Quesito
Cor! Por que incomoda tanto?
Por: Marta Alves
E escorreram todas as cores,
tingindo o céu, o sol,
a terra, a tez,
o consumidor, o cidadão, o eleitor.
Como fechar os olhos
Para a beleza dessa diversidade?
Como defini-la,
Para melhor captá-la?
Na poesia um alerta à
beleza ignorada e uma esperança de compreensão.
No discurso histórico, assumido pela sociedade, laivos
de generosidade. Vivemos em um País mestiço onde
não existe preconceito racial. Mas as atitudes ignoram
o pluralismo étnico. Inúmeras são as disparidades
ao comparar-se o leque de oportunidades oferecidos aos brancos
com aquelas possíveis aos negros ou seus descendentes.
Somos brancos? Negros? Que ofensa! Somos morenos! Quando convidados
a definir a nossa cor criamos mais de uma centena de categorias.
Somente este ano, o MEC (Ministério da Educação
e Cultura), anunciou um programa de cursinhos pré-vestibulares
dirigido aos estudantes negros, através de convênio
do Governo
Federal com o BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento.
A verba já foi solicitada porém ainda não
houve retorno por parte do BID.
Podemos ver nesse programa um tácito reconhecimento das
desigualdades apontadas em estudos anteriores do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística), e referendadas
pela Síntese de Indicadores Sociais 2000, que compara
dados de 1992 com os de 1999, com base na Pnad (Pesquisa Nacional
de Amostra por Domicílio), publicados no início
de abril 2001.
No ano de 1999 a renda média dos brancos era de 5,25
salários mínimos. Entre os negros, de 2,43 salários
mínimos. A cor do cidadão brasileiro continua
a gerar diferenças. A taxa de analfabetismo caiu para
todos os grupos da população, mas continua a maior
para negros, 21%, e pardos, 19,6%%, contra 8,3% para brancos.
O retrato racial detectado pelo IBGE não se modificou.
Na comparação por cor ou raça, esse retrato
diz que, em média brancos têm 6,7 anos de estudo,
enquanto negros ficam com 4,5 anos e os pardos 4,6 anos. São
os negros e pardos, 14,6% e 8,4%, respectivamente, contra 6,1%
de brancos que ocupam emprego doméstico; já na
condição de empregador há 5,7% de brancos
e 1,1% de negros e 2,1% de pardos.
"A sociedade no Brasil discrimina negros e pardos. Escureceu
é discriminado, ou melhor, não embranqueceu é
discriminado", disse o presidente do IBGE, Sérgio
Besserman, tendo sua fala reproduzida nas páginas dos
principais jornais do País. E isto acontece apesar de
39,9% se declararem pardos; 5,4% negros e 54% brancos, quando
a pesquisa Pnad indagou a cor dos mais de 160 milhões
de brasileiros.
Sensível à demanda
sobre a questão, a SBPM (Sociedade Brasileira de Pesquisa
de Mercado), realizou o debate "Quesito Cor" - buscando
uma melhor compreensão do critério para o pesquisador,
que é quem recebe o impacto maior quando uma pesquisa
insere esse quesito -, reunindo institutos de pesquisas, entidades
representativas do movimento negro (que lutam pelo reconhecimento
do preconceito racial como um componente da cultura brasileira
e defendem mais visibilidade para a população
não branca) e pesquisadores.
Refletindo a falta de clareza e as imprecisões sobre
a definição e categoria dessa cor, o debate trouxe
contribuições importantes para a reflexão
de todos. Resultados de pesquisas e o histórico de metodologias
empregadas em censos do IBGE, reconhecido como o instituto que
apresenta resultados mais conclusivos e que mais desenvolveu
metodologias tendo o Quesito Cor como pano de fundo, significam
o primeiro passo da pesquisa de mercado para colocar o pesquisador
mais à vontade nesse quesito.
Outra contribuição são os conceitos de
raça ou cor como anteparo para a discriminação
de grupos sociais em benefício das elites dos países
latino-americanos, especialmente, como um dos elementos que
colocam o Quesito Cor como uma questão que deve estar
na ordem do dia.
O debate foi precedido de um 'show' com o Grupo Cachoeira, composto
por Daniel, Fernando, Oswaldo e Renato, que se dedicam à
difusão do jongo, dança que teve origem na senzala
e nos cativeiros onde ficavam os africanos trazidos para o Brasil,
berço do estilo musical que hoje é conhecido como
samba.
O evento contou ainda, com um desfile de roupas étnicas,
exibindo modelos negras, entre as quais Terezinha Malaquias,
que produziu o desfile e atua como modelo vivo para famosos
escultores em São Paulo, tendo a assistência do
artista plástico Marcelo Parra. A maquiagem das modelos
foi patrocinada pela Noemy, empresa pioneira na criação
de cosméticos para pessoas de pele negra. O show de dança
e o desfile foram apresentados pelo músico, tocador de
sax, Amendoim.
O discurso oficial aponta o Brasil como o país da miscigenação
de raças e credos. É possível que haja
consenso em relação ao segundo ponto, mas quando
o foco é a cor da pele que predomina na população
brasileira as contradições começam nas
definições de cor e escancaram-se nos números.
Em edição recente os índices do IDH afirmam
que o Brasil está em 48º lugar para população
branca - se for separado em termos de população
branca e população negra - e ocupa o 108º
lugar para população negra. Depreende-se por aí
que esse é um país de raça branca. "Fala-se
em democracia racial, mas quando os indicadores aparecem, gritam
o contrário", afirma Raquel Moreno, presidente da
SBPM, fazendo a introdução ao debate Quesito Cor.
Consumidor sem visibilidade
Outro indicador que merece destaque,
lembra Rachel, "é o que aponta uma classe média
negra crescente, que significa consumidor, cuja existência
começa a ser levado em conta em termos da produção
e da oferta de produtos, mas que continua ausente em termos
de imagem na mídia - na televisão se vê
um Brasil eminentemente branco. A contradição
é que esse dados não refletem a riqueza e a beleza
que a multiplicidade racial e étnica da sociedade brasileira
apresenta, ou seja, enquanto consumo a miscigenação
é considerada sim, mas o mesmo não acontece quanto
à visibilidade. E essa incoerência fica gritante
porque a afirmação dessa multiplicidade muitas
vezes se dá apenas intuitivamente e no cotidiano das
pessoas, já que faltam dados. É fato que eles
começam a ser produzidos, mas ainda são insuficientes.
E nós, da Sociedade Brasileira de Pesquisa de Mercado
trabalhamos com dados, nós geramos dados, nós
sistematizamos dados, nós oferecemos dados, recorda Rachel
Moreno. E, muitas vezes por omissão ou falta de percepção,
deixamos de oferecer dados que podem ser politicamente importantes".
Ela relembra que durante algum tempo o Quesito Cor esteve presente
nas pesquisas de mercado, sendo alijado, provavelmente, por
dificuldades que serão colocadas neste debate e hoje
não consta mais nos dados de classificação.
Afirmar a raça, hoje,
interessa ao negro, por isso o discurso incomoda. A complexidade
está na segregação política e cultural.
Hoje, 110 anos depois, está sendo questionado o mito
da democracia racial. (olho)
Colocado o convite à
reflexão, a filósofa de educação,
Sueli Carneiro, representando o Géledes - Instituto da
Mulher Negra, iniciou o debate destacando que, junto à
flagrante importância da questão para os negros
em particular, "tenho certeza que esse tema é do
interesse do conjunto do país, pois é um componente
essencial na promoção da igualdade efetiva entre
negros e brancos. A questão - Quesito Cor -, digamos,
está na origem do desafio colocado para nós em
termos de consolidação da democracia no nosso
país. A inserção do Quesito Cor em todos
os recenseamentos sobre população brasileira vem
se constituindo numa das principais bandeiras dos movimentos
negros no país, e também de um conjunto de pesquisadores
das questões raciais no Brasil", informa Sueli,
indagando a seguir:
"O que está em jogo nessa reivindicação?
Para nós, negros, é o direito de sabermos quantos
somos, como vivemos, do que adoecemos, do que morremos, quais
as especificidades sociais e culturais que apresentamos frente
a outros grupos raciais. Consideramos que a inserção
do Quesito Cor nos sistemas de informações nacionais
é uma ferramenta essencial para dar fundamento científico
à desigualdade de tratamento que os negros experimentam
na nossa sociedade. Uma desigualdade implicitamente observada,
mas renitentemente negada pela maior parte da sociedade brasileira".
Mito da democracia racial
A resistência em relação
ao Quesito Cor existente no Brasil tem raízes sólidas
em toda a América Latina, ensina Sueli, citando o sociólogo
Carlos Alfredo Hasenbalg, estudioso das questões raciais
no Brasil e na América Latina. "Para o professor
Hasenbalg - relata a filósofa - o mito da democracia
racial latino-americana tem como elementos comuns a suposta
ausência de preconceito e discriminação
racial, reforçado pela ausência aparente de conflitos
raciais, inexistência de discriminação legal,
pela presença de alguns não brancos nas elites
e a miscigenação racial da população,
que supostamente seria um indicador de tolerância racial,
característica comum nesses países.
Outros sintomas análogos, segundo afirmações
do professor Hasenbalg, é a perseguição
ao ideal de embranquecimento, que reside na tendência
a apagar os traços da presença negra depois do
fim da escravidão. Para ele não se trata apenas
de fazer o negro invisível nas comunicações
de massa e mantê-lo fora das posições públicas
e de "status", como ocorre atualmente. A questão
vem de longa data e consiste em eliminar, tanto quanto possível,
as marcas da presença negra nos registros históricos.
Hasenbalg exemplifica o esforço de eliminar essas marcas
com uma retrospectivas dos censos brasileiros e latino-americanos.
Diz ele: a história do censo demográfico no Brasil,
iniciada em 1872, é ilustrativa a esse respeito, os levantamentos
censitários de 1900, 1920 e 1960, simplesmente omitiram
a pergunta sobre a cor da população. O quesito
cor foi reincorporado no censo de 1980 devido às pressões
dos cientistas sociais do movimento negro". Entre estes
encontrava-se o sociólogo Hasenbalg, segundo matéria
publicada na revista Veja em 7 de novembro de 1979.
Mas o desempenho dos outros países da América
Latina nesse aspecto não é muito melhor. A Argentina
não tem registros de raça ou cor da população
desde o terceiro censo nacional de 1914; a Bolívia não
conta com dados sobre raça desde 1900, e o Peru desde
1961; o Equador excluiu os dados sobre cor e raça nos
censos de 50 e 62; a Venezuela está sem dados sobre raça
desde o primeiro censo nacional realizado em 1876; a Nicarágua
não conta com essa informação desde o censo
de 1920; Honduras desde 1946, e República Dominicana
desde 1950.
As condições como se processam os recenseamentos
nesses países vêm permitindo que a visão
de democracia e cidadania, em especial no Brasil, se construa
tendo por paradigma apenas as necessidades e interesses das
populações brancas, desconsiderando-se as desigualdades
existentes entre os diferentes segmentos raciais. Hasenbalg
conclui que no Brasil a noção de democracia racial
é uma poderosa construção ideológica,
cujo principal efeito tem sido manter as diferenças inter-raciais
fora da arena política, criando severos limites às
demandas do negro por igualdade.
Depois que expõe as conclusões do professor Hasenbalg,
Sueli lembra que não é gratuito, portanto, que
as mulheres negras reunidas no Painel de Mulheres Negras Latino-americanas
e Caribenhas, preparatório à Conferência
de Pequim, tenham levado como uma das suas principais bandeiras
de luta, a exigência de que os governos desses países
incorporassem o item cor e gêneros aos censos governamentais,
como forma de obter um conhecimento real dos números
e situação sócio econômica e política
das populações negras latino-americanas. Exigiram
ainda, que organismos estatais, como o Ministério da
Saúde, coletem dados sobre os grupos étnicos atendidos,
para a obtenção de dados consistentes sobre diagnósticos
e enfermidades que sofrem as populações não
brancas. Esses dados serviriam de base para a formulação
de políticas públicas adequadas a esses segmentos
da população.
Embranquecimento imposto e perda
de identidade
Uma outra pesquisadora, a afro-americana
Melissa Nobel, citada por Sueli, examina em seu livro Matizes
da Cidadania - Raça e Censo na Política Moderna,
como o censo tem ajudado a embranquecer o Brasil. Para essa
pesquisadora, o censo ajuda não simplesmente a contar
as pessoas, mas a criar categorias de raça ou de cor.
O IBGE ajuda a criar a cara oficial do país por meio
de terminologia e metodologia, ao contrário das pesquisas
do Data Folha em que os brasileiros não acreditam que
haja maioria de brancos no Brasil.
Os censos brasileiros têm ajudado o mito da democracia
racial, em primeiro lugar, sustentando o pressuposto da mistura
racial, quando usa o termo cor ao invés de raça.
A justificativa é que a mistura havia tornado raça
um conceito irrelevante para compreender as relações
raciais no Brasil. Em segundo lugar, esse mito se mantinha também
na idéia de que raça não era um problema
maior. Assim sendo, uma análise do censo brasileiro demonstra
que ele tem ajudado a justificar e garantir uma falta de ação
do Estado brasileiro em relação a população
negra.
Talvez o termo pardo preste-se
apenas para agregar aqueles que por terem a sua identidade étnica
e racial destroçadas pelo racismo, pela discriminação
e pelo ônus simbólico que a negritude contém
socialmente, não sabem mais o que são, ou simplesmente,
não desejam ser o que são. (olho)
Se o Quesito Cor aparenta as
dificuldades apontadas em seu manejo oficial, adverte Sueli
Carneiro, a situação é mais crítica
ainda quando consideramos a atitude dos institutos não
oficiais, que em geral simplesmente desprezam a importância
desse recorte e não o coletam, impedindo que a população
negra possa dispor de informações sobre si mesma.
A miscigenação tem se constituído num instrumento
eficaz de embranquecimento do país por meio da instituição
de uma hierarquia cromática, e de fenótipos, que
têm na base o negro retinto, e, no topo, o branco da terra,
oferecendo aos intermediários o benefício simbólico
de estarem mais próximos do ideal humano, que seria o
branco. Esse imaginário de quanto mais claro melhor,
tem impacto negativo, particularmente sobre os negros, em função
de uma suposta melhor aceitação social dos mais
claros em relação aos mais escuros. Isso explica
a diversidade de expressões que pessoas negras, ou seus
descendentes miscigenados, adotam para se auto classificarem
racialmente, tais como: moreno claro, moreno escuro, moreno
jambo, marrom bombom, mulato, mestiço, caboclo, mameluco,
cafuzos, ou seja, confusos, de tal maneira que acabam todos
agregados na categoria oficial do IBGE: 'pardo', algo que ninguém
consegue definir o que seja, enquanto raça ou cor. Talvez
o termo pardo preste-se apenas para agregar aqueles que por
terem a sua identidade étnica e racial destroçadas
pelo racismo, pela discriminação e pelo ônus
simbólico que a negritude contém socialmente,
não sabem mais o que são, ou simplesmente, não
desejam ser o que são.
Para a pesquisadora, as diferenciações cromáticas
pardo, mestiço e mulato vêm funcionando com eficácia
como elementos de fragmentação da identidade negra,
impedindo que essa identidade se transforme num elemento aglutinador
no campo político, que gere reivindicações
coletivas por igualdade racial, posto que, ao contrário
do que diz o imaginário social, pretos e pardos compõe
um agrupamento que no ponto de vista dos indicadores sociais,
apresentam condições de vida semelhantes e são
igualmente inferiorizados quando comparados ao grupo branco.
Conceito construído com
base em preconceitos
Magali Silva Soares Naves, da
assessoria internacional da Fundação Palmares,
fez a seguinte intervenção: "quero colocar
um ponto provocativo, mas assumido por alguns historiadores
modernos, que é o de que não existe conceito de
raça. Esse conceito aparece para justificar a idade da
formação da Europa com suas descobertas, a exploração
e a escravidão do não europeu, do não branco,
ou seja, é a consciência de si em relação
ao outro. No momento das descobertas o branco que vinha para
o Brasil era diferenciado do índio, se sentia superior.
Por isso se diz que esse conceito apareceu no momento que a
Europa surgiu como potência. Lembro porém, que
se a raça não existe, existe o ser humano".
A ciência vem revelando a falácia do conceito de
raça do ponto de vista biológico, continua Sueli
Carneiro. Esta constatação científica tem
sido utilizada para minar as reivindicações de
políticas específicas para grupos discriminados
com base na raça ou na cor da pele. Estas novas pesquisas
aniquilam as bases do racismo do século XIX, que consagrou
a superioridade racial dos brancos em relação
a outros grupos humanos, justificando os privilégios.
Essas novas pesquisas, entretanto, ainda não influenciaram
as diversas manifestações de racismo, em ascensão
no mundo inteiro, e na persistente reprodução
das desigualdades que elas geram. Isto reforça o caráter
político do conceito de raça, a sua permanência
e atualidade, a despeito de ser insustentável do ponto
de vista biológico.
Quando aceitou o convite para participar do debate, Serguei
Soares, diretor de Estudos e Políticas Sociais do IPEA
viu-se a indagar: existe ou não existe raça? Isso
é uma coisa real, ou não? Ligou para uma amiga
que é bióloga molecular e geneticista, a quem
perguntou: como é que a gente classificaria Nelson Mandela?
A resposta foi: reino dos animais filocordata, sufilo vertebrado,
classe mamiferus, ordem pungídeos, família homídeos,
gênero Homos, espécie homo sapiens. Em seguida
perguntou qual a classificação para Madona e a
amiga repetiu: reino dos animais filocordata, sufilo vertebrado,
classe mamiferus, ordem pungídeos, família homídeos,
gênero homos, espécie homo sapiens. Conclusão,
os biólogos não têm absolutamente nenhuma
classificação que corresponda ao que se chama
de raça. Eles têm inclusive classificações
inferiores para outras espécies animais, mas não
para o ser humano.
Pôs-se então a imaginar: isso acontece por que
os biólogos são avançados, ou por que participam
de uma ideologia anti-racismo? Na verdade, não! E rememora:
no início do século XX, biólogos, psicólogos,
antropólogos e sociólogos tentaram bravamente,
com muitos instrumentos avançados para a época,
estabelecer uma classificação das raças
humanas e todas elas fracassaram.
Não satisfeito com o resultado da sua pesquisa imaginou
que os descobrimentos da genética moderna talvez possibilitassem
classificar raça. Ligou novamente para a amiga e perguntou:
se eu der para você o DNA do Nelson Mandela e o DNA do
Helmut Kohl, você pode me dizer quem é negro e
quem é branco? "Absolutamente não, é
impossível fazer isso, respondeu a amiga. O que poderia
tentar era adivinhar uma população de pessoas
dado alguns traços. Digamos que eu pegue o DNA de 100
pessoas que, como os nossos preconceitos, classificamos como
negros, e de 100 pessoas que, conforme os nossos preconceitos,
classificamos como brancos. Aí se pode ver a incidência
de certos genes, como por exemplo, da anemia falciforme, que
ataca mais negros do que brancos. Mas brancos também
têm genes da anemia falciforme". É impossível
para a biologia classificar raças.
"Raça é um conceito constituído socialmente,
concluiu Serguei Soares. São características impostas
pela cultura. Raça existe a partir de um conceito. Existe
e é regido pelo preconceito, tem caráter difuso.
O problema real é que raça ou cor é um
conceito estigmatizado, que diferencia socialmente o indivíduo
pelo fato de ser negro. O IBGE está no caminho certo,
não tem como medir um conceito que é impreciso,
confuso. Por isso tem que abrir espaço para analisar
essa confusão. Acho que a diferença está
na categoria eufêmica (moreno). Existem muitas maneiras
de negar o racismo. Eu estou aqui para medir o mercado e essa
é uma barreira quase intransponível. O MEC tem
um senso educacional onde não pode colocar o quesito
cor. Isso terá que mudar, é complicado, mas necessário.
O que é esse conceito? Ele tem que ser medido na sua
forma confusa, e por isso afirmo que é no IBGE onde a
discussão está mais avançada, porque lá
se trabalha com o olhar da equidade social".
Apesar dessas afirmações todas, Serguei acredita
que raça existe, "é um conceito confuso,
impreciso, regido pelo preconceito, mas ele é um conceito
real, porque quando se pergunta às pessoas o que elas
são como raça, e elas respondem alguma coisa,
nós podemos analisar isso. Descobre-se que as pessoas
que disseram que são pretas ou pardas ganham na média
metade do que as pessoas que dizem que são brancas. E
as pessoas que são pretas ou pardas têm na média
dois anos de escolaridade a menos do que as pessoas que se dizem
brancas. E as pessoas que respondem que são pretas ou
pardas têm uma expectativa de vida menor do que as pessoas
que são brancas; uma probabilidade de morrer até
aos 5 anos, maior; têm uma morbidade maior e uma probabilidade
de morrer por violência muito maior. Então, se
é uma coisa que não existe, como é que
aparece em tudo que é lugar? Pois é, existe.
Raça, conceito para proveito
da elite
O historiador norte-americano,
Anthony Mark, fez um estudo comparativo entre as relações
raciais no Brasil, nos Estados Unidos e na África do
Sul, no qual revela que o critério raça é
a questão central da política no século
XX, porque o uso que as elites fizeram e fazem da diferença
racial foi sempre com o objetivo de provar a superioridade branca,
e assim manter seus privilégios à custa da escravidão
e exploração dos povos não brancos. Concluiu
também que essa atitude sempre foi compartilhada pelos
setores populares brancos interessados em se associar às
elites. Historicamente esse comportamento foi comum às
elites do Brasil, da África do Sul e dos Estados Unidos,
que transformaram a raça num instrumento de produção
de privilégios e de desigualdades, conta Sueli Carneiro.
Existem, porém, muitas
outras distinções. A mais nefasta é a que
se baseia na cor ou na raça, uma diferença particular,
sublinhada muitas vezes, e de maneira excessiva, acaba por esconder
a nossa humanidade comum. (olho em destaque)
"A forma como o Quesito
Cor tem sido manipulado ao longo da nossa história tem
postergado o aprofundamento do conhecimento sobre as desigualdades
raciais no Brasil. Mas se raça é um conceito central
na política desse século e tem sido historicamente
usado para promover privilégios e exclusões, argumenta
Sueli, o Quesito Cor deve, doravante, ser um elemento chave
na produção da igualdade, subsidiando propostas
de políticas públicas compensatórias para
os grupos discriminados pela cor, ou pela raça em nossa
sociedade.
O Quesito Cor, ou seja, a raça, deve ajudar também
no posicionamento e fortalecimento de uma identidade racial
- negada e fragmentada pelas variações cromáticas
impostas pela ideologia do embranquecimento e consagrada nas
classificações arbitrárias, para propiciar,
quem sabe um dia, a construção de uma identidade
negra, para a qual os miscigenados possam ser atraídos,
convencidos de que sua cor não os deixa em desvantagem
na sociedade. As desigualdades e oportunidades que a discriminação
racial produz têm impacto sobre todas as dimensões
dos grupos discriminados, e a quantificação e
qualificação desse fenômeno é a primeira
demonstração de vontade política que a
sociedade pode dar para eliminação dessa discriminação
e a promoção de maior equidade entre os grupos
raciais em nossa sociedade".
Como a comunidade negra vê
o Quesito Cor
Ney Luiz Silva, pesquisador
e diretor de estatística da RI, reconhece que o descaso
dos governos e da sociedade branca em relação
ao Quesito Cor já é familiar aos pesquisadores.
Assim resolveu estudar um pouco o que acontece na comunidade
negra, verificar como essa comunidade está percebendo
essa questão. Fez uma pesquisa rápida para medir
o grau de aceitação da comunidade negra à
inclusão do Quesito Cor nos estudos sociais, particularmente
no censo e nos estudos de mercado e de opinião, objetivando
também verificar a reação dos negros à
aplicação dessa pergunta nos questionários.
Para tanto foram entrevistadas 100 pessoas da raça negra,
de ambos os sexos, com idade acima de 15 anos, de todas as classes
socioeconômicas. "Nós utilizamos uma equipe
de entrevistadoras de raça negra - o que nos ajudou muito,
inclusive a entender melhor a amostra -, incumbidas de identificar,
selecionar e também classificar os entrevistados quanto
a raça e cor, conta Ney. Para chegar a isso foi feito
uma espécie de 'brainstorm' que nos permitiu unificar
os critérios de classificação.
Vale esclarecer que uma amostra de 100 entrevistas não
é exatamente uma amostra científica do ponto de
vista do processo de seleção, mas nós procuramos
obter uma boa diversidade em termos de classe socioeconômica,
sexo, grau de instrução e de outras variáveis.
Obtivemos os seguintes resultados: 43% de homens e 57% de mulheres;
41% com idade abaixo de 30 anos e os demais acima de 30 anos;
42% de solteiro e 48% de casados. Em termos de grau de escolaridade
encontramos 48% até o ginasial completo, 23% de ginasial,
colegial incompleto, e 29% com colegial completo ou superior;
38% de donas de casa, 27% de chefes de família, 30% de
filhas e filhos. A identificação chefes de família
foi aplicada a homens e mulheres nessa condição.
Todos os pesquisados tinham níveis socioeconômicos
acima da média da população total de São
Paulo.
O questionamento à primeira pergunta, após os
dados de classificação: qual a sua cor?, surgiu
das próprias entrevistadoras, durante a fase de instrução,
que argumentaram que a pergunta correta não seria cor,
mas raça. De qualquer forma foi aplicada assim. E essas
são as respostas: 54% negra, 16% preta, 9% como parda,
8% morena, 3% negras ou pretas, havendo pessoas que se identificam
das duas formas: mulata, mulata escura, jambo, moreno claro,
com variáveis (às vezes amarelo, às vezes
preto) e alguns que não sabem se auto definir.
Nas discussões com as entrevistadoras ficou estabelecido
que identificariam a cor da pessoa como negro, mulato escuro,
mulato claro, ou seja, três níveis de coloração,
para cruzarmos essas informações. No resultado
havia pessoas mais claras, 15%, se identificando como negro,
e 3% dos mais escuros se identificando como moreno.
Foi colocado além disso, algumas questões em relação
ao que eles acharam dessa pergunta - qual sua cor? - e se ela
deveria ser incluída no censo, nos estudos de mercado
e pesquisas eleitorais. À questão: o que você
achou dessa pergunta que nós acabamos de fazer - qual
sua cor? Obtivemos em 22% dos entrevistados uma reação
positiva acima do normal; 43% consideraram a pergunta normal,
neutra, uma pergunta como outra qualquer; 22% acharam um pouco
acima do normal, positivamente, acharam que realmente é
uma pergunta importante, e 35% reagiram negativamente.
No universo de reações dessas 100 pessoas, 32%
reagiram positivamente, afirmando que têm que se assumir,
ser consciente. Ressaltaram que é importante que se faça
essa pergunta para que respondam que são negros; que
é bom ter dados estatísticos sobre a população
negra. Tenho orgulho de dizer que sou negra, 14%; é bom
para ver que a gente não tem vergonha da cor, 14%. 'É
interessante porque eu também quero saber a minha cor'
de uma entrevistada que não sabia qual a cor dela, Achou
uma pergunta interessante para ela mesma se fazer.
Entre aqueles que tiveram reações negativas, 46%
consideraram que é uma pergunta racista, preconceituosa;
17% disseram que é esquisito, que é estranho,
não tem nada a ver, uma pergunta que não se deve
fazer; 11% que é constrangedor, inconveniente; 11% disseram
que já está vendo a cor, não precisa perguntar,
não há razão para fazer a pergunta; 6%
disseram que não se deve perguntar a cor, que é
uma coisa que não se deve fazer; 6% responderam 'não
achei legal, não gostei', e 3% disseram que é
ofensivo perguntar a cor.
Aqui também se verificou as diferenças entre idade,
sexo e classes sociais. Há poucas diferenças,
principalmente quando se considera apenas a classe socioeconômica
quanto à atitude positiva e negativa com relação
à pergunta. Quando se explora a faixa etária se
percebe uma tendência a que os jovens sejam mais receptivos
ao quesito do que os mais velhos. Quanto ao nível de
escolaridade observa-se que as pessoas de nível mais
alto tendem a ter uma reação mais positiva. E
quanto à cor, aqueles de pele mais clara tendem a ter
uma reação mais positiva à pergunta do
que os de pele mais escura.
Foi a partir dessa pesquisa
do IBGE que se percebeu que os dados que diziam que éramos
mais pessoas, poderiam, por outro lado, criar uma realidade,
e servir também para mostrar a realidade desigual e a
situação diferenciada entre pretos e pardos na
sociedade brasileira. (olho)
A receptividade à inclusão
do Quesito Cor recebeu 48% de respostas positivas e 47% de negatividade,
quando o objeto da pesquisa é censo demográfico;
5% não tinham opinião. Quando a pergunta foi colocada
para a pesquisa de mercado (produtos) 52% dos entrevistados
acham que a pergunta sobre a cor da pele da pessoa não
deve ser incluída, enquanto 39% são favoráveis.
A aceitação aqui é justificada por saberem
que alguns produtos têm que ser diferentes para negros,
tais como cosméticos, meia de mulher etc., enquanto os
que são desfavoráveis dizem em geral que o consumo
do negro é igual ao do branco e não há
razão para se especificar e saber quem é negro
e quem é branco. Quando a indagação se
refere à inclusão em pesquisa eleitoral, 77% dos
entrevistados acham que o quesito não deve ser incluído
na pesquisa, com apenas 18% de adesões. Esse item teve
uma variação: 81% de negação das
mulheres e 72% dos homens. "Esses dizem que não
interessa a cor porque a capacidade de votar é igual",
concluiu o diretor da RI.
Sem discussões sobre
Quesito Cor
Aproveitando a exposição
dessa pesquisa, onde aparentemente a questão de produtos
voltados ao consumidor negro é uma questão importante,
Rachel Moreno passou a palavra para Rafael Sampaio, vice-presidente
executivo da Associação Brasileira dos Anunciantes,
para que colocasse o quanto e como e essas questões se
refletem em termos de produto e propaganda.
"Em nome da ABA eu queria dizer algumas coisas, explicou-se
Rafael Sampaio. Primeiro que o escopo da discussão é
muito interessante, muito válido, mas não é
o objetivo da ABA, não faz parte dos nossos estatutos
discussões de caráter sociológico, macro
econômico e político. Esse tema foge ao escopo
de questões sobre as quais a ABA pode se pronunciar.
Consequentemente nós não podemos discutir. A nossa
visão é puramente mercadológica, operacional,
então não temos muito a contribuir.
No caso específico do IBGE a posição é,
como as pesquisas são muito mais abrangentes que as mercadológicas,
nós consideramos absolutamente correto o que elas consideram
como cor, raça, assim como a denominação
que os especialistas consideram mais adequadas. E também
não entramos no mérito dessa discussão.
Nesse momento não nos parece que a forma como é
feita hoje seja a mais conveniente. Julgamos que essa discussão
deve ser feita, mas não é uma discussão
na qual a ABA irá se envolver, porque nós acreditamos
que existem entidades mais qualificadas para essa discussão.
Como está fora do nosso acordo também não
vamos dar opinião.
Especificamente quanto à pesquisa de mercado, quando
se trata de uma pesquisa em particular, consideramos que a discussão
sobre o Quesito Cor é relevante, se o objetivo mercadológico
do cliente incluir decisão de compra, de uso, de marca
etc.. Nesse caso a questão deve ser usada, porque faz
parte do processo, mas do ponto de vista do critério
que é puramente econômico, nós não
consideramos adequado, ela não discrimina, ela é
combinada com outros fatores, e como nós eliminamos uma
série de fatores exatamente para simplificar, nós
não vemos como essa pergunta possa ser relevante para
o critério".
Finalizando sua manifestação, Rafael Sampaio afirmou
que entende a pesquisa de mercado como um filtro, parte de um
processo realizado dentro de determinados critérios e
que não discrimina renda de per si. Acredita que a partir
das decisões que venham a ser tomadas pelo IBGE, esse
dado pode definir padrões, cor, raça de uma maneira
mais precisa, incluindo todos, sejam brancos, negros, amarelos,
índios. Acha também que o IBGE é a instituição
que deve gerar a pesquisa a partir da qual pesquisadores e anunciantes
trabalharão.
Racismo: uma doença social
Representando a dra. Dulce Maria
Pereira, presidente da Fundação Cultural Palmares
(instituição ligada ao Ministério da Educação
e Cultura) e secretária executiva da CPLP - Comunidade
dos Países da Língua Portuguesa, que não
compareceu ao debate devido a problemas de saúde, esteve
Magali Silva Santos Naves, da assessoria internacional da Fundação
Cultural Palmares, que assim iniciou a sua fala:
"Ninguém é mais ou menos ser humano do que
qualquer outro, nós somos essencialmente iguais. Iguais,
mas não idênticos. É isso que leva alguns
a traçar linhas de demarcação no mapa do
gênero humano. A discriminação começa
quando essas linhas não se contentam em separar grupos,
mas levam a pensar que um certo grupo vale mais ou menos que
outro por razões de raça, de cor, de sexo, de
língua, de religião, de opções políticas,
de origem nacional ou social.
A distinção mais corrente é muitas vezes
a que se estabelece em função do sexo, uma vez
que isso coincide com uma diferença biológica
inerente à espécie humana. Alguns não ultrapassam
essa diferença. O fato de sermos diferentes em certos
aspectos não nos torna diferentes em todos os aspectos.
A circunstância de termos corpos diferentes, não
significa que as nossas vidas devam ser necessariamente diferentes.
Existem, porém, muitas outras distinções.
A mais nefasta é a que se baseia na cor ou na raça,
uma diferença particular sublinhada muitas vezes e de
maneira excessiva, acaba por esconder a nossa humanidade comum.
Aí surge o racismo, uma doença que deve ser curada.
Ser racista é acreditar que as características
particulares, geralmente físicas de certos grupos dos
dois sexos, os tornam superiores ou inferiores aos outros. O
comportamento racista torna-se patente quando o tratamento que
se dá às pessoas depende da sua raça ou
da cor da sua pele, e latente, quando se reflete na maneira
como a sociedade trata sistematicamente os grupos em função
de critérios discriminatórios.
Mas voltando ao racismo como doença, digo que ela se
manifesta pela negação do racismo, continua Magali
Naves. Justifica-se que a discussão sobre o racismo só
vai levar ao antagonismo entre as raças, estimular o
conflito racial, que o caminho mais correto seria o de resolver
o problema da população como um todo, e que cada
um ache seu espaço. Eu acho isso praticamente impossível
porque não pode achar espaço quem se nega como
um povo, e se nega a esse povo o direito de se reconhecer, de
se aceitar e de se desenvolver.
Não dá mais para adiar esse debate. A população
brasileira deve se reconhecer como população brasileira,
pois os modelos e percepção de quem nós
somos não é o nosso verdadeiro ser brasileiro,
que é ter negros e mestiços. Para alcançar
isso nós precisamos conhecer a nossa verdadeira história,
que não é a que se aprende na escola. Na nossa
história existem negros que lutaram pelo país
e não se fala nisso. Então esse processo passa
pela educação.
Considero o Quesito Cor é essencial. Pode parecer contraditório
ao que eu disse sobre o racismo como doença, mas para
curá-la nós temos que investigar e conhecê-la.
Para aplicarmos políticas coerentes com a nossa realidade
social, econômica e cultural precisamos de dados. O nosso
desenvolvimento como país passa pelo conhecimento de
nós mesmos. Existem mais loiros na TV brasileira do que
na TV francesa. Nós devemos implementar políticas
públicas voltadas para o pleno desenvolvimento do potencial
humano ao qual todos nós temos direito. O que nós
temos que fazer é agir, porque o racismo muda, ele vai
mudando conforme o tempo, e tem sempre novas formas de atuação.
E por não ser explícito aqui no Brasil, é
moreninho, é pardo, se torna mais difícil de ser
identificado, e é mais difícil trabalhar com esses
dados, visto a quantidade de cores que tem nesse país.
A própria percepção do corpo vai mudando,
o empregador por exemplo, não tem a mesma imagem quando
se trata de uma professora, do operário, da empregada
doméstica, criam-se estereótipos e quando se pensa
na empregada doméstica pensa-se como passa na televisão.
O corpo é um produto, uma mensagem publicitária
servindo a uma certa empresa - o movimento negro reclamou que
o negro só fazia papel de empregada e já colocaram
brancos, mas não é a nossa realidade. A nossa
realidade, o sonho dos brasileiros é ser loiro de olho
azul ou moreno de olhos verdes", concluiu Magali Naves.
O IBGE em ação
desenvolvendo metodologia e identificando categorias
Destacando que o debate sobre o Quesito Cor, com a participação
das áreas de propaganda e marketing é uma coisa
nova, recente e que deve ser mantida, Moema De Poli Teixeira,
pesquisadora do Departamento de População e Indicadores
Sociais do IBGE(Instituto Brasileira de Geografia e Estatística)
e da PENESB (Universidade Federal Fluminense), trouxe para o
debate uma contribuição interessante, informativa,
que destaca a história de como o Quesito Cor ou raça
tem sido pesquisado pelo IBGE.
"Tradicionalmente é um quesito que começa
com os censos demográficos - conta Moema Teixeira. Os
censos de população são as primeiras pesquisas
que contém essa informação. O primeiro,
feito em 1872, perguntava à população,
livre e escrava, a sua cor, sendo que a população
livre classificava a si mesma e aos seus escravos. As categorias
que eram usadas na época para a população
livre eram branco, pardo, preto ou caboclo. Já a população
escrava era definida como pardos ou pretos. (Rachel, por favor,
observe a contradição entre essa informação
e a que vem a seguir onde ela diz que o pardo surgiu no censo
de 1940)
No censo de 1890, já depois da abolição,
os quesitos eram brancos, pretos, caboclos e mestiços.
Depois, só se volta a pesquisar o Quesito Cor no censo
de 1940, no qual a população foi classificada
de preta, branca, amarela ou um traço, caso não
se classificasse nessas três categorias. Mais tarde, na
tabulação, todo mundo que escreveu qualquer outra
coisa, ou seja, que não escreveu amarelo, branco ou preto,
ou optou por colocar um traço era juntada na categoria
parda. Eu acho que é esse o momento em que aparece essa
categoria, e a posteriori, ela surge da agregação
de todas as demais categorias de quem colocou o traço
no quesito.
O censo de 1950 repete igualzinho o censo de 1940. Já
o censo de 1960 traz uma novidade, que é a pré
codificação. As categorias vêm fechadas
e o pesquisador marcava o x no quadradinho. As categorias usadas
foram branca, preta, amarela, parda e índia. Aí
a cor parda já aparece no questionário. Aconteceu
que na publicação do censo de 1950, a população
indígena foi reunida na população parda,
e saiu todo mundo como pardo, embora no questionário
houvesse a quadrícula indígena.
Essas pesquisas se prestam ao
engendramento e crescimento da democracia racial. Embora não
sejam perfeitas, de certa maneira medem uma coisa que é
identidade, e identidade não é uma algo pronto
e acabado. Existem estudos que mostram que ao longo dos censos
demográficos as pessoas mudam sua resposta. (olho)
É do conhecimento de
todos que o censo de 1970 não incluiu o Quesito Cor.
A explicação da época foi que as categorias
precisavam ser melhor estudadas, dada a efervescência
dos movimentos negros, da insatisfação com essas
categorias, a forma como estava sendo pesquisada. 'Para não
cometer mais erros' foi a justificativa oficial. Decidiu-se
não perguntar e fazer uma pesquisa específica
sobre esse tema, que é a Pesquisa Nacional para a Amostra
de Domicílios. Assim foi feita a PNAD em 1976. A idéia
era que essa PNAD fosse tão bem feita que trouxesse subsídios
para o censo de 1980, com mais convicção do que
realmente perguntar e como perguntar.
Foi em 1976 que se decidiu fazer essa pergunta duas vezes, porque
o objetivo era testar categorias, saber quais são as
categorias que as pessoas usam para se definir. Então,
primeiro se fazia uma pergunta aberta, para que não houvesse
indução de resposta: qual é a sua cor?
Tinha um espaço aberto onde a pessoa dizia a cor que
bem entendia. E o entrevistador foi bastante preparado para
não questionar a resposta. Ele era instruído a
escrever o que quer que fosse respondido. Após fazer
esse registro ele perguntava, dentre essas categorias que o
IBGE pesquisa qual questão que melhor define a sua cor?
E a pessoa escolhia dentre aquelas categorias testadas: branco,
preto, pardo e amarelo.
A PNAD tem uma amostra nacional e apesar de ser uma pesquisa
de mão-de-obra é uma pesquisa muito grande e ainda
permitiria que se cruzassem as informações com
os dados de mão-de-obra. O que essa PNAD revelou? Apareceram
como resposta aberta 136 denominações diferentes,
muitas categorias. As pessoas costumam fazer piada dessa pesquisa,
mas ela foi muito importante, pois serviu de base para tudo
o que se fez depois. A análise da pesquisa demonstrou,
entretanto, que 95% das respostas estavam nas categorias tradicionais
que o IBGE classificara: branca - 41%; preta - 7,6%; amarela
- 0,9%; parda - 7,6%; e aí clara, morena clara e morena
- quase 40% das respostas.
Essa foi uma das novidades da pesquisa. Aí é a
primeira vez que aparece essa categoria - morena - em contraposição
ao pardo. Apesar disso, 7% ainda se diz pardo; mas quando cruzada
com a pergunta fechada, a maioria falou moreno, moreno claro,
moreno escuro. Isso, para o IBGE, significou que as categorias
que estavam sendo pesquisadas, se inventadas ou não em
algum momento da história, faziam sentido, e isso justificou
por que o censo de 1980 só colocou branco, preto, pardo
e moreno.
O censo de 1976 foi o marco para testar categorias. Foi ai que
houve a reviravolta nas formas de análises, permitindo
que se exibisse uma realidade desigual, e igualmente o potencial
de estudos para buscar a visibilidade dessa democracia racial.
A partir daí percebeu-se que os dados que diziam que
éramos mais pessoas, poderiam, por outro lado, criar
uma realidade, e servir também para mostrar a realidade
desigual e a situação diferenciada entre pretos
e pardos na sociedade brasileira. Essas pesquisas estatísticas,
embora com problemas, criticáveis e imperfeitas, mostram
o potencial de estudos e uma nova forma de análise. Essas
pesquisas se prestam ao engendramento e crescimento da democracia
racial. São fundamentais, embora não sejam perfeitas.
Existem ainda, estudos que mostram que ao longo dos censos demográficos
as pessoas mudam sua resposta, expõe Moema Teixeira.
Qual a cor? É ou não
afro-descendente? O que serve?
Em 1991 o IBGE continuou a pesquisar
com as categorias branco, preto e pardo e incluiu o indígena
como categoria separada.
Na preparação para o censo 2000 realizou uma grande
consulta através de seminários para os quais a
sociedade organizada, estudiosos e todas as áreas a quem
os dados do censo interessavam foram convidadas. Novamente surgiu
a demanda por novidades: que se perguntasse ao invés
de pardo, se é ou não é afro- descendente.
O censo 2000 teve dois pré-testes e num deles essa proposta
foi incorporada. O que aconteceu? Não se pode esquecer
que essas pesquisas são nacionais e às vezes existe
a tendência de se achar que uma determinada forma será
compreendida por todo mundo. Quem faz pesquisa sabe que tem
que balizar isso. O que aconteceu foi que as pessoas não
entendiam a pergunta. Mas a idéia estava lançada
e internamente, os técnicos do IBGE, junto com as pessoas
que fizeram essa demanda, analisaram com muito interesse a idéia
de se pesquisar origem. Então a novidade foi que, ao
invés de pesquisar apenas cor ou raça, pesquisar
também a origem, perguntar a origem para quem se diz
pardo, para se saber que origem tem o pardo, explica a pesquisadora.
Esse tipo de indagação parecia interessante para
todos, porque afinal de contas o Brasil se diz mais de 50% branco.
Que brancos são esses? Que origem eles têm? Então
abriu-se um espaço para que fosse feito um questionário
acoplado a uma outra pesquisa do IBGE que não tinha o
Quesito Cor, que é a Pesquisa Mensal de Emprego (PME),
em julho de 1998 com a seguinte idéia: fazer quatro perguntas,
sendo duas referentes a cor ou raça e duas referentes
à origem, uma aberta e outra fechada, para ver se as
coisas mudaram e em que sentido mudaram. Apareceram 143 designações
como resposta à pergunta sobre a cor ou raça.
Os resultados dessa pesquisa deverão chegar ao público
neste ano de 2001.
Moema Teixeira esclarece que a PME é uma pesquisa diferente
da PNAD, pois é feita em seis regiões metropolitanas,
é mensal e não tem o tamanho de uma PNAD que é
anual. A PME é para medir emprego, desemprego e é
realizada em seis regiões metropolitanas: Salvador, Rio
de Janeiro, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte e São
Paulo.
Antecipando resultados
Analisando essas 143 denominações
no Brasil inteiro teve-se um
resultado um pouco parecido com o acontecido em 1976, lembra
Moema Teixeira. Novamente a maioria dessas categorias aparecia
uma vez só, e como naquele ano, onde 95% das respostas
estavam em algumas categorias, em 1998, 97% das respostas se
encontravam em 7 categorias assim distribuídas: branco
- 54%; moreno - 21%; pardos - 10%; preto - 4%; negro - 3% (uma
categoria que não apareceu em 1976); morena clara - 2,9%;
e amarelo - 1,1%.
Quanto ao quesito origem, o que aconteceu pela forma como ele
foi realizado, com respostas fechadas foi: origem brasileira,
75% das pessoas; 5% - italiano; 4,6% - português; 2,1%
- alemão; 2,2% - indígena; 1,5% - negra (a pesquisa
incluiu negra para representar que é afro-descendente,
mas não foi bem compreendido); africana deu 1%. Juntando
africana com negro deu 2,5%; japonesa, 1% e os demais menos
de 1%.
As análises do Quesito Cor pareceram mais interessantes,
por ser um quesito que já vem sendo pesquisado. O objetivo
era ver de que maneira propor uma mudança, ou não,
para o censo 2000. O que se percebeu foi que devido a pesquisa
ser realizada nas regiões metropolitanas, os resultados
eram muito interessantes para mostrar como varia o pensamento
e a identidade das pessoas a nível regional. Isso é
importante para se construir uma pesquisa que tem que ser válida
nacionalmente. As variedades regionais interessam para o pesquisador
dimensionar as alterações que vai propor e ver
se aquilo representará o que se quer que represente para
todo o país.
É importante verificar-se alguns exemplos país
afora. Colocada a pergunta sobre cor em Recife, 24% se diz moreno,
quando responde branco na resposta fechada do IBGE; no Rio de
Janeiro só 4% desses brancos dizem morenos e 95% se diz
branco mesmo. Quem responde preto no quesito fechado em Recife
são 67% que se dizem morenos. Em Salvador, na categoria
preto, 44% se dizem pretos mesmo, e 33,9% se dizem na categoria
negro. Isso quer dizer que em Recife 67% de pretos está
dizendo que é moreno, e em Salvador quem está
dizendo preto, se divide entre as categorias: preto, 44%, e
negro 44,9%. No Rio de Janeiro, é um pouco parecido,
embora a maioria se diga preto, dos que são pretos no
quesito fechado quase 60% fala que é preto e outros 24%
fala negro. Em São Paulo também há divisão,
40% falam preto, e 42% negro.
Voltando aos resultados encontrados em Recife, temos: 92% de
pardo fala que é moreno. Eles adoram o termo moreno,
que é uma categoria muito significativa no Recife. Na
região metropolitana de Salvador, os pardos ficam divididos,
46% dizem que são morenos e 46% que são pardos.
No Rio de Janeiro, 38% afirmam-se morenos, e 52% pardos. Chegando
em São Paulo, 64% dos pardos dizem que são morenos
e 32% pardos.
Quando se dirige o foco da pesquisa para a região metropolitana
descobre-se um peso que precisa ser avaliado, estudado. Precisamos
refletir mais sobre isso, para fazermos a pesquisa a nível
nacional, pondera Moema Teixeira, ao expor os dados da pesquisa
com resposta aberta. Em Recife 32% se diz branco, e 60% moreno.
Em Salvador, 31% moreno e 26% pardo, 19% branco, 7% negro, e
9% preto. Quer dizer, mesmo em Salvador as pessoas se dizem
mais preto do que negro. No Rio de Janeiro você tem 56%
que se diz branco, 15% moreno, 16% pardo, e 6,5% preto, 4% negro,
espontaneamente. Em São Paulo 61% se diz branco, 20%
moreno, 2,9% negro, 8,6% pardo, e 2,7% preto.
Essa foi a última pesquisa realizada pelo IBGE para testar
categorias, informa Moema. "Entendo que ela traz coisas
boas para se pensar, mas devido a essa complexidade ao nível
regional não foi possível aplicar novidades ao
censo 2000, que de novo repete as mesmas categorias dos censos
anteriores. Parece que essa preferência de trocar o pardo
por moreno complica mais do que ajuda. Substituir por qual categoria
é um grande desafio que só mostra que devemos
continuar estudando, pesquisando e lutando para desvendar. E
o IBGE tem, em todos os seus trabalhos, procurado caminhar nessa
linha de mostrar que esses dados têm um uso importante
no desvendamento das desigualdades no Brasil".
Finalizando sua exposição a pesquisadora do IBGE
informa que a partir deste ano
o Quesito Cor, ou raça, deve constar da Pesquisa de Orçamentos
Familiares - POFs, que esse instituto realiza. O que fará
com que o IBGE tenha os censos, as PNADs e, talvez as POFs,
para continuar fazendo estudos de interesse dos pesquisadores.
A favor e contra a adoção do Quesito Cor
Por defender a inclusão
desse quesito nas pesquisas comerciais regulares, mesmo que
o produto seja um inseticida e não apenas para produtos
tão óbvios como cosméticos para cabelo,
Pergentino Mendes de Almeida, da Abipeme, afirma que todos têm
a missão de enfrentar o preconceito que assusta tanto.
"O que demonstramos hoje é o medo de achar esse
dado. Acho que seria interessante fazer-se uma recomendação
para que a pesquisa de mercado coloque o quesito em seus questionários"
Enxergando no racismo um veneno, uma mancha que persiste como
resultado do que foi a escravidão, escamoteado pela realidade
brasileira que leva a população negra a ser ignorada,
Pergentino identifica nesse fato uma arrogância da elite,
que não vê a libertação dos negros
como a sua própria libertação; mas confessa
que ainda tem uma esperança, pois acredita que todos
são vítimas do preconceito. Defende que haja uma
afirmação da identidade do negro na sociedade
para que a sua ascensão se faça presente no consumo,
mas crê que a luta por esse esclarecimento cabe a todos
os indivíduos indiscriminadamente.
"Há 20 ou 30 anos - relembra Pergentino - o mercado
só se dirige às classes A e B. A indústria
se concentra nas necessidades desse nicho, mas hoje estamos
precisamos descobrir a população como um todo.
É preciso evidenciar a existência desse mercado.
Todas as vezes que os institutos de pesquisas fazem um painel
de consumidor para quantificar mercado é importante incluir
o critério cor".
Contrária a essa posição, Susana Almeida,
coordenadora de campo da RI, conta sua própria experiência
para se justificar: "já fiz projetos onde se precisou
saber a cor da pele do pesquisado. Definimos que usaríamos
um cartão circular para que o próprio entrevistado
apontasse a sua cor, mesmo assim passamos por constrangimentos.
No papel de entrevistadora, de quem está na ponta, sou
contra a inclusão do Quesito Cor. Há um preconceito
latente e o pesquisador é que passa pelo constrangimento
porque o entrevistado sempre encara a pergunta como preconceito.
O que entendo é que alguns têm mesmo mais melanina
na pele que outros. Ficar perguntando sobre a cor é o
mesmo que classificar quem é mais gordo ou magro".
Mesmo tendo essa posição, Susana reconhece a existência
de situações em que a adoção do
quesito é uma necessidade da pesquisa de mercado, e assim
sugere a busca de métodos, pois não sente confiança
em nenhum dos que são conhecidos até agora porque
acredita que o "critério observado pelo pesquisador
é subjetivo".
Defendendo a inclusão do quesito, Joel Zito Araújo,
do Núcleo de Pesquisa de Telenovela da ECA-USP, autor
do livro "A Negação do Brasil - O Negro na
Telenovela Brasileira", recorda que as diferenças
de raça já foram de interesse dos brancos no início
do século XIX. "Afirmar a raça, hoje, interessa
ao negro. Eis porque o discurso incomoda. A complexidade está
na segregação política e cultural. Hoje,
110 anos depois, está sendo questionado o mito da democracia
racial. A miscigenação é uma imposição
social contra a segregação existente e a ideologia
do branqueamento em nome da unidade nacional", interpreta,
reconhecendo, porém, que "há dificuldade
do descendente afro de aceitar a sua própria cor, já
que não tem visibilidade, e o exemplo maior é
a publicidade, que devido ao seu compromisso com o lucro mostra
a sociedade brasileira como se fosse branca e loira. O branqueamento
é uma grande tragédia para nós, pois patenteia
o peso político ideológico da sociedade sobre
os afro-descendentes", completa.
Recordando Florestan Fernandes, que disse que o "brasileiro
tem preconceito de não ter preconceito", Júlio
César Gibrail Tannus, ex-presidente da SBPM, declarou
ter grandes expectativas sobre as possibilidade da pesquisa
de mercado adotar o quesito cor ou raça, como um reencontro
das identidades regionais e nacional.
A sustentar sua crença, os estudos do IBGE desde 1980,
embora uma das coisas que ainda exija definição
seja a metodologia de tratamento da questão. "Todos
as pessoas são influenciadas pela ideologia e pelas relações
sociais. Não podemos voltar ao século XIX. Há
implicações sérias, de caráter quantitativo
e qualitativo a se considerar, mas já se caminhou muito,
e o que se pode dizer ainda é que essa questão
sempre terá viéses, não existe objetividade
possível", complementa.
Complementando, Ney Luiz Silva, da RI, lembra que a questão
do marketing é ganhar dinheiro mesmo, mas acredita que
a falta de hábito de colocar esse quesito deve-se ao
fato do mercado não estar atento à questão.
"Sempre houve preconceito, referenda, mas considero fundamental
que se coloque o quesito".
Uni Lever: de bem com o consumidor
negro
Só há cerca de
uma década a indústria brasileira descobriu o
consumidor não branco. Inicialmente, empresas de pequeno
porte, cujos produtos não satisfaziam à exigência
dos consumidores de maior poder aquisitivo, que recorriam aos
importados, principalmente cosméticos. Segundo o DataFolha,
dos 15 milhões de brasileiros de classe média,
6,5 milhões são negros.
Ainda são poucos os produtos que exibem modelos negros
em sua publicidade. Um desses exemplos é a Gessy Lever,
braço da multinacional anglo-holandesa Unilever, recém
denominada Unilever Brasil. No país desde 1929, líder
de mercado em produtos de limpeza doméstica, higiene
pessoal e beleza e uma das primeiras no ranking de anunciantes,
exibe modelos negros em sua propaganda de produtos específicos
para esse consumidor.
"A razão que nos levou a incluir o modelos negros
na publicidade deve-se a que a publicidade é um composto
do mix de produtos da empresa, que é desenvolvido em
função das necessidades dos consumidores. O comercial
é apenas a maneira de se comunicar com esse segmento.
O mercado brasileiro tem uma grande parcela da população
com essa característica, uma faixa expressiva de consumidores
de cor negra", explica Dulce Perdigão, líder
de pesquisa regional para a América Latina e também
responsável pela área de pesquisa de mercado da
Unilever Brasil.
Foi a partir de pesquisas básicas de mercado, onde se
insere a pesquisa de hábitos e atitudes de determinada
categoria de produtos que a Unilever Brasil identificou a necessidade
do produto específico. "Normalmente são grandes
amostras nacionais e nelas nós identificamos que em determinadas
áreas do país existe a incidência de tipos
diferenciados de consumidores, nos quais se incluem os consumidores
de pele negra. No Nordeste, por exemplo, há populações
com características diferentes daquelas que tem o sul
do país, e mesmo dentro de São Paulo, há
concentrações expressivas de consumidores de pele
negra. Essa população tem necessidades diferentes
daquelas que têm os consumidores de pele branca. Por isso
os nossos produtos, principalmente os de higiene e beleza, são
direcionados para as necessidades que os consumidores relatam",
conta Dulce Perdigão.
Atualmente a indústria de cosméticos reconhece
que os negros têm um tipo de cabelo diferente daqueles
que têm um branco ou um japonês, e até tipos
de cabelo seco, oleoso, ou liso. Detectou que a pele e o cabelo
de pessoas negras, não aceitavam bem o mesmo produto
direcionado para a população em geral e começou
a desenvolver produtos específicos para esse segmento,
desde sabonetes a cremes para a pele e xampus. "Esse é
um nicho de mercado importante, e uma empresa que desenvolve
produtos para ele, deve apresentá-los comercialmente
com embalagens que identificam esses benefícios",
diz a líder da Unilever. "Toda a comunicação,
que é a maneira de fazer isso ser mais amplamente conhecido,
tem que ser baseada no mesmo conceito, por isso escolhemos modelos
que correspondam à classe de consumidores", completa.
A Unilever , que também atua no setor de alimentos, tem
mais de 170 marcas no mercado, entre as quais o sabonete Dove,
a linha de xampus Seda (na qual se inclui o Seda Hidraloe para
cabelos cacheados) e os sabões em pó Omo e Brilhante.
A Cervejaria Kaiser, que se apresenta como uma empresa pronta
para o Séc. XXI, persegue uma intimidade cada vez maior
com o consumidor. Como exemplo a recente campanha da Kaiser
Summer Draft, dirigida ao público jovem e praticante
de esportes radicais, onde os modelos negros marcam presença.
"Nosso objetivo é criar canais de comunicação
cada vez mais próximos da realidade do nosso consumidor.
Por isso não podemos ignorar a diversidade que existe
na sociedade", disse Miriam Ramalho, gerente....
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