Quesito Cor! Por que incomoda tanto?

Por: Marta Alves


E escorreram todas as cores,
tingindo o céu, o sol,
a terra, a tez,
o consumidor, o cidadão, o eleitor.

Como fechar os olhos
Para a beleza dessa diversidade?
Como defini-la,
Para melhor captá-la?

Na poesia um alerta à beleza ignorada e uma esperança de compreensão. No discurso histórico, assumido pela sociedade, laivos de generosidade. Vivemos em um País mestiço onde não existe preconceito racial. Mas as atitudes ignoram o pluralismo étnico. Inúmeras são as disparidades ao comparar-se o leque de oportunidades oferecidos aos brancos com aquelas possíveis aos negros ou seus descendentes.
Somos brancos? Negros? Que ofensa! Somos morenos! Quando convidados a definir a nossa cor criamos mais de uma centena de categorias. Somente este ano, o MEC (Ministério da Educação e Cultura), anunciou um programa de cursinhos pré-vestibulares dirigido aos estudantes negros, através de convênio do Governo
Federal com o BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento. A verba já foi solicitada porém ainda não houve retorno por parte do BID.
Podemos ver nesse programa um tácito reconhecimento das desigualdades apontadas em estudos anteriores do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e referendadas pela Síntese de Indicadores Sociais 2000, que compara dados de 1992 com os de 1999, com base na Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio), publicados no início de abril 2001.
No ano de 1999 a renda média dos brancos era de 5,25 salários mínimos. Entre os negros, de 2,43 salários mínimos. A cor do cidadão brasileiro continua a gerar diferenças. A taxa de analfabetismo caiu para todos os grupos da população, mas continua a maior para negros, 21%, e pardos, 19,6%%, contra 8,3% para brancos. O retrato racial detectado pelo IBGE não se modificou. Na comparação por cor ou raça, esse retrato diz que, em média brancos têm 6,7 anos de estudo, enquanto negros ficam com 4,5 anos e os pardos 4,6 anos. São os negros e pardos, 14,6% e 8,4%, respectivamente, contra 6,1% de brancos que ocupam emprego doméstico; já na condição de empregador há 5,7% de brancos e 1,1% de negros e 2,1% de pardos.
"A sociedade no Brasil discrimina negros e pardos. Escureceu é discriminado, ou melhor, não embranqueceu é discriminado", disse o presidente do IBGE, Sérgio Besserman, tendo sua fala reproduzida nas páginas dos principais jornais do País. E isto acontece apesar de 39,9% se declararem pardos; 5,4% negros e 54% brancos, quando a pesquisa Pnad indagou a cor dos mais de 160 milhões de brasileiros.

Sensível à demanda sobre a questão, a SBPM (Sociedade Brasileira de Pesquisa de Mercado), realizou o debate "Quesito Cor" - buscando uma melhor compreensão do critério para o pesquisador, que é quem recebe o impacto maior quando uma pesquisa insere esse quesito -, reunindo institutos de pesquisas, entidades representativas do movimento negro (que lutam pelo reconhecimento do preconceito racial como um componente da cultura brasileira e defendem mais visibilidade para a população não branca) e pesquisadores.
Refletindo a falta de clareza e as imprecisões sobre a definição e categoria dessa cor, o debate trouxe contribuições importantes para a reflexão de todos. Resultados de pesquisas e o histórico de metodologias empregadas em censos do IBGE, reconhecido como o instituto que apresenta resultados mais conclusivos e que mais desenvolveu metodologias tendo o Quesito Cor como pano de fundo, significam o primeiro passo da pesquisa de mercado para colocar o pesquisador mais à vontade nesse quesito.
Outra contribuição são os conceitos de raça ou cor como anteparo para a discriminação de grupos sociais em benefício das elites dos países latino-americanos, especialmente, como um dos elementos que colocam o Quesito Cor como uma questão que deve estar na ordem do dia.
O debate foi precedido de um 'show' com o Grupo Cachoeira, composto por Daniel, Fernando, Oswaldo e Renato, que se dedicam à difusão do jongo, dança que teve origem na senzala e nos cativeiros onde ficavam os africanos trazidos para o Brasil, berço do estilo musical que hoje é conhecido como samba.
O evento contou ainda, com um desfile de roupas étnicas, exibindo modelos negras, entre as quais Terezinha Malaquias, que produziu o desfile e atua como modelo vivo para famosos escultores em São Paulo, tendo a assistência do artista plástico Marcelo Parra. A maquiagem das modelos foi patrocinada pela Noemy, empresa pioneira na criação de cosméticos para pessoas de pele negra. O show de dança e o desfile foram apresentados pelo músico, tocador de sax, Amendoim.
O discurso oficial aponta o Brasil como o país da miscigenação de raças e credos. É possível que haja consenso em relação ao segundo ponto, mas quando o foco é a cor da pele que predomina na população brasileira as contradições começam nas definições de cor e escancaram-se nos números. Em edição recente os índices do IDH afirmam que o Brasil está em 48º lugar para população branca - se for separado em termos de população branca e população negra - e ocupa o 108º lugar para população negra. Depreende-se por aí que esse é um país de raça branca. "Fala-se em democracia racial, mas quando os indicadores aparecem, gritam o contrário", afirma Raquel Moreno, presidente da SBPM, fazendo a introdução ao debate Quesito Cor.

Consumidor sem visibilidade

Outro indicador que merece destaque, lembra Rachel, "é o que aponta uma classe média negra crescente, que significa consumidor, cuja existência começa a ser levado em conta em termos da produção e da oferta de produtos, mas que continua ausente em termos de imagem na mídia - na televisão se vê um Brasil eminentemente branco. A contradição é que esse dados não refletem a riqueza e a beleza que a multiplicidade racial e étnica da sociedade brasileira apresenta, ou seja, enquanto consumo a miscigenação é considerada sim, mas o mesmo não acontece quanto à visibilidade. E essa incoerência fica gritante porque a afirmação dessa multiplicidade muitas vezes se dá apenas intuitivamente e no cotidiano das pessoas, já que faltam dados. É fato que eles começam a ser produzidos, mas ainda são insuficientes. E nós, da Sociedade Brasileira de Pesquisa de Mercado trabalhamos com dados, nós geramos dados, nós sistematizamos dados, nós oferecemos dados, recorda Rachel Moreno. E, muitas vezes por omissão ou falta de percepção, deixamos de oferecer dados que podem ser politicamente importantes".
Ela relembra que durante algum tempo o Quesito Cor esteve presente nas pesquisas de mercado, sendo alijado, provavelmente, por dificuldades que serão colocadas neste debate e hoje não consta mais nos dados de classificação.

Afirmar a raça, hoje, interessa ao negro, por isso o discurso incomoda. A complexidade está na segregação política e cultural. Hoje, 110 anos depois, está sendo questionado o mito da democracia racial. (olho)

Colocado o convite à reflexão, a filósofa de educação, Sueli Carneiro, representando o Géledes - Instituto da Mulher Negra, iniciou o debate destacando que, junto à flagrante importância da questão para os negros em particular, "tenho certeza que esse tema é do interesse do conjunto do país, pois é um componente essencial na promoção da igualdade efetiva entre negros e brancos. A questão - Quesito Cor -, digamos, está na origem do desafio colocado para nós em termos de consolidação da democracia no nosso país. A inserção do Quesito Cor em todos os recenseamentos sobre população brasileira vem se constituindo numa das principais bandeiras dos movimentos negros no país, e também de um conjunto de pesquisadores das questões raciais no Brasil", informa Sueli, indagando a seguir:
"O que está em jogo nessa reivindicação? Para nós, negros, é o direito de sabermos quantos somos, como vivemos, do que adoecemos, do que morremos, quais as especificidades sociais e culturais que apresentamos frente a outros grupos raciais. Consideramos que a inserção do Quesito Cor nos sistemas de informações nacionais é uma ferramenta essencial para dar fundamento científico à desigualdade de tratamento que os negros experimentam na nossa sociedade. Uma desigualdade implicitamente observada, mas renitentemente negada pela maior parte da sociedade brasileira".

Mito da democracia racial

A resistência em relação ao Quesito Cor existente no Brasil tem raízes sólidas em toda a América Latina, ensina Sueli, citando o sociólogo Carlos Alfredo Hasenbalg, estudioso das questões raciais no Brasil e na América Latina. "Para o professor Hasenbalg - relata a filósofa - o mito da democracia racial latino-americana tem como elementos comuns a suposta ausência de preconceito e discriminação racial, reforçado pela ausência aparente de conflitos raciais, inexistência de discriminação legal, pela presença de alguns não brancos nas elites e a miscigenação racial da população, que supostamente seria um indicador de tolerância racial, característica comum nesses países.
Outros sintomas análogos, segundo afirmações do professor Hasenbalg, é a perseguição ao ideal de embranquecimento, que reside na tendência a apagar os traços da presença negra depois do fim da escravidão. Para ele não se trata apenas de fazer o negro invisível nas comunicações de massa e mantê-lo fora das posições públicas e de "status", como ocorre atualmente. A questão vem de longa data e consiste em eliminar, tanto quanto possível, as marcas da presença negra nos registros históricos. Hasenbalg exemplifica o esforço de eliminar essas marcas com uma retrospectivas dos censos brasileiros e latino-americanos. Diz ele: a história do censo demográfico no Brasil, iniciada em 1872, é ilustrativa a esse respeito, os levantamentos censitários de 1900, 1920 e 1960, simplesmente omitiram a pergunta sobre a cor da população. O quesito cor foi reincorporado no censo de 1980 devido às pressões dos cientistas sociais do movimento negro". Entre estes encontrava-se o sociólogo Hasenbalg, segundo matéria publicada na revista Veja em 7 de novembro de 1979.
Mas o desempenho dos outros países da América Latina nesse aspecto não é muito melhor. A Argentina não tem registros de raça ou cor da população desde o terceiro censo nacional de 1914; a Bolívia não conta com dados sobre raça desde 1900, e o Peru desde 1961; o Equador excluiu os dados sobre cor e raça nos censos de 50 e 62; a Venezuela está sem dados sobre raça desde o primeiro censo nacional realizado em 1876; a Nicarágua não conta com essa informação desde o censo de 1920; Honduras desde 1946, e República Dominicana desde 1950.
As condições como se processam os recenseamentos nesses países vêm permitindo que a visão de democracia e cidadania, em especial no Brasil, se construa tendo por paradigma apenas as necessidades e interesses das populações brancas, desconsiderando-se as desigualdades existentes entre os diferentes segmentos raciais. Hasenbalg conclui que no Brasil a noção de democracia racial é uma poderosa construção ideológica, cujo principal efeito tem sido manter as diferenças inter-raciais fora da arena política, criando severos limites às demandas do negro por igualdade.
Depois que expõe as conclusões do professor Hasenbalg, Sueli lembra que não é gratuito, portanto, que as mulheres negras reunidas no Painel de Mulheres Negras Latino-americanas e Caribenhas, preparatório à Conferência de Pequim, tenham levado como uma das suas principais bandeiras de luta, a exigência de que os governos desses países incorporassem o item cor e gêneros aos censos governamentais, como forma de obter um conhecimento real dos números e situação sócio econômica e política das populações negras latino-americanas. Exigiram ainda, que organismos estatais, como o Ministério da Saúde, coletem dados sobre os grupos étnicos atendidos, para a obtenção de dados consistentes sobre diagnósticos e enfermidades que sofrem as populações não brancas. Esses dados serviriam de base para a formulação de políticas públicas adequadas a esses segmentos da população.

Embranquecimento imposto e perda de identidade

Uma outra pesquisadora, a afro-americana Melissa Nobel, citada por Sueli, examina em seu livro Matizes da Cidadania - Raça e Censo na Política Moderna, como o censo tem ajudado a embranquecer o Brasil. Para essa pesquisadora, o censo ajuda não simplesmente a contar as pessoas, mas a criar categorias de raça ou de cor. O IBGE ajuda a criar a cara oficial do país por meio de terminologia e metodologia, ao contrário das pesquisas do Data Folha em que os brasileiros não acreditam que haja maioria de brancos no Brasil.
Os censos brasileiros têm ajudado o mito da democracia racial, em primeiro lugar, sustentando o pressuposto da mistura racial, quando usa o termo cor ao invés de raça. A justificativa é que a mistura havia tornado raça um conceito irrelevante para compreender as relações raciais no Brasil. Em segundo lugar, esse mito se mantinha também na idéia de que raça não era um problema maior. Assim sendo, uma análise do censo brasileiro demonstra que ele tem ajudado a justificar e garantir uma falta de ação do Estado brasileiro em relação a população negra.

Talvez o termo pardo preste-se apenas para agregar aqueles que por terem a sua identidade étnica e racial destroçadas pelo racismo, pela discriminação e pelo ônus simbólico que a negritude contém socialmente, não sabem mais o que são, ou simplesmente, não desejam ser o que são. (olho)

Se o Quesito Cor aparenta as dificuldades apontadas em seu manejo oficial, adverte Sueli Carneiro, a situação é mais crítica ainda quando consideramos a atitude dos institutos não oficiais, que em geral simplesmente desprezam a importância desse recorte e não o coletam, impedindo que a população negra possa dispor de informações sobre si mesma.
A miscigenação tem se constituído num instrumento eficaz de embranquecimento do país por meio da instituição de uma hierarquia cromática, e de fenótipos, que têm na base o negro retinto, e, no topo, o branco da terra, oferecendo aos intermediários o benefício simbólico de estarem mais próximos do ideal humano, que seria o branco. Esse imaginário de quanto mais claro melhor, tem impacto negativo, particularmente sobre os negros, em função de uma suposta melhor aceitação social dos mais claros em relação aos mais escuros. Isso explica a diversidade de expressões que pessoas negras, ou seus descendentes miscigenados, adotam para se auto classificarem racialmente, tais como: moreno claro, moreno escuro, moreno jambo, marrom bombom, mulato, mestiço, caboclo, mameluco, cafuzos, ou seja, confusos, de tal maneira que acabam todos agregados na categoria oficial do IBGE: 'pardo', algo que ninguém consegue definir o que seja, enquanto raça ou cor. Talvez o termo pardo preste-se apenas para agregar aqueles que por terem a sua identidade étnica e racial destroçadas pelo racismo, pela discriminação e pelo ônus simbólico que a negritude contém socialmente, não sabem mais o que são, ou simplesmente, não desejam ser o que são.
Para a pesquisadora, as diferenciações cromáticas pardo, mestiço e mulato vêm funcionando com eficácia como elementos de fragmentação da identidade negra, impedindo que essa identidade se transforme num elemento aglutinador no campo político, que gere reivindicações coletivas por igualdade racial, posto que, ao contrário do que diz o imaginário social, pretos e pardos compõe um agrupamento que no ponto de vista dos indicadores sociais, apresentam condições de vida semelhantes e são igualmente inferiorizados quando comparados ao grupo branco.

Conceito construído com base em preconceitos

Magali Silva Soares Naves, da assessoria internacional da Fundação Palmares, fez a seguinte intervenção: "quero colocar um ponto provocativo, mas assumido por alguns historiadores modernos, que é o de que não existe conceito de raça. Esse conceito aparece para justificar a idade da formação da Europa com suas descobertas, a exploração e a escravidão do não europeu, do não branco, ou seja, é a consciência de si em relação ao outro. No momento das descobertas o branco que vinha para o Brasil era diferenciado do índio, se sentia superior. Por isso se diz que esse conceito apareceu no momento que a Europa surgiu como potência. Lembro porém, que se a raça não existe, existe o ser humano".
A ciência vem revelando a falácia do conceito de raça do ponto de vista biológico, continua Sueli Carneiro. Esta constatação científica tem sido utilizada para minar as reivindicações de políticas específicas para grupos discriminados com base na raça ou na cor da pele. Estas novas pesquisas aniquilam as bases do racismo do século XIX, que consagrou a superioridade racial dos brancos em relação a outros grupos humanos, justificando os privilégios.
Essas novas pesquisas, entretanto, ainda não influenciaram as diversas manifestações de racismo, em ascensão no mundo inteiro, e na persistente reprodução das desigualdades que elas geram. Isto reforça o caráter político do conceito de raça, a sua permanência e atualidade, a despeito de ser insustentável do ponto de vista biológico.
Quando aceitou o convite para participar do debate, Serguei Soares, diretor de Estudos e Políticas Sociais do IPEA viu-se a indagar: existe ou não existe raça? Isso é uma coisa real, ou não? Ligou para uma amiga que é bióloga molecular e geneticista, a quem perguntou: como é que a gente classificaria Nelson Mandela? A resposta foi: reino dos animais filocordata, sufilo vertebrado, classe mamiferus, ordem pungídeos, família homídeos, gênero Homos, espécie homo sapiens. Em seguida perguntou qual a classificação para Madona e a amiga repetiu: reino dos animais filocordata, sufilo vertebrado, classe mamiferus, ordem pungídeos, família homídeos, gênero homos, espécie homo sapiens. Conclusão, os biólogos não têm absolutamente nenhuma classificação que corresponda ao que se chama de raça. Eles têm inclusive classificações inferiores para outras espécies animais, mas não para o ser humano.
Pôs-se então a imaginar: isso acontece por que os biólogos são avançados, ou por que participam de uma ideologia anti-racismo? Na verdade, não! E rememora: no início do século XX, biólogos, psicólogos, antropólogos e sociólogos tentaram bravamente, com muitos instrumentos avançados para a época, estabelecer uma classificação das raças humanas e todas elas fracassaram.
Não satisfeito com o resultado da sua pesquisa imaginou que os descobrimentos da genética moderna talvez possibilitassem classificar raça. Ligou novamente para a amiga e perguntou: se eu der para você o DNA do Nelson Mandela e o DNA do Helmut Kohl, você pode me dizer quem é negro e quem é branco? "Absolutamente não, é impossível fazer isso, respondeu a amiga. O que poderia tentar era adivinhar uma população de pessoas dado alguns traços. Digamos que eu pegue o DNA de 100 pessoas que, como os nossos preconceitos, classificamos como negros, e de 100 pessoas que, conforme os nossos preconceitos, classificamos como brancos. Aí se pode ver a incidência de certos genes, como por exemplo, da anemia falciforme, que ataca mais negros do que brancos. Mas brancos também têm genes da anemia falciforme". É impossível para a biologia classificar raças.
"Raça é um conceito constituído socialmente, concluiu Serguei Soares. São características impostas pela cultura. Raça existe a partir de um conceito. Existe e é regido pelo preconceito, tem caráter difuso. O problema real é que raça ou cor é um conceito estigmatizado, que diferencia socialmente o indivíduo pelo fato de ser negro. O IBGE está no caminho certo, não tem como medir um conceito que é impreciso, confuso. Por isso tem que abrir espaço para analisar essa confusão. Acho que a diferença está na categoria eufêmica (moreno). Existem muitas maneiras de negar o racismo. Eu estou aqui para medir o mercado e essa é uma barreira quase intransponível. O MEC tem um senso educacional onde não pode colocar o quesito cor. Isso terá que mudar, é complicado, mas necessário. O que é esse conceito? Ele tem que ser medido na sua forma confusa, e por isso afirmo que é no IBGE onde a discussão está mais avançada, porque lá se trabalha com o olhar da equidade social".
Apesar dessas afirmações todas, Serguei acredita que raça existe, "é um conceito confuso, impreciso, regido pelo preconceito, mas ele é um conceito real, porque quando se pergunta às pessoas o que elas são como raça, e elas respondem alguma coisa, nós podemos analisar isso. Descobre-se que as pessoas que disseram que são pretas ou pardas ganham na média metade do que as pessoas que dizem que são brancas. E as pessoas que são pretas ou pardas têm na média dois anos de escolaridade a menos do que as pessoas que se dizem brancas. E as pessoas que respondem que são pretas ou pardas têm uma expectativa de vida menor do que as pessoas que são brancas; uma probabilidade de morrer até aos 5 anos, maior; têm uma morbidade maior e uma probabilidade de morrer por violência muito maior. Então, se é uma coisa que não existe, como é que aparece em tudo que é lugar? Pois é, existe.

Raça, conceito para proveito da elite

O historiador norte-americano, Anthony Mark, fez um estudo comparativo entre as relações raciais no Brasil, nos Estados Unidos e na África do Sul, no qual revela que o critério raça é a questão central da política no século XX, porque o uso que as elites fizeram e fazem da diferença racial foi sempre com o objetivo de provar a superioridade branca, e assim manter seus privilégios à custa da escravidão e exploração dos povos não brancos. Concluiu também que essa atitude sempre foi compartilhada pelos setores populares brancos interessados em se associar às elites. Historicamente esse comportamento foi comum às elites do Brasil, da África do Sul e dos Estados Unidos, que transformaram a raça num instrumento de produção de privilégios e de desigualdades, conta Sueli Carneiro.

Existem, porém, muitas outras distinções. A mais nefasta é a que se baseia na cor ou na raça, uma diferença particular, sublinhada muitas vezes, e de maneira excessiva, acaba por esconder a nossa humanidade comum. (olho em destaque)

"A forma como o Quesito Cor tem sido manipulado ao longo da nossa história tem postergado o aprofundamento do conhecimento sobre as desigualdades raciais no Brasil. Mas se raça é um conceito central na política desse século e tem sido historicamente usado para promover privilégios e exclusões, argumenta Sueli, o Quesito Cor deve, doravante, ser um elemento chave na produção da igualdade, subsidiando propostas de políticas públicas compensatórias para os grupos discriminados pela cor, ou pela raça em nossa sociedade.
O Quesito Cor, ou seja, a raça, deve ajudar também no posicionamento e fortalecimento de uma identidade racial - negada e fragmentada pelas variações cromáticas impostas pela ideologia do embranquecimento e consagrada nas classificações arbitrárias, para propiciar, quem sabe um dia, a construção de uma identidade negra, para a qual os miscigenados possam ser atraídos, convencidos de que sua cor não os deixa em desvantagem na sociedade. As desigualdades e oportunidades que a discriminação racial produz têm impacto sobre todas as dimensões dos grupos discriminados, e a quantificação e qualificação desse fenômeno é a primeira demonstração de vontade política que a sociedade pode dar para eliminação dessa discriminação e a promoção de maior equidade entre os grupos raciais em nossa sociedade".

Como a comunidade negra vê o Quesito Cor

Ney Luiz Silva, pesquisador e diretor de estatística da RI, reconhece que o descaso dos governos e da sociedade branca em relação ao Quesito Cor já é familiar aos pesquisadores. Assim resolveu estudar um pouco o que acontece na comunidade negra, verificar como essa comunidade está percebendo essa questão. Fez uma pesquisa rápida para medir o grau de aceitação da comunidade negra à inclusão do Quesito Cor nos estudos sociais, particularmente no censo e nos estudos de mercado e de opinião, objetivando também verificar a reação dos negros à aplicação dessa pergunta nos questionários.
Para tanto foram entrevistadas 100 pessoas da raça negra, de ambos os sexos, com idade acima de 15 anos, de todas as classes socioeconômicas. "Nós utilizamos uma equipe de entrevistadoras de raça negra - o que nos ajudou muito, inclusive a entender melhor a amostra -, incumbidas de identificar, selecionar e também classificar os entrevistados quanto a raça e cor, conta Ney. Para chegar a isso foi feito uma espécie de 'brainstorm' que nos permitiu unificar os critérios de classificação.
Vale esclarecer que uma amostra de 100 entrevistas não é exatamente uma amostra científica do ponto de vista do processo de seleção, mas nós procuramos obter uma boa diversidade em termos de classe socioeconômica, sexo, grau de instrução e de outras variáveis.
Obtivemos os seguintes resultados: 43% de homens e 57% de mulheres; 41% com idade abaixo de 30 anos e os demais acima de 30 anos; 42% de solteiro e 48% de casados. Em termos de grau de escolaridade encontramos 48% até o ginasial completo, 23% de ginasial, colegial incompleto, e 29% com colegial completo ou superior; 38% de donas de casa, 27% de chefes de família, 30% de filhas e filhos. A identificação chefes de família foi aplicada a homens e mulheres nessa condição. Todos os pesquisados tinham níveis socioeconômicos acima da média da população total de São Paulo.
O questionamento à primeira pergunta, após os dados de classificação: qual a sua cor?, surgiu das próprias entrevistadoras, durante a fase de instrução, que argumentaram que a pergunta correta não seria cor, mas raça. De qualquer forma foi aplicada assim. E essas são as respostas: 54% negra, 16% preta, 9% como parda, 8% morena, 3% negras ou pretas, havendo pessoas que se identificam das duas formas: mulata, mulata escura, jambo, moreno claro, com variáveis (às vezes amarelo, às vezes preto) e alguns que não sabem se auto definir.
Nas discussões com as entrevistadoras ficou estabelecido que identificariam a cor da pessoa como negro, mulato escuro, mulato claro, ou seja, três níveis de coloração, para cruzarmos essas informações. No resultado havia pessoas mais claras, 15%, se identificando como negro, e 3% dos mais escuros se identificando como moreno.
Foi colocado além disso, algumas questões em relação ao que eles acharam dessa pergunta - qual sua cor? - e se ela deveria ser incluída no censo, nos estudos de mercado e pesquisas eleitorais. À questão: o que você achou dessa pergunta que nós acabamos de fazer - qual sua cor? Obtivemos em 22% dos entrevistados uma reação positiva acima do normal; 43% consideraram a pergunta normal, neutra, uma pergunta como outra qualquer; 22% acharam um pouco acima do normal, positivamente, acharam que realmente é uma pergunta importante, e 35% reagiram negativamente.
No universo de reações dessas 100 pessoas, 32% reagiram positivamente, afirmando que têm que se assumir, ser consciente. Ressaltaram que é importante que se faça essa pergunta para que respondam que são negros; que é bom ter dados estatísticos sobre a população negra. Tenho orgulho de dizer que sou negra, 14%; é bom para ver que a gente não tem vergonha da cor, 14%. 'É interessante porque eu também quero saber a minha cor' de uma entrevistada que não sabia qual a cor dela, Achou uma pergunta interessante para ela mesma se fazer.
Entre aqueles que tiveram reações negativas, 46% consideraram que é uma pergunta racista, preconceituosa; 17% disseram que é esquisito, que é estranho, não tem nada a ver, uma pergunta que não se deve fazer; 11% que é constrangedor, inconveniente; 11% disseram que já está vendo a cor, não precisa perguntar, não há razão para fazer a pergunta; 6% disseram que não se deve perguntar a cor, que é uma coisa que não se deve fazer; 6% responderam 'não achei legal, não gostei', e 3% disseram que é ofensivo perguntar a cor.
Aqui também se verificou as diferenças entre idade, sexo e classes sociais. Há poucas diferenças, principalmente quando se considera apenas a classe socioeconômica quanto à atitude positiva e negativa com relação à pergunta. Quando se explora a faixa etária se percebe uma tendência a que os jovens sejam mais receptivos ao quesito do que os mais velhos. Quanto ao nível de escolaridade observa-se que as pessoas de nível mais alto tendem a ter uma reação mais positiva. E quanto à cor, aqueles de pele mais clara tendem a ter uma reação mais positiva à pergunta do que os de pele mais escura.

Foi a partir dessa pesquisa do IBGE que se percebeu que os dados que diziam que éramos mais pessoas, poderiam, por outro lado, criar uma realidade, e servir também para mostrar a realidade desigual e a situação diferenciada entre pretos e pardos na sociedade brasileira. (olho)

A receptividade à inclusão do Quesito Cor recebeu 48% de respostas positivas e 47% de negatividade, quando o objeto da pesquisa é censo demográfico; 5% não tinham opinião. Quando a pergunta foi colocada para a pesquisa de mercado (produtos) 52% dos entrevistados acham que a pergunta sobre a cor da pele da pessoa não deve ser incluída, enquanto 39% são favoráveis. A aceitação aqui é justificada por saberem que alguns produtos têm que ser diferentes para negros, tais como cosméticos, meia de mulher etc., enquanto os que são desfavoráveis dizem em geral que o consumo do negro é igual ao do branco e não há razão para se especificar e saber quem é negro e quem é branco. Quando a indagação se refere à inclusão em pesquisa eleitoral, 77% dos entrevistados acham que o quesito não deve ser incluído na pesquisa, com apenas 18% de adesões. Esse item teve uma variação: 81% de negação das mulheres e 72% dos homens. "Esses dizem que não interessa a cor porque a capacidade de votar é igual", concluiu o diretor da RI.

Sem discussões sobre Quesito Cor

Aproveitando a exposição dessa pesquisa, onde aparentemente a questão de produtos voltados ao consumidor negro é uma questão importante, Rachel Moreno passou a palavra para Rafael Sampaio, vice-presidente executivo da Associação Brasileira dos Anunciantes, para que colocasse o quanto e como e essas questões se refletem em termos de produto e propaganda.
"Em nome da ABA eu queria dizer algumas coisas, explicou-se Rafael Sampaio. Primeiro que o escopo da discussão é muito interessante, muito válido, mas não é o objetivo da ABA, não faz parte dos nossos estatutos discussões de caráter sociológico, macro econômico e político. Esse tema foge ao escopo de questões sobre as quais a ABA pode se pronunciar. Consequentemente nós não podemos discutir. A nossa visão é puramente mercadológica, operacional, então não temos muito a contribuir.
No caso específico do IBGE a posição é, como as pesquisas são muito mais abrangentes que as mercadológicas, nós consideramos absolutamente correto o que elas consideram como cor, raça, assim como a denominação que os especialistas consideram mais adequadas. E também não entramos no mérito dessa discussão.
Nesse momento não nos parece que a forma como é feita hoje seja a mais conveniente. Julgamos que essa discussão deve ser feita, mas não é uma discussão na qual a ABA irá se envolver, porque nós acreditamos que existem entidades mais qualificadas para essa discussão. Como está fora do nosso acordo também não vamos dar opinião.
Especificamente quanto à pesquisa de mercado, quando se trata de uma pesquisa em particular, consideramos que a discussão sobre o Quesito Cor é relevante, se o objetivo mercadológico do cliente incluir decisão de compra, de uso, de marca etc.. Nesse caso a questão deve ser usada, porque faz parte do processo, mas do ponto de vista do critério que é puramente econômico, nós não consideramos adequado, ela não discrimina, ela é combinada com outros fatores, e como nós eliminamos uma série de fatores exatamente para simplificar, nós não vemos como essa pergunta possa ser relevante para o critério".
Finalizando sua manifestação, Rafael Sampaio afirmou que entende a pesquisa de mercado como um filtro, parte de um processo realizado dentro de determinados critérios e que não discrimina renda de per si. Acredita que a partir das decisões que venham a ser tomadas pelo IBGE, esse dado pode definir padrões, cor, raça de uma maneira mais precisa, incluindo todos, sejam brancos, negros, amarelos, índios. Acha também que o IBGE é a instituição que deve gerar a pesquisa a partir da qual pesquisadores e anunciantes trabalharão.

Racismo: uma doença social

Representando a dra. Dulce Maria Pereira, presidente da Fundação Cultural Palmares (instituição ligada ao Ministério da Educação e Cultura) e secretária executiva da CPLP - Comunidade dos Países da Língua Portuguesa, que não compareceu ao debate devido a problemas de saúde, esteve Magali Silva Santos Naves, da assessoria internacional da Fundação Cultural Palmares, que assim iniciou a sua fala:
"Ninguém é mais ou menos ser humano do que qualquer outro, nós somos essencialmente iguais. Iguais, mas não idênticos. É isso que leva alguns a traçar linhas de demarcação no mapa do gênero humano. A discriminação começa quando essas linhas não se contentam em separar grupos, mas levam a pensar que um certo grupo vale mais ou menos que outro por razões de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opções políticas, de origem nacional ou social.
A distinção mais corrente é muitas vezes a que se estabelece em função do sexo, uma vez que isso coincide com uma diferença biológica inerente à espécie humana. Alguns não ultrapassam essa diferença. O fato de sermos diferentes em certos aspectos não nos torna diferentes em todos os aspectos. A circunstância de termos corpos diferentes, não significa que as nossas vidas devam ser necessariamente diferentes.
Existem, porém, muitas outras distinções. A mais nefasta é a que se baseia na cor ou na raça, uma diferença particular sublinhada muitas vezes e de maneira excessiva, acaba por esconder a nossa humanidade comum. Aí surge o racismo, uma doença que deve ser curada. Ser racista é acreditar que as características particulares, geralmente físicas de certos grupos dos dois sexos, os tornam superiores ou inferiores aos outros. O comportamento racista torna-se patente quando o tratamento que se dá às pessoas depende da sua raça ou da cor da sua pele, e latente, quando se reflete na maneira como a sociedade trata sistematicamente os grupos em função de critérios discriminatórios.
Mas voltando ao racismo como doença, digo que ela se manifesta pela negação do racismo, continua Magali Naves. Justifica-se que a discussão sobre o racismo só vai levar ao antagonismo entre as raças, estimular o conflito racial, que o caminho mais correto seria o de resolver o problema da população como um todo, e que cada um ache seu espaço. Eu acho isso praticamente impossível porque não pode achar espaço quem se nega como um povo, e se nega a esse povo o direito de se reconhecer, de se aceitar e de se desenvolver.
Não dá mais para adiar esse debate. A população brasileira deve se reconhecer como população brasileira, pois os modelos e percepção de quem nós somos não é o nosso verdadeiro ser brasileiro, que é ter negros e mestiços. Para alcançar isso nós precisamos conhecer a nossa verdadeira história, que não é a que se aprende na escola. Na nossa história existem negros que lutaram pelo país e não se fala nisso. Então esse processo passa pela educação.
Considero o Quesito Cor é essencial. Pode parecer contraditório ao que eu disse sobre o racismo como doença, mas para curá-la nós temos que investigar e conhecê-la. Para aplicarmos políticas coerentes com a nossa realidade social, econômica e cultural precisamos de dados. O nosso desenvolvimento como país passa pelo conhecimento de nós mesmos. Existem mais loiros na TV brasileira do que na TV francesa. Nós devemos implementar políticas públicas voltadas para o pleno desenvolvimento do potencial humano ao qual todos nós temos direito. O que nós temos que fazer é agir, porque o racismo muda, ele vai mudando conforme o tempo, e tem sempre novas formas de atuação. E por não ser explícito aqui no Brasil, é moreninho, é pardo, se torna mais difícil de ser identificado, e é mais difícil trabalhar com esses dados, visto a quantidade de cores que tem nesse país.
A própria percepção do corpo vai mudando, o empregador por exemplo, não tem a mesma imagem quando se trata de uma professora, do operário, da empregada doméstica, criam-se estereótipos e quando se pensa na empregada doméstica pensa-se como passa na televisão. O corpo é um produto, uma mensagem publicitária servindo a uma certa empresa - o movimento negro reclamou que o negro só fazia papel de empregada e já colocaram brancos, mas não é a nossa realidade. A nossa realidade, o sonho dos brasileiros é ser loiro de olho azul ou moreno de olhos verdes", concluiu Magali Naves.


O IBGE em ação
desenvolvendo metodologia e identificando categorias


Destacando que o debate sobre o Quesito Cor, com a participação das áreas de propaganda e marketing é uma coisa nova, recente e que deve ser mantida, Moema De Poli Teixeira, pesquisadora do Departamento de População e Indicadores Sociais do IBGE(Instituto Brasileira de Geografia e Estatística) e da PENESB (Universidade Federal Fluminense), trouxe para o debate uma contribuição interessante, informativa, que destaca a história de como o Quesito Cor ou raça tem sido pesquisado pelo IBGE.
"Tradicionalmente é um quesito que começa com os censos demográficos - conta Moema Teixeira. Os censos de população são as primeiras pesquisas que contém essa informação. O primeiro, feito em 1872, perguntava à população, livre e escrava, a sua cor, sendo que a população livre classificava a si mesma e aos seus escravos. As categorias que eram usadas na época para a população livre eram branco, pardo, preto ou caboclo. Já a população escrava era definida como pardos ou pretos. (Rachel, por favor, observe a contradição entre essa informação e a que vem a seguir onde ela diz que o pardo surgiu no censo de 1940)
No censo de 1890, já depois da abolição, os quesitos eram brancos, pretos, caboclos e mestiços. Depois, só se volta a pesquisar o Quesito Cor no censo de 1940, no qual a população foi classificada de preta, branca, amarela ou um traço, caso não se classificasse nessas três categorias. Mais tarde, na tabulação, todo mundo que escreveu qualquer outra coisa, ou seja, que não escreveu amarelo, branco ou preto, ou optou por colocar um traço era juntada na categoria parda. Eu acho que é esse o momento em que aparece essa categoria, e a posteriori, ela surge da agregação de todas as demais categorias de quem colocou o traço no quesito.
O censo de 1950 repete igualzinho o censo de 1940. Já o censo de 1960 traz uma novidade, que é a pré codificação. As categorias vêm fechadas e o pesquisador marcava o x no quadradinho. As categorias usadas foram branca, preta, amarela, parda e índia. Aí a cor parda já aparece no questionário. Aconteceu que na publicação do censo de 1950, a população indígena foi reunida na população parda, e saiu todo mundo como pardo, embora no questionário houvesse a quadrícula indígena.

Essas pesquisas se prestam ao engendramento e crescimento da democracia racial. Embora não sejam perfeitas, de certa maneira medem uma coisa que é identidade, e identidade não é uma algo pronto e acabado. Existem estudos que mostram que ao longo dos censos demográficos as pessoas mudam sua resposta. (olho)

É do conhecimento de todos que o censo de 1970 não incluiu o Quesito Cor. A explicação da época foi que as categorias precisavam ser melhor estudadas, dada a efervescência dos movimentos negros, da insatisfação com essas categorias, a forma como estava sendo pesquisada. 'Para não cometer mais erros' foi a justificativa oficial. Decidiu-se não perguntar e fazer uma pesquisa específica sobre esse tema, que é a Pesquisa Nacional para a Amostra de Domicílios. Assim foi feita a PNAD em 1976. A idéia era que essa PNAD fosse tão bem feita que trouxesse subsídios para o censo de 1980, com mais convicção do que realmente perguntar e como perguntar.
Foi em 1976 que se decidiu fazer essa pergunta duas vezes, porque o objetivo era testar categorias, saber quais são as categorias que as pessoas usam para se definir. Então, primeiro se fazia uma pergunta aberta, para que não houvesse indução de resposta: qual é a sua cor? Tinha um espaço aberto onde a pessoa dizia a cor que bem entendia. E o entrevistador foi bastante preparado para não questionar a resposta. Ele era instruído a escrever o que quer que fosse respondido. Após fazer esse registro ele perguntava, dentre essas categorias que o IBGE pesquisa qual questão que melhor define a sua cor? E a pessoa escolhia dentre aquelas categorias testadas: branco, preto, pardo e amarelo.
A PNAD tem uma amostra nacional e apesar de ser uma pesquisa de mão-de-obra é uma pesquisa muito grande e ainda permitiria que se cruzassem as informações com os dados de mão-de-obra. O que essa PNAD revelou? Apareceram como resposta aberta 136 denominações diferentes, muitas categorias. As pessoas costumam fazer piada dessa pesquisa, mas ela foi muito importante, pois serviu de base para tudo o que se fez depois. A análise da pesquisa demonstrou, entretanto, que 95% das respostas estavam nas categorias tradicionais que o IBGE classificara: branca - 41%; preta - 7,6%; amarela - 0,9%; parda - 7,6%; e aí clara, morena clara e morena - quase 40% das respostas.
Essa foi uma das novidades da pesquisa. Aí é a primeira vez que aparece essa categoria - morena - em contraposição ao pardo. Apesar disso, 7% ainda se diz pardo; mas quando cruzada com a pergunta fechada, a maioria falou moreno, moreno claro, moreno escuro. Isso, para o IBGE, significou que as categorias que estavam sendo pesquisadas, se inventadas ou não em algum momento da história, faziam sentido, e isso justificou por que o censo de 1980 só colocou branco, preto, pardo e moreno.
O censo de 1976 foi o marco para testar categorias. Foi ai que houve a reviravolta nas formas de análises, permitindo que se exibisse uma realidade desigual, e igualmente o potencial de estudos para buscar a visibilidade dessa democracia racial. A partir daí percebeu-se que os dados que diziam que éramos mais pessoas, poderiam, por outro lado, criar uma realidade, e servir também para mostrar a realidade desigual e a situação diferenciada entre pretos e pardos na sociedade brasileira. Essas pesquisas estatísticas, embora com problemas, criticáveis e imperfeitas, mostram o potencial de estudos e uma nova forma de análise. Essas pesquisas se prestam ao engendramento e crescimento da democracia racial. São fundamentais, embora não sejam perfeitas. Existem ainda, estudos que mostram que ao longo dos censos demográficos as pessoas mudam sua resposta, expõe Moema Teixeira.

Qual a cor? É ou não afro-descendente? O que serve?

Em 1991 o IBGE continuou a pesquisar com as categorias branco, preto e pardo e incluiu o indígena como categoria separada.
Na preparação para o censo 2000 realizou uma grande consulta através de seminários para os quais a sociedade organizada, estudiosos e todas as áreas a quem os dados do censo interessavam foram convidadas. Novamente surgiu a demanda por novidades: que se perguntasse ao invés de pardo, se é ou não é afro- descendente.
O censo 2000 teve dois pré-testes e num deles essa proposta foi incorporada. O que aconteceu? Não se pode esquecer que essas pesquisas são nacionais e às vezes existe a tendência de se achar que uma determinada forma será compreendida por todo mundo. Quem faz pesquisa sabe que tem que balizar isso. O que aconteceu foi que as pessoas não entendiam a pergunta. Mas a idéia estava lançada e internamente, os técnicos do IBGE, junto com as pessoas que fizeram essa demanda, analisaram com muito interesse a idéia de se pesquisar origem. Então a novidade foi que, ao invés de pesquisar apenas cor ou raça, pesquisar também a origem, perguntar a origem para quem se diz pardo, para se saber que origem tem o pardo, explica a pesquisadora.
Esse tipo de indagação parecia interessante para todos, porque afinal de contas o Brasil se diz mais de 50% branco. Que brancos são esses? Que origem eles têm? Então abriu-se um espaço para que fosse feito um questionário acoplado a uma outra pesquisa do IBGE que não tinha o Quesito Cor, que é a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), em julho de 1998 com a seguinte idéia: fazer quatro perguntas, sendo duas referentes a cor ou raça e duas referentes à origem, uma aberta e outra fechada, para ver se as coisas mudaram e em que sentido mudaram. Apareceram 143 designações como resposta à pergunta sobre a cor ou raça. Os resultados dessa pesquisa deverão chegar ao público neste ano de 2001.
Moema Teixeira esclarece que a PME é uma pesquisa diferente da PNAD, pois é feita em seis regiões metropolitanas, é mensal e não tem o tamanho de uma PNAD que é anual. A PME é para medir emprego, desemprego e é realizada em seis regiões metropolitanas: Salvador, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte e São Paulo.

Antecipando resultados

Analisando essas 143 denominações no Brasil inteiro teve-se um
resultado um pouco parecido com o acontecido em 1976, lembra Moema Teixeira. Novamente a maioria dessas categorias aparecia uma vez só, e como naquele ano, onde 95% das respostas estavam em algumas categorias, em 1998, 97% das respostas se encontravam em 7 categorias assim distribuídas: branco - 54%; moreno - 21%; pardos - 10%; preto - 4%; negro - 3% (uma categoria que não apareceu em 1976); morena clara - 2,9%; e amarelo - 1,1%.
Quanto ao quesito origem, o que aconteceu pela forma como ele foi realizado, com respostas fechadas foi: origem brasileira, 75% das pessoas; 5% - italiano; 4,6% - português; 2,1% - alemão; 2,2% - indígena; 1,5% - negra (a pesquisa incluiu negra para representar que é afro-descendente, mas não foi bem compreendido); africana deu 1%. Juntando africana com negro deu 2,5%; japonesa, 1% e os demais menos de 1%.
As análises do Quesito Cor pareceram mais interessantes, por ser um quesito que já vem sendo pesquisado. O objetivo era ver de que maneira propor uma mudança, ou não, para o censo 2000. O que se percebeu foi que devido a pesquisa ser realizada nas regiões metropolitanas, os resultados eram muito interessantes para mostrar como varia o pensamento e a identidade das pessoas a nível regional. Isso é importante para se construir uma pesquisa que tem que ser válida nacionalmente. As variedades regionais interessam para o pesquisador dimensionar as alterações que vai propor e ver se aquilo representará o que se quer que represente para todo o país.
É importante verificar-se alguns exemplos país afora. Colocada a pergunta sobre cor em Recife, 24% se diz moreno, quando responde branco na resposta fechada do IBGE; no Rio de Janeiro só 4% desses brancos dizem morenos e 95% se diz branco mesmo. Quem responde preto no quesito fechado em Recife são 67% que se dizem morenos. Em Salvador, na categoria preto, 44% se dizem pretos mesmo, e 33,9% se dizem na categoria negro. Isso quer dizer que em Recife 67% de pretos está dizendo que é moreno, e em Salvador quem está dizendo preto, se divide entre as categorias: preto, 44%, e negro 44,9%. No Rio de Janeiro, é um pouco parecido, embora a maioria se diga preto, dos que são pretos no quesito fechado quase 60% fala que é preto e outros 24% fala negro. Em São Paulo também há divisão, 40% falam preto, e 42% negro.
Voltando aos resultados encontrados em Recife, temos: 92% de pardo fala que é moreno. Eles adoram o termo moreno, que é uma categoria muito significativa no Recife. Na região metropolitana de Salvador, os pardos ficam divididos, 46% dizem que são morenos e 46% que são pardos. No Rio de Janeiro, 38% afirmam-se morenos, e 52% pardos. Chegando em São Paulo, 64% dos pardos dizem que são morenos e 32% pardos.
Quando se dirige o foco da pesquisa para a região metropolitana descobre-se um peso que precisa ser avaliado, estudado. Precisamos refletir mais sobre isso, para fazermos a pesquisa a nível nacional, pondera Moema Teixeira, ao expor os dados da pesquisa com resposta aberta. Em Recife 32% se diz branco, e 60% moreno. Em Salvador, 31% moreno e 26% pardo, 19% branco, 7% negro, e 9% preto. Quer dizer, mesmo em Salvador as pessoas se dizem mais preto do que negro. No Rio de Janeiro você tem 56% que se diz branco, 15% moreno, 16% pardo, e 6,5% preto, 4% negro, espontaneamente. Em São Paulo 61% se diz branco, 20% moreno, 2,9% negro, 8,6% pardo, e 2,7% preto.
Essa foi a última pesquisa realizada pelo IBGE para testar categorias, informa Moema. "Entendo que ela traz coisas boas para se pensar, mas devido a essa complexidade ao nível regional não foi possível aplicar novidades ao censo 2000, que de novo repete as mesmas categorias dos censos anteriores. Parece que essa preferência de trocar o pardo por moreno complica mais do que ajuda. Substituir por qual categoria é um grande desafio que só mostra que devemos continuar estudando, pesquisando e lutando para desvendar. E o IBGE tem, em todos os seus trabalhos, procurado caminhar nessa linha de mostrar que esses dados têm um uso importante no desvendamento das desigualdades no Brasil".
Finalizando sua exposição a pesquisadora do IBGE informa que a partir deste ano
o Quesito Cor, ou raça, deve constar da Pesquisa de Orçamentos Familiares - POFs, que esse instituto realiza. O que fará com que o IBGE tenha os censos, as PNADs e, talvez as POFs, para continuar fazendo estudos de interesse dos pesquisadores.


A favor e contra a adoção do Quesito Cor

Por defender a inclusão desse quesito nas pesquisas comerciais regulares, mesmo que o produto seja um inseticida e não apenas para produtos tão óbvios como cosméticos para cabelo, Pergentino Mendes de Almeida, da Abipeme, afirma que todos têm a missão de enfrentar o preconceito que assusta tanto. "O que demonstramos hoje é o medo de achar esse dado. Acho que seria interessante fazer-se uma recomendação para que a pesquisa de mercado coloque o quesito em seus questionários"
Enxergando no racismo um veneno, uma mancha que persiste como resultado do que foi a escravidão, escamoteado pela realidade brasileira que leva a população negra a ser ignorada, Pergentino identifica nesse fato uma arrogância da elite, que não vê a libertação dos negros como a sua própria libertação; mas confessa que ainda tem uma esperança, pois acredita que todos são vítimas do preconceito. Defende que haja uma afirmação da identidade do negro na sociedade para que a sua ascensão se faça presente no consumo, mas crê que a luta por esse esclarecimento cabe a todos os indivíduos indiscriminadamente.
"Há 20 ou 30 anos - relembra Pergentino - o mercado só se dirige às classes A e B. A indústria se concentra nas necessidades desse nicho, mas hoje estamos precisamos descobrir a população como um todo. É preciso evidenciar a existência desse mercado. Todas as vezes que os institutos de pesquisas fazem um painel de consumidor para quantificar mercado é importante incluir o critério cor".
Contrária a essa posição, Susana Almeida, coordenadora de campo da RI, conta sua própria experiência para se justificar: "já fiz projetos onde se precisou saber a cor da pele do pesquisado. Definimos que usaríamos um cartão circular para que o próprio entrevistado apontasse a sua cor, mesmo assim passamos por constrangimentos. No papel de entrevistadora, de quem está na ponta, sou contra a inclusão do Quesito Cor. Há um preconceito latente e o pesquisador é que passa pelo constrangimento porque o entrevistado sempre encara a pergunta como preconceito. O que entendo é que alguns têm mesmo mais melanina na pele que outros. Ficar perguntando sobre a cor é o mesmo que classificar quem é mais gordo ou magro".
Mesmo tendo essa posição, Susana reconhece a existência de situações em que a adoção do quesito é uma necessidade da pesquisa de mercado, e assim sugere a busca de métodos, pois não sente confiança em nenhum dos que são conhecidos até agora porque acredita que o "critério observado pelo pesquisador é subjetivo".
Defendendo a inclusão do quesito, Joel Zito Araújo, do Núcleo de Pesquisa de Telenovela da ECA-USP, autor do livro "A Negação do Brasil - O Negro na Telenovela Brasileira", recorda que as diferenças de raça já foram de interesse dos brancos no início do século XIX. "Afirmar a raça, hoje, interessa ao negro. Eis porque o discurso incomoda. A complexidade está na segregação política e cultural. Hoje, 110 anos depois, está sendo questionado o mito da democracia racial. A miscigenação é uma imposição social contra a segregação existente e a ideologia do branqueamento em nome da unidade nacional", interpreta, reconhecendo, porém, que "há dificuldade do descendente afro de aceitar a sua própria cor, já que não tem visibilidade, e o exemplo maior é a publicidade, que devido ao seu compromisso com o lucro mostra a sociedade brasileira como se fosse branca e loira. O branqueamento é uma grande tragédia para nós, pois patenteia o peso político ideológico da sociedade sobre os afro-descendentes", completa.
Recordando Florestan Fernandes, que disse que o "brasileiro tem preconceito de não ter preconceito", Júlio César Gibrail Tannus, ex-presidente da SBPM, declarou ter grandes expectativas sobre as possibilidade da pesquisa de mercado adotar o quesito cor ou raça, como um reencontro das identidades regionais e nacional.
A sustentar sua crença, os estudos do IBGE desde 1980, embora uma das coisas que ainda exija definição seja a metodologia de tratamento da questão. "Todos as pessoas são influenciadas pela ideologia e pelas relações sociais. Não podemos voltar ao século XIX. Há implicações sérias, de caráter quantitativo e qualitativo a se considerar, mas já se caminhou muito, e o que se pode dizer ainda é que essa questão sempre terá viéses, não existe objetividade possível", complementa.
Complementando, Ney Luiz Silva, da RI, lembra que a questão do marketing é ganhar dinheiro mesmo, mas acredita que a falta de hábito de colocar esse quesito deve-se ao fato do mercado não estar atento à questão. "Sempre houve preconceito, referenda, mas considero fundamental que se coloque o quesito".

Uni Lever: de bem com o consumidor negro

Só há cerca de uma década a indústria brasileira descobriu o consumidor não branco. Inicialmente, empresas de pequeno porte, cujos produtos não satisfaziam à exigência dos consumidores de maior poder aquisitivo, que recorriam aos importados, principalmente cosméticos. Segundo o DataFolha, dos 15 milhões de brasileiros de classe média, 6,5 milhões são negros.
Ainda são poucos os produtos que exibem modelos negros em sua publicidade. Um desses exemplos é a Gessy Lever, braço da multinacional anglo-holandesa Unilever, recém denominada Unilever Brasil. No país desde 1929, líder de mercado em produtos de limpeza doméstica, higiene pessoal e beleza e uma das primeiras no ranking de anunciantes, exibe modelos negros em sua propaganda de produtos específicos para esse consumidor.
"A razão que nos levou a incluir o modelos negros na publicidade deve-se a que a publicidade é um composto do mix de produtos da empresa, que é desenvolvido em função das necessidades dos consumidores. O comercial é apenas a maneira de se comunicar com esse segmento. O mercado brasileiro tem uma grande parcela da população com essa característica, uma faixa expressiva de consumidores de cor negra", explica Dulce Perdigão, líder de pesquisa regional para a América Latina e também responsável pela área de pesquisa de mercado da Unilever Brasil.
Foi a partir de pesquisas básicas de mercado, onde se insere a pesquisa de hábitos e atitudes de determinada categoria de produtos que a Unilever Brasil identificou a necessidade do produto específico. "Normalmente são grandes amostras nacionais e nelas nós identificamos que em determinadas áreas do país existe a incidência de tipos diferenciados de consumidores, nos quais se incluem os consumidores de pele negra. No Nordeste, por exemplo, há populações com características diferentes daquelas que tem o sul do país, e mesmo dentro de São Paulo, há concentrações expressivas de consumidores de pele negra. Essa população tem necessidades diferentes daquelas que têm os consumidores de pele branca. Por isso os nossos produtos, principalmente os de higiene e beleza, são direcionados para as necessidades que os consumidores relatam", conta Dulce Perdigão.
Atualmente a indústria de cosméticos reconhece que os negros têm um tipo de cabelo diferente daqueles que têm um branco ou um japonês, e até tipos de cabelo seco, oleoso, ou liso. Detectou que a pele e o cabelo de pessoas negras, não aceitavam bem o mesmo produto direcionado para a população em geral e começou a desenvolver produtos específicos para esse segmento, desde sabonetes a cremes para a pele e xampus. "Esse é um nicho de mercado importante, e uma empresa que desenvolve produtos para ele, deve apresentá-los comercialmente com embalagens que identificam esses benefícios", diz a líder da Unilever. "Toda a comunicação, que é a maneira de fazer isso ser mais amplamente conhecido, tem que ser baseada no mesmo conceito, por isso escolhemos modelos que correspondam à classe de consumidores", completa.
A Unilever , que também atua no setor de alimentos, tem mais de 170 marcas no mercado, entre as quais o sabonete Dove, a linha de xampus Seda (na qual se inclui o Seda Hidraloe para cabelos cacheados) e os sabões em pó Omo e Brilhante.
A Cervejaria Kaiser, que se apresenta como uma empresa pronta para o Séc. XXI, persegue uma intimidade cada vez maior com o consumidor. Como exemplo a recente campanha da Kaiser Summer Draft, dirigida ao público jovem e praticante de esportes radicais, onde os modelos negros marcam presença. "Nosso objetivo é criar canais de comunicação cada vez mais próximos da realidade do nosso consumidor. Por isso não podemos ignorar a diversidade que existe na sociedade", disse Miriam Ramalho, gerente....

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