Onde
Estamos e Para Onde Vamos
Embarcando na onda de reflexão que bate naturalmente
no final do ano - ainda mais em uma virada como esta que nos
levará a um novo milênio! - a SBPM resolveu fazer
um balanço da situação da pesquisa de mercado
no Brasil. A intenção era tocar em alguns pontos
centrais, e, retomando rumos tomados no passado, discutir bases
existentes para o futuro.
Quais as perspectivas que podemos desenhar para a atividade
no país? O que já construímos até
aqui? Questões como estas nortearam a mesa redonda que
ocorreu, no último dia 10 de novembro, em clima de bate
papo, entre três debatedores: Júlio César
Tannus (SBPM), Nelson Marangoni (ANEP) e Pergentino M. Almeida
(ABIPEME), mediados por Célia Belém.
Mudanças
Ao contrário de uma atitude saudosista, lembrar o passado
foi, neste caso, uma chamada de atenção para "a
importância de retomar símbolos do passado que,
muitas vezes, antecipam a concretude do presente", como
definiu Júlio Tannus logo no início. E foi pensando
nesta história da pesquisa no nosso país, que
Nelson Marangoni inaugurou sua fala enfatizando o crescimento,
a valorização e as incríveis mudanças
ocorridas na atividade. Se olhamos para trás, é
surpreendente pensar que, há apenas 20 anos, havia apenas
cerca de 50 agências de pesquisa. Hoje, temos mais de
400. Um mercado que, em 1987 movimentava por volta de 50 milhões
de dólares e que até 1998 havia quintuplicado
para 250 milhões. Ele lembrou ainda que, nesta última
década, as mudanças são muito, e cada vez,
mais rápidas.
As mudanças a que se refere diriam respeito ao mercado
de modo geral, isto é, tanto do lado do cliente como
do lado do pesquisador. Haveria uma permanente mudança
na área, uma evolução que vem caminhando
para um maior prestígio, uma melhor utilização
da pesquisa e ampliação dos seus campos de atuação.
Na opinião de Pergentino, este quadro é bastante
realista e o que importa nele é discutir como se processam
estas mudanças para que seja possível visualizar
as perspectivas brasileiras.
Especialização
Para Pergentino, o desenvolvimento da pesquisa não acontece
isoladamente, é parte de um processo maior que envolve
as empresas, o marketing e todo o mercado. Por exemplo, em relação
à tendência à especialização,
acredita que "à medida que vai crescendo a escala
de operação em marketing, você vai tendo
especialistas, pessoas que sabe fazer cada vez melhor determinadas
tarefas".
Já conforme Marangoni a tendência do pesquisador
em geral em ser um especialista, ligado ao lado acadêmico
e com dificuldade de encarar a pesquisa como uma atividade econômica,
seria algo de origem, vindo da universidade, da relação
com a ciência. "O pesquisador hoje quer um preciosismo
muito grande nos números, é tão técnico
que não faz mais sentido", disse ele, respondendo
a Pergentino para quem isto já seria coisa do passado.
Segundo este último, o exagero técnico seria conseqüência
da especialização profissional, processo que envolveu
todas as empresas e que forçou o pesquisador a ter de
provar seu valor e sua importância. Argumentou que "esse
homem tendeu a se valorizar, empregando uma linguagem cada vez
mais hermética para demonstrar que dispõe de conhecimento".
Um dos pontos centrais do debate foi este: a postura do pesquisador,
seu papel e sua função no mercado de hoje. Mercado
que, ao mesmo tempo em que precisa de especialistas, demanda
profissionais que tenham atuação e visão
mais globais. O pesquisador não está acostumado
a opinar nas soluções. Ele é contratado
para descobrir uma situação, identificar um problema
e, daí para frente, não é mais com ele.
Isto foi consenso entre os debatedores, que chegaram à
conclusão de que, nos dias atuais, é necessária
uma nova tomada de posição no sentido de ampliar
seu leque de ofertas para o mercado.
Se almejar de fato uma maior valorização profissional,
o pesquisador não pode continuar a se limitar à
técnica e ficar alheio ao planejamento estratégico.
Por exemplo, aquele que trabalha nos departamentos de pesquisa
das empresas, como frisou Júlio Tannus, irá concorrer
com profissionais de outras áreas que tiveram uma formação
em planejamento estratégico, portanto, "ele precisa
ter uma visão de marketing mais ampla, uma formação
que vá além do instrumental de pesquisa".
A ampliação das habilidades é, de acordo
com Marangoni, um desafio para o futuro. Ele observou que o
pesquisador tradicional está ligado apenas à fonte
primária, o que acaba limitando o trabalho. Tendo em
vista que cresceram muitas outras fontes, integrar as informações
é tarefa cada vez mais urgente. Entretanto, alertou "não
estamos preparados ainda para fazer este cruzamento de informações".
Uma das constatações foi a de que os clientes
esperam isto dos profissionais de pesquisa, uma atuação
mais ativa, mais próxima daquela de um consultor, por
exemplo. Seus anseios são, na verdade, os resultados,
a resolução do seus problemas. E, algo positivo,
consideram os pesquisadores capazes de ajudá-los a encontrar
as soluções.
Criatividade e Ousadia
Decorrência do apego ao lado técnico, o pesquisador
não tateia no escuro, não utiliza o seu "feelling",
como fariam os consultores. Ficar preso ao dado, à comprovação
técnica e objetiva talvez limite a criação
e a busca de soluções, portanto, "nós
temos de ser mais ousados, devemos arriscar mais", colocou
Marangoni.
"Pesquisar não é só descobrir, pesquisar
é criar", assim Júlio Tannus justificou sua
afirmativa de que, embora os avanços tecnológicos
possam ser de grande ajuda à atividade, o pesquisador
não pode se entregar totalmente à tecnologia e
ao ritmo frenético imposto por esta era.
A sensibilidade humana, responsável por dar origem ao
novo, precisa de tempo para funcionar, tempo que é mais
e mais atropelado pela "parafernália eletrônica".
Para que a criação seja possível, é
preciso elaboração, um período mínimo
de gestação. Na opinião de Tannus, este
é um diferencial do pesquisador que deve ser preservado,
ele não pode abandonar sua capacidade criadora.
Ser mais ousado, assumir riscos: a pesquisa da inovação
dependerá, de acordo com Marangoni, desta nova atitude.
Hoje, a pesquisa que é feita apenas reduz os riscos,
não os elimina. A pesquisa do futuro teria como grande
desafio a criação e a descoberta de novas possibilidades
de mercado, ou seja: o ganho da capacidade de antecipar.
Valorização
Dentro deste contexto, discutiu-se bastante a valorização
do profissional de pesquisa. A afirmação de Marangoni
"o próprio profissional não se auto-valoriza"
foi partilhada por todos. Ele e Tannus concordaram que seria
falsa a idéia de que é o profissional de marketing
que não valoriza o pesquisador. "A gente precisa
se convencer de que nós somos homens de marketing",
falou Tannus.
Uma das situações lembradas por Marangoni que
favorecem a desvalorização é no caso das
pesquisas qualitativas. Em uma discussão em grupo, por
exemplo, é muito comum a excessiva interferência
do cliente, como se a atuação e a análise
do pesquisador não pressupusessem nenhum conhecimento
técnico e científico.
No entanto, de um modo geral, a conclusão foi a de que
a mentalidade do empresário brasileiro, que não
tem a tradição de acreditar em pesquisa, está
mudando. O próprio crescimento do mercado seria uma prova
concreta disto.
Mercado
Se por um lado a situação evoluiu, por outro ainda
se encontraria longe de ser ideal. A discussão acerca
do mercado de pesquisa constatou a falta de conhecimento por
parte dos clientes. Ignorância que leva à compra
de pesquisas, muitas vezes, a partir do parâmetro preço,
esquecendo a qualidade. Tannus definiu o cenário atual
como um leilão invertido, pois, quem cobra menos é
quem leva.
Marangoni criticou a mercantilização da pesquisa,
que hoje apresenta nomes para cada técnica, como se fossem
marcas. Como sublinhou Célia, "estão contratando
gente de marketing para vender as técnicas de pesquisa",
outro evento que coloca os métodos em prateleiras, equiparados
a produtos de supermercado. Ficou um alerta: a pesquisa estaria
extremamente comercial e sob o risco de perder a qualidade e
a seriedade.
A terceirização, conseqüência inevitável
do modo de organização econômica atual,
também foi debatida. Nelson Marangoni mostrou-se contrário
a esta tendência para o mercado de pesquisa, insistindo
que há muita gente que não tem conhecimento trabalhando
na área. Pergentino enfatizou que, como no caso da especialização,
é um problema empresarial, e não é específico
da pesquisa. Contudo, concordou que há uma grande desvantagem
no caso da pesquisa pois restringe uma possibilidade antes tão
comum: a de formar profissionais no próprio instituto.
"Há alguns anos, quem formava a mão-de-obra
eram os institutos, as empresas de pesquisa", prosseguiu
Tannus, acentuando a urgência em se construir espaços
que propiciem esta formação profissional. "Treinamento
é uma coisa básica para a gente fazer", afirmou
Marangoni.
Estímulo e Continuidade
ao Debate
Outra unanimidade foi a importância da realização
de debates, como o presente evento, e ocasiões que envolvam
também o cliente. Pergentino complementou lembrando que
estas preocupações são igualmente do cliente
e que, por isto, é preciso envolver pessoas que não
fazem parte do comitê de pesquisa.
O objetivo deve ser levar informação, trocar experiências,
avaliar os erros e acertos, discutir e estimular as mudanças
na atitude do pesquisador. Como resumiu Célia, este tipo
de encontro teria basicamente três funções:
"a primeira, explicar para ele a sua compra, a segunda
é ouvir dele como ele sente esta compra e a terceira
é nós termos a oportunidade de dizer a ele, como
classe, as coisas que pensamos".
As associações de profissionais da pesquisa teriam,
desta forma, um papel decisivo na promoção destes
debates. Consequentemente, um papel fundamental na promoção
de mudanças positivas que acrescentem valorização
à profissão e qualidade à pesquisa como
um todo. Para tanto, admitiu-se o ganho em se ter iniciativas
conjuntas de todas as associações.
Nesta direção, Júlio Tannus insistiu na
relevância de publicações, como a Revista
SBPM, que dêem continuidade a este tipo de debate, para
que ele não morra ali e não se corra o risco de,
passado um tempo, voltar-se a discutir a partir do mesmo ponto.
Assim, a revista é um incentivo e um convite à
reflexão e à troca de idéias, um modo de
congregar as entidades e não deixar baixar a poeira das
discussões.
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