Foi legalmente constituída, com
estatuto, diretoria e tudo mais pra ficar nos conformes. Motores
aquecidos, cabeceira da pista... faltou só decolar.
Faltou sede, faltaram os voluntários, talvez programa,
abrangência, mais discussões que separavam que
discussões que aproximavam, enfim, não foi a hora.
Se fosse, estaríamos comemorando algo como 37 anos. Também
é assim mesmo. Peru não morre na véspera.
Da mesma forma, quem tem que nascer, nasce no dia, não
nasce na véspera. (Embora, as vezes, adiante um pouquinho)
mas via de regra não atrasa. Chega no ponto e desponta.
Foi o que aconteceu, finalmente em 1.981. E assim, hoje chegamos
aos 20 anos, ou 4 lustros, ou melhor falando, 1/5 de século.
Nasceu e vem cumprindo o seu papel. Foi, e continua sendo difícil.
Há muitas portas para abrir e melhorar. E por que seria
diferente? A profissão de pesquisador nem existe. Uma
parte que exerce a atividade, não é pesquisador.
Está pesquisador, de passagem. Pagamos Imposto de Renda
no código outros ou em uma profissão indicada
na faculdade cursada. Que, claro, não é pesquisa.
Outras sociedades ligadas à profissão e ao profissional
como a nossa, maiores, com muito mais profissionais que nós
pesquisadores não tem a folha das atividades desenvolvidas
como a SBPM, desde a sua função.
Cursos, seminários, palestras e debates desenvolvidos
nestes 20 anos demonstram a contribuição para
o nosso desenvolvimento profissional. Muitos e muitos, profissionais
deram sua contribuição graças aos quais
chegamos até aqui.
Festas, de aniversário ou não, competições
esportivas, exposições, encontros. É o
olá como vai, há quanto tempo, só aqui
mesmo, você não está mais lá... mostram
o lado humano, e agregador que soma, que quebra a carranca.
Afinal, nem só de pão vive o homem e a mulher
que já é maioria e devem fazer parte do dito.
SBPM - uma sociedade que une o profissional e o humano. Isso
é muito bom.
Aniversário, também, é assim mesmo. Nos
traz recordações, estimula a saudade. Mas é
importante, o futuro e a esperança. Esperança
e confiança na atual geração de pesquisadores,
para que juntos comemoremos os 40 anos da SBPM que hão
de porvir.
Um nome da pesquisa vai ao mercado
testar sua marca
Natural de Regente Feijó,
município próximo de Presidente Prudente, no interior
do Estado de São Paulo, Nelson Marangoni, 56 anos, com
formação básica em Psicologia, estará
a partir de setembro trabalhando em projeto próprio,
ou numa outra empresa que não a Research International
onde ficou por 24 anos.
Revista da SBPM - Qual a sua trajetória na pesquisa de
mercado?
Marangoni - Eu tenho cerca de 29 anos em pesquisa. E só
trabalhei em dois lugares: comecei na antiga Axioma, que pertencia
à J. Roberts Thompson, onde trabalhei quatro anos na
área qualitativa, donde vim para a Mavibel, empresa que
pertencia a Unilever e em 1987 foi vendida ao Grupo Ogilvy,
que em 1989 foi vendido para o Grupo WBP constituindo-se na
Research International. Desde o início de carreira sempre
atuei na área de atendimento, análise e planejamento,
diferentemente da maioria dos pesquisadores que começam
no campo, fazendo codificação, entrevistas etc.
Quando fui para a Mavibel em 1977, como gerente, aprendi a parte
quantitativa e fiz contato com a área de marketing. A
partir daí atuei nas duas áreas. Fiquei como gerente
de atendimento e planejamento até 1986. No ano seguinte,
em 1987, assumi a direção geral da empresa, onde
me encontro até agora e de onde estarei saindo em setembro
para abrir o meu próprio negócio. Acho que depois
de vinte e quatro anos no mesmo lugar tenho o direito de cometer
uma loucura.
Aqui eu me recordo de uma curiosidade. Em 1972 eu era estudante
de Psicologia e fui fazer um free-lancer na área qualitativa,
graças ao convite da Rachel Moreno, que hoje é
presidente da SBPM, que estava envolvida com a Azzi & Marchi,
que era uma empresa muito forte na época. Mas efetivamente
só me envolvi com pesquisa a partir de 1973 e curiosamente,
eu fui para a Axioma, da Thompson, meio por acaso. Uma amiga
me convidou porque eles queriam desenvolver um homem para trabalhar
na área qualitativa, e o único critério
que eles colocaram era ser homem. Nessa época a pesquisa
de mercado era uma coisa muito distante para mim, mas depois
me envolvi tanto e gosto tanto que hoje sou suspeito para falar
dessa atividade, que considero muito prazerosa, muito dinâmica,
e que acho que está num bom momento. Em linhas gerais
é essa a minha trajetória.
O fato de participar de grandes empresas como a Thompson e a
Research International me possibilitou ser presidente da Abipeme,
por duas gestões, e depois da Abipeme nós fundamos
a ANEP em 1992, onde estou como presidente desde então
e que eu espero deixar agora em setembro.
Revista da SBPM - Nesse tempo de atuação no mercado
o que você destaca como mais importante?
Marangoni - Nesse tempo todo eu acompanhei muitas mudanças
e presenciei uma evolução do mercado tanto qualitativa
como quantitativamente. O mercado cresceu muito e hoje alcançamos
aproximadamente U$ 180 milhões em volume de negócios,
e é esse valor porque o dólar foi desvalorizado,
mas já chegamos a ter U$ 250 milhões. O número
de empresas cresceu muito, devemos ter cerca de 400 empresas
no País. E um dos fatos marcantes foi o surgimento de
empresas internacionais, grandes redes vindo para o Brasil,
principalmente nos últimos dez anos.
Revista da SBPM - E isso contribuiu de que forma para a pesquisa
local?
Marangoni - Primeiro com a diversificação de técnicas
e depois com a qualidade da pesquisa, através de novos
procedimentos, principalmente o fato de estar mais focado no
problema do cliente. Quando eu comecei em pesquisa existia muito
mais uma preocupação acadêmica de fazer
trabalhos muito bem feitos, inclusive com a utilização
de teorias, mas ficava aquele relatório acadêmico.
Hoje os relatórios são mais simples, pragmáticos,
voltados para resolver o problema do cliente, pois essa é
a função da pesquisa de mercado. Fazer ciência
e trabalho acadêmico a universidade é que tem que
fazer. Com isso observou-se também o crescimento significativo
de algumas áreas, por exemplo, a área qualitativa.
Quando comecei - nem tínhamos números - mas deveria
representar entre 5 e 10% do volume total da pesquisa, e hoje
deve estar em torno de 30% desse volume . E é um crescimento
muito interessante porque o marketing começou a usar
e entender melhor os resultados de uma pesquisa qualitativa,
e inclusive, a respeitar mais a pesquisa. No passado teve muita
briga, notadamente na área de criação do
marketing, que não aceitava muito bem o subsídio
da pesquisa qualitativa. Atualmente eu não diria que
este seja um assunto totalmente superado, mas a valorização
da pesquisa na área de criação já
é bastante significativa.
Outro segmento que cresceu muito foi o de serviços. Não
havia serviços na área de bancos, concessionárias,
supermercados etc. E a pesquisa cresceu porque o marketing de
serviços melhorou, e havendo um marketing de serviços
mais forte, conseqüentemente tem-se o crescimento da pesquisa
de mercado, porque é o marketing que compra a informação
e desenvolve. Outra área que não tinha era a de
agropecuária. Eram raros os estudos com fazendeiros ou
sobre defensivos agrícolas, o que hoje é muito
comum, ouvir o produtor rural não só em termos
dos produtos que ele usa, mas também sobre os efeitos
da campanha publicitária, do perfil que esse produto
rural tem.
Destaco outro grande crescimento que foi o das técnicas,
porque foi aí que apareceram as técnicas. Quando
eu comecei tive um chefe, o Artur César, que dizia o
seguinte; ‘vamos desenvolver uma técnica e colocar
nome, mas tem que ser um nome em Inglês porque aí
a gente vende mais’ e ele tinha razão. Foi com
a entrada das grandes redes internacionais que surgiram as técnicas
com nome. É como se a pesquisa de mercado estivesse fazendo
também um trabalho de marketing: criando marcas, posicionando
essas marcas, e aí apareceram as grandes marcas na área
de comunicação. Hoje quando se faz um pré-teste
de comunicação não se fala como vai fazer,
mas que técnica vai utilizar. Cresceram muitas técnicas
na área de comunicação, na área
de potencial de mercado, como calcular se aquele produto novo
que o cliente quer lançar terá um potencial de
mercado significativo. Novas técnicas na área
de serviços, por exemplo, como avaliar o grau de satisfação
do consumidor; de como avaliar o valor psicológico da
marca para o consumidor, que não é o valor financeiro,
que também existe e que é feito por consultorias
financeiras. Técnicas para avaliar valor de marca, para
medir o impacto da embalagem, para medir a sensibilidade que
as marcas têm em relação ao preço,
que possibilitam uma melhor estratégia de preço.
Revista da SBPM - A pesquisa de mercado foi se introduzindo
em áreas antes reservados somente à propaganda
e publicidade?
Marangoni - Foi. Algumas pessoas dizem que a pesquisa está
perdendo prestígio e eu acho justamente o contrário.
Isso mostra que a pesquisa de mercado está em crescimento,
ganhando melhoria. Se pegarmos a linha do tempo, historicamente,
observa-se que a pesquisa tem muitos ganhos em termos de prestígio
e status. Há dez a indústria de pesquisa não
oferecia jobs, cargos e salários no mesmo nível
da empresa. Quando a empresa queria um profissional e vinha
na indústria da pesquisa ela levava tranqüilamente.
Atualmente, não! A indústria da pesquisa oferece
cargos e salários no mesmo nível da empresa. Há
uma disputa que sinaliza aumento de poder e prestígio
na indústria da pesquisa.
Revista da SBPM - A sua situação pessoal é
um exemplo disso?
Marangoni - É. Embora as ofertas que eu estou recebendo
sejam mais na área de empresas de pesquisa mesmo. Não
é preciso ir para o lado do cliente. Digo sem medo de
errar que não teria nenhuma oferta de emprego tão
boa quanto a que tenho na área da indústria de
pesquisa, mesmo pensando em grandes empresas multinacionais.
E além disso observam-se mudanças também
na coleta dos dados, que antigamente eram apenas ‘face
to face’ e domiciliar e hoje já temos sistemas
eletrônicos como o Cati e o Capi e tem a internet, que
também é um meio de coleta, sem dúvida
ainda com problemas.
Revista da SBPM - E quanto às entidades, como contribuíram?
Marangoni - Sem dúvida outra grande evolução
no mercado foi o das associações. Quando eu comecei
já existia a ABIPEME, seguida pela a SBPM e a ANEP, além
das associações internacionais. Não tenho
dúvida que as associações locais também
cresceram, não somente em termos de filiados, mas de
atuação, contribuindo do ponto de vista de formação
do profissional, do ponto de vista ético e para dar maior
credibilidade à atividade, agregando valor e qualidade
a essa atividade.
A SBPM tem uma contribuição a mais, que é
a contribuição à carreira do profissional
em si, porque é uma associação de pessoas
físicas. Passou por períodos difíceis,
mas também de prestígio nesses vinte anos, e é
uma associação fundamental para valorizar o profissional
e contribuir para a sua formação. O grande problema
da SBPM é congregar profissionais de perfis muito diferentes,
envolvendo desde um entrevistador, passando por codificador,
área de processamento de dados, analistas e até
pessoas de nível bastante alto na atividade, ou seja,
uma gama de profissionais com perfis muito diferenciados e todos
fundamentais para a atividade. Esse é o grande desafio
da SBPM.
As outras associações são associações
de empresas. Primeiro já têm mais recursos o que
facilita a realização de tarefas. Na época
que surgiu a ANEP, da qual sou um dos fundadores, em conseqüência
de uma divisão na ABIPEME, o mercado criticou muito mas
eu acho que foi benéfico. Basta dizer que na época
não chegava a trinta o número de associados na
ABIPEME e hoje as duas associações reúnem
perto de 150 associados, o que gera uma certa competitividade,
que é salutar e que desenvolveu bastante as duas associações,
embora hoje estejamos num momento de busca de integração
das duas representações de empresas, o que acho
que faz sentido, porque ao invés de termos numa quase
noventa empresas e na outra cerca de quarenta, nos teríamos
uma representando 150 empresas. Mas isto é um processo
político de superação de algumas resistências,
mas estamos discutindo muito isso e já temos um bom contato
com a ABIPEME.
Revista da SBPM - Aproveitando as colocações que
você está fazendo sobre as entidades, apesar dessa
atuação, as categorias que atuam na pesquisa de
mercado ainda não têm uma regulamentação
profissional. Como vê essa questão?
Marangoni - A SBPM, atualmente, inclusive está fazendo
um trabalho muito interessante de ir buscar regulamentação
da atividade. Eu acho que são dois níveis: um
de ir buscar o reconhecimento da profissão, que é
uma coisa formal, e a outra é a questão da regulamentação.
Nós temos aí um grupo de profissionais, especialmente
os entrevistadores e os codificadores, e um pouco na área
de processamento, mas principalmente na área de campo,
onde estão profissionais que atuam como free-lancer.
Na pesquisa tipo ad hoc - onde se faz projeto a projeto, não
se vende nada contínuo, se parte do problema que o cliente
apresenta e para o qual se precisa fazer um projeto para ele
- nós temos que contratar entrevistadores free-lancer
porque é impossível ter uma equipe fixa e aí
se esbarra nos problemas trabalhistas. Muito se tem discutido
e o pessoal de campo tem que entender que não é
um problema da indústria de pesquisa não querer
favorecê-los ou não ter uma situação
legal, é porque é impossível. No mundo
todo é assim. Aqui eu acho que cabe uma regulamentação.
Os estivadores, por exemplo, no porto de Santos têm uma
regulamentação própria, eles também
não são CLT (Consolidação das Leis
Trabalhistas). Esse é um trabalho que tem que ser regulamentado.
É um outro tipo de relação trabalhista
e infelizmente a legislação é omissa e
de certa forma protege sempre os empregados, dificulta a indústria
e o próprio crescimento da indústria. E não
é porque a indústria de pesquisa quer tirar vantagem,
é porque é impossível. A SBPM está
fazendo isso, nós já fizemos na ABIPEME e buscamos
também na ANEP fazer uma regulamentação
diferente.
E um outro trabalho em que a SBPM está realmente batalhando
muito é o reconhecimento da profissão, com o apoio
da ANEP porque esse será outro grande passo para a atividade,
ser formalmente reconhecida, porque o reconhecimento informal
já existe. Há grandes empresas e grandes redes
internacionais atuando no Brasil. Considero, entretanto, que
sem essas associações seria impossível
desenvolver a atividade. Observando outras atividades e associações
representativas, afirmo que as de pesquisa são atuantes
e presentes.
Revista da SBPM - Você diria que a pesquisa está
na moda?
Marangoni - Veja como exemplo a pesquisa política, que
nos últimos anos acompanhou todas as mudanças
no sistema político brasileiro e apesar de todos os problemas
que ainda existem trouxe uma contribuição muito
grande para a pesquisa em geral. O fato de estar no jornal,
na televisão, valorizou muito a pesquisa, apesar dos
problemas, os políticos usando mal, de forma não
ética, os meios de comunicação também
usando da forma que interessa à ideologia deles, mesmo
assim foi uma contribuição muito grande. É
provável até que no futuro possamos ter problemas
devidos a maiores dificuldades na divulgação dos
resultados. Existem aí políticos buscando isso,
porque eles acham que a divulgação de um resultado
interfere muito na atitude do eleitor, embora isso não
seja verdade.
Revista da SBPM - Essa interferência não é
determinante, mesmo em certos momentos?
Marangoni - Sem entrarmos em muitos detalhes, essa interferência
é determinante para aquele que tem dúvida, ainda
não escolheu mesmo o seu candidato.
Revista da SBPM - E voltando à pesquisa no Brasil...
Marangoni - Hoje a pesquisa brasileira está inserida
no mercado global e isso tem mais benefícios do que problemas.
E dá para observar isso com a presença das grandes
redes, os acordo que as empresas locais fazem com empresas internacionais;
o fato de nos termos muitos projeto internacionais no Brasil.
Por exemplo, na RI, 22% do nosso volume vem de fora e não
vem da RI não, vem de outros clientes. Hoje os profissionais
de pesquisa brasileiros estão participando de grandes
congressos e conferências internacionais. Quando comecei
a ir aos primeiros desses eventos encontrava lá quatro
ou cinco pessoas do Brasil. Hoje o Brasil está entre
os países de maiores delegações. Recentemente,
em um evento realizado no México, obviamente a primeira
maior delegação era a do México, a segunda
dos Estados Unidos e a terceira era a do Brasil. Todo mundo
está plugado ao mundo globalizado.
A pesquisa do Brasil atualmente alcança níveis
regionais. Muitas empresas estão fazendo projetos na
América Latina, ampliando os negócios. Isso exige
outra grande mudança que é a do perfil do pesquisador,
tem ainda que mudar a forma como está organizada a empresa.
São efeitos muito positivos embora muita gente seja contra
a globalização.
Revista da SBPM - A pesquisa de mercado virou uma ferramenta
de alcance dos objetivos da empresa?
Marangoni - É isso que eles estão pedindo para
nós e eu acho que não estamos totalmente preparados.
Falta mudar o perfil do pesquisador.
Revista da SBPM - E qual seria esse perfil?
Marangoni - Esse perfil ainda é muito técnico,
voltado às metodologias, preocupado em como fazer a amostra,
a análise estatística. Perfeito porque não
se pode abrir mão disso que é fundamental, mas
acrescentar a isso conhecimento de marketing e do cliente. Ter
mais tempo para o cliente e não só fazer o job.
É pouco mandar o resultado de um teste de embalagem.
O cliente evoluiu e nós temos que mudar. Eu acho que
é possível porque há um reconhecimento
do nosso trabalho pelo cliente, que hoje também, quer
uma participação em todo o processo, ele não
espera mais o resultado. Ele acaba interferindo e a própria
pesquisa desenvolveu metodologias onde o cliente é participativo.
E se a própria pesquisa oferece essa possibilidade, o
cliente gostou da idéia de ouvir o seu consumidor, de
observar uma discussão em grupo. Isso nem sempre é
bom, mas há uma melhor uso e reconhecimento das nossas
informações por parte do cliente.
Outro ponto a destacar é o das parcerias, hoje em moda,
mas a parceria é na verdade muito mais nós que
temos que corresponder às exigências deles sem
muita coisa em troca. É uma parceria de mão única,
muitas vezes. A pesquisa se abre enquanto o cliente não
se expõe na mesma medida, principalmente no relacionamento
entre as duas partes. Considero a parceria fundamental, mas
acho que o cliente deveria repensar as contribuições
que ele pode fazer para que essa parceria dê certo e não
ficar apenas do nosso lado, que é fazer coisas rápidas,
a custo baixo, fora de horário. Há uma pressão
nesse sentido.
Revista da SBPM - Ou é a pesquisa que precisa descobrir
como fazer para que o cliente dê uma contribuição
maior na parceria?
Marangoni - Eu acho que na verdade não é nem descobrir
isso. O que nós temos é que fazer um trabalho
educativo, mostrar ao cliente que a interferência que
ele faz de mandar bilhetes ou fazer perguntas, por exemplo,
durante um trabalho de discussão em grupo de consumidores
interfere na dinâmica e pode atrapalhar o moderador. É
uma intervenção negativa. Muitas vezes o cliente
acha que está fazendo o máximo e ele quer até
ajudar, e o profissional de pesquisa, temendo ferir alguma sensibilidade,
acaba não mostrando o problema ao cliente.
Revista da SBPM - Esse é um outro processo educativo
por parte da pesquisa?
Marangoni - Sem dúvida! Hoje, por exemplo, existe muita
informação na internet, tanta que não dá
tempo de se ver e mesmo quando se vê é rapidamente,
então se corre o risco de perder a reflexão, e
esse é um trabalho que precisa ser feito porque ninguém
cria nada de repente. Pega-se um texto, lê, reflete e
aí é que se cria alguma coisa. O cliente se equivoca
muito com isso. Na RI aparecem muitos pedidos assim: tem ser
para esta semana; usa a internet. E isso só traz problemas
para a pesquisa.
Revista da SBPM - O que não evoluiu na pesquisa?
Marangoni - A ética. Aqui temos um problema. Acho que
em geral todas as atividades têm, e fazendo uma ressalva
eu diria que o pesquisador é um dos mais éticos,
tem uma grande preocupação com a confidencialidade
das informações, de manter as informações
do cliente, mas mesmo assim, acho que dentro da atividade a
questão ética ainda não ocupou um lugar
de destaque. Discute-se técnica, qualidade, mas a ética
passou um pouco desapercebida talvez até porque as pessoas
achem que é uma coisa tão inerente à atividade,
mas com a degradação do mundo todo a questão
ética foi que meio por água abaixo. E mesmo na
área de qualidade não houve uma evolução
assim tão grande. Na área de procedimentos de
campo e processamento de dados o desenvolvimento não
foi significativo. Houve evolução na área
de análise e dos recursos de técnicas mais sofisticadas.
E finalmente, outra coisa que não vi evoluir e que me
queixo muito como representante de entidade é a área
de formação do profissional e preocupação
com treinamento. Isso porque temos uma atividade em crescimento,
que não tem reconhecimento, não conta com processos
formais educativos, a universidade não cria profissional.
A aí quem tem que treinar? As empresas teriam que fazer
esse treinamento e não fizeram, então há
uma falta de bons profissionais, o mercado é carente,
tem uma presença marcante e exige profissionais de qualidade.
Essa área de treinamento é um setor que as empresas
ainda devem assumir, assim como as entidades e a universidade.
E mesmo sendo evidente a valorização da atividade
de pesquisa, o mesmo não aconteceu com o pesquisador
que trabalha numa empresa qualquer. Como a atividade cresceu
e foi valorizada, o profissional também deveria ganhar
em poder e isso não ocorre, porque ele acabou fazendo
um trabalho burocrático que se contrapõe ao trabalho
estratégico que deveria ser. Ele compra a pesquisa, ele
escolhe a empresa.
Revista da SBPM - Você acha que foi o profissional que
se acomodou ou a empresa que o relegou a um status menos importante?
Marangoni - Eu acho que foi mais a empresa, tendo a ver com
isso o fato dos serviços de pesquisa existente nos País
serem de boa qualidade. O pesquisador acaba fazendo um trabalho
interno para situar bem quais os problemas que o cliente tem
e trazer para nós. A questão é que na medida
em que ele perde poder fica difícil para nós nos
relacionarmos com a empresa, porque esse pesquisador é
a nossa interface dentro da empresa. Ele precisa ganhar mais
status e poder para que nós que prestamos o serviço
possamos oferecer mais informações estratégicas,
e para desenvolvê-las precisamos conhecer mais a empresa.
Então essa pessoa precisa estar capacitada e ter autorização
para fornecer essas informações.
Outro grande problema está relacionado mais ao empresário
de pesquisa. Tanto na ANEP como na Abipeme nós sempre
lutamos muito para posicionar a pesquisa como uma atividade
empresarial, pois ela esteve sempre muito ligada ao mundo acadêmico,
como se você não pudesse juntar as duas coisas.
Não resta dúvida entretanto que a pesquisa é
uma indústria, uma atividade empresarial que precisa
se desenvolver e gerar lucro.
Revista da SBPM - A pesquisa de mercado faz parte do processo
de globalização e é uma ferramenta do sistema
capitalista?
Marangoni: Sem dúvida. E há uma coisa muito interessante.
Na minha época de USP (Universidade de São Paulo),
naquele burburinho contra a ditadura, o sistema capitalista,
eu me perguntava, como é que eu vou trabalhar nesse negócio?
Mas eu acho que a pesquisa é uma ferramenta, um instrumento
positivo do capitalismo, porque hoje as empresas não
fazem as coisas para enganar o consumidor. Não! Elas
querem ouvir o consumidor para fazer um bom produto. Óbvio
que querem fazer uma boa campanha para acertar mais e vender
mais, mas não está fazendo uma coisa ruim. É
realmente um trabalho sério, principalmente por parte
das grandes empresas.
Revista SBPM - Então isso não tira a importância
social da pesquisa de mercado?
Marangoni - Nenhuma, só acrescenta importância
à pesquisa de mercado que está ouvindo o consumidor
e com uma contribuição muito boa, porque hoje
as empresas respeitam a opinião do consumidor. Isso é
uma grande conquista, o respeito à opinião do
consumidor. Além do que o ser humano não é
bobo. Pode não ter cultura ou informação,
mas ele acaba aprendendo a reconhecer o que é bom e a
fazer um bom juízo de valor nessa área. Mas continua
sendo um instrumento do sistema capitalista. Mas um instrumento
positivo.
Revista da SBPM: Pelo visto a pesquisa dá transparências
às ações de qualquer natureza?
Marangoni - Veja por exemplo nessa área política,
que maravilha você ir votar e saber como está a
posição dos candidatos. Por que não? Isso
é ótimo! Não se deve esconder isso. É
uma informação que deve ser pública.
Revista da SBPM - Quais serão as preocupações
que as entidades representativas da pesquisa terão no
futuro?
Marangoni - Eu acho que os pesquisadores e as associações
terão que lidar com a questão da privacidade que
será uma área das mais problemáticas. Devem
surgir muitas leis garantindo a privacidade do cidadão
e dificultando a realização de pesquisas. Isso
já acontece nos Estados Unidos, onde existem muitas associações
que impedem por exemplo, que se mande um e-mail para um cidadão
qualquer. É necessário ter uma autorização
dele para receber um e-mail.
Revista da SBPM - O que você ainda considera importante
ressaltar?
Marangoni - Essa é uma opinião pessoal. Acho que
devem crescer as pressões sobre a divulgação
dos resultados das pesquisas eleitorais. Eu gostaria que isso
não acontecesse. E outra idéia que eu tenho, diz
respeito às discussões em grupo. Hoje nós
oferecemos brindes às pessoas que participam. No futuro
nós teremos que pagar para que elas participem. E finalmente,
acho que formar profissionais de pesquisa é fundamental
e o empresário tem que pensar na pesquisa como uma atividade
empresarial. Portanto ele tem que cobrar valores que comportem
o que ele precisa para sobreviver, pessoalmente, como ter para
investir na atividade. E muitos não fazem isso. Muitos
estão apenas preocupados em quanto ele vai ganhar no
final do mês e só. Acho também que temos
que cuidar de duas grandes áreas que são: padrões
de qualidade e os padrões éticos. No sentido de
qualidade a própria ABA (Associação Brasileira
de Anunciantes) já estabeleceu padrões de qualidade
para os seus filiados e nós da ANEP já divulgamos
os padrões mínimos de qualidade da pesquisa, que
o cliente pode utilizar e saber se um trabalho está ou
não sendo bem feito.
Revista da SBPM - Nesse sentido, como a SBPM, ANEP e Abipeme
podem contribuir?
Marangoni - Primeiro já estamos trabalhando juntos na
divulgação desses padrões e vamos promover
um evento envolvendo clientes. Porque se um cliente for verificar
esses padrões e fizer um check-list para ver se a empresa
que ele contratou esta cumprindo, nós vamos melhorar
a atividade e elevar a qualidade da pesquisa, porque às
vezes os clientes fazem coisas sem saber que elas não
são éticas. E não é problema do
cliente ser não ético. A questão é
que eles pensam que estão fazendo corretamente. O próprio
código de ética da atividade é pouco divulgado,
é pouco incorporado na atividade diária, e sobre
isso todas as entidades podem fazer alguma coisa.
Revista da SBPM - Finalizando o bate-papo você tem algo
a acrescentar?
Marangoni - Ressaltar que a regulamentação é
importante, assim como a criação de mecanismos
formais para a formação do profissional de pesquisa
via universidades. As entidades já estão trabalhando
nisso, fazendo contatos com as universidades e o evento que
mais caminhou nesse sentido tem a SBPM junto com a ABA e o apoio
da ANEP que a elaboração de uma grade curricular
para oferecer a universidade, como meio para dar um suporte
à prática da pesquisa. Mas enquanto isso não
se realiza as empresas de pesquisa deveriam investir mais em
treinamento.
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