Mesa
Redonda Sobre as Eleições 98
Por:
Augosto Mendes de Almeida
Nas campanhas para as últimas eleições
o uso das pesquisas foi intenso, tanto por candidatos quanto
pela mídia. Como nem sempre os resultados das urnas corresponderam
às expectativas geradas a partir da divulgação
das prévias eleitorais, houve, entre alguns políticos,
um protesto contra as pesquisas e, geral e até a proposta
de uma CPI. Esta generalização é grave,
pois não distingue a prática profissional competente
de eventuais práticas menos competentes e mesmo desonestas
(que existem em qualquer profissão; que nem de profissionais
devem ser chamadas, mas apenas de desonestas; e que em nosso
meio não parecem ser mais freqüentes que em qualquer
outro segmento social ou profissional). Além disso, dá
a impressão de que nós pesquisadores temos o que
esconder. Para debater tais situações e cumprir
seu papel de associação no sentido de esclarecer
a sociedade a respeito de nossas atividades a SBPM promoveu
em sua sede, no dia 18 de fevereiro de 1999, uma mesa redonda
que contou com a representação de quase todas
as associações empresariais e de profissionais
de pesquisa de mercado existentes no Brasil, sejam elas brasileiras
ou internacionais com representação no Brasil:
Moderadora:
Christina Borges, Vice-Presidente da SBPM.
Associações de profissionais:
· Representante da SBPM (Sociedade Brasileira de Pesquisa
de Mercado): Júlio Tannus, Presidente.
· Representante da ALAMO (Associação Latino-Americana
de Pesquisa de Mercado e Opinião): Dulce Perdigão,
Presidente.
· Representante da WAPOR (World Association for Public
Oppinion Research): Orjan Olsen, representante nacional do Brasil.
Associações empresariais:
· Representante da ABIPEME (Associação
dos Institutos de Pesquisa de Mercado): Octávio da Costa
Eduardo, Presidente.
· Representante da ANEP (Associação Nacional
das Empresas de Pesquisa): Nelson Marangoni, Presidente.
A
seguir, os principais trechos dos debates:
CB:
O que as eleições trouxeram de novidade para pesquisa?
Após as eleições, como ficou a imagem da
pesquisa eleitoral junto à comunidade de pesquisa e para
a opinião pública em geral? Como está a
pesquisa após as eleições, não só
a pesquisa eleitoral, mas a pesquisa de mercado em geral?
NM:
Eu destacaria dois grandes aspectos: primeiro, foi positivo
trazer à tona a discussão sobre pesquisa eleitoral,
o seu papel, as dificuldades que ela encontra. Por outro lado,
trouxe à tona uma coisa grave: a fragilidade institucional
da pesquisa. Frente aos meios de comunicação e
aos políticos em geral, a nossa atividade não
tem mecanismo de proteção para enfrentar o uso
abusivo, as interpretações erradas. Acho até
positivo: à medida que a gente descobrir isso, buscar
algum meio para resolver é positivo. Agora, detalhes
específicos, por exemplo, a novidade da velocidade da
divulgação de resultados parciais do voto eletrônico
acabou comprometendo as primeiras impressões a respeito
do desempenho da pesquisa, quando foram constatados aqueles
inúmeros "erros". Também, o resultado
da pesquisa era baseado num tipo voto e a divulgação
dos resultados oficiais eram baseados em votos válidos.
Isto trazia distorções nas interpretações.
Outro problema: pesquisa eleitoral é preditiva ou é
diagnóstica? Porque eles (que interpretam as pesquisas
que são divulgadas) usam um dado que é a intenção
de voto e este adquire (nessas interpretações)
um caráter preditivo, mas ele tem esse caráter
ou tem um caráter diagnóstico? Então nós
temos que colocar isso no devido lugar. Outro problema é
que os dados secundários que nós temos para o
planejamento das amostras são frágeis, e afetam
o resultado final das pesquisas.
A
imprensa usou de maneira um pouco mais agressiva a fragilidade
da área de pesquisa
DP:
Talvez a novidade maior é que desta vez a imprensa usou
de uma maneira um pouco mais agressiva que das outras vezes
a fragilidade da área de pesquisa. Mas em qualquer dos
outros processos eleitorais, até eu, do lado de dentro
de uma empresa de produtos de consumo, sempre tenho problemas
de credibilidade afetada depois de cada eleição.
Mas quando você vê as pesquisas comparadas com os
resultados finais, elas estão dentro de uma margem aceitável
de tolerância para quem trabalha na área, mas não
necessariamente para quem está fora da área ou
para quem está acostumado com pesquisa de mercado e não
pesquisa de opinião. A novidade foi o voto eletrônico
ter tido essa promoção massiva das pesquisas e
esta discussão polêmica dos resultados. As dificuldades
que o Nelson mencionou mostram o que mostraram em todas as outros
eleições: a inércia do pesquisador em fazer
alguma coisa a respeito das interpretações equivocadas.
Nós sempre tivemos esse problema e nunca o levamos a
uma solução que fosse, a um debate como este.
Nós
temos dados secundários frágeis
OO:
Acho que tem uma coisa fundamental que separa a pesquisa eleitoral
das outras pesquisas e que sempre me incomoda um pouco na discussão.
Na pesquisa eleitoral, nós temos uma coisa com a qual
comparar os resultados da pesquisa, que é o voto real.
Se você pretende uma participação X (prevista
por uma pesquisa de mercado) no mercado de um produto e não
consegue, você sempre argumenta que o concorrente entrou
com uma promoção, mexeu com o preço...
Então a discussão sobre se a pesquisa eleitoral
é "real" não pode ser levada a sério
porque eu acho que o grande erro que se cometeu (e aí
vem a nossa fragilidade na relação com à
imprensa) é tentar dar (ou deixar que se dê) ao
resultado de pesquisa que é divulgado um grau de precisão
que ele nunca teve. Nós temos dados secundários
frágeis, que nos levam a fazer ginásticas (para
fazer) estimativas, para tentar chegar a uma aproximação
da realidade, com Censo, dados de TRE defasados, não
renovados e tentar chegar a um perfil imaginário do eleitorado,
para trabalhar com cotas, que é a metodologia mais propagada.
Então, já temos, aí, uma fonte de imprecisão.
Outra é que o processo de decisão do eleitor no
Brasil, no mundo inteiro, é muito mais fluido do que
a imprensa gosta de reconhecer ou que, talvez, os institutos
gostem de admitir. Na realidade, no Brasil, entra eleição,
sai eleição, 20% a 25% do eleitorado toma a decisão
de voto nas últimas 48 ou 72 horas. Isto nunca é
refletido na divulgação de pesquisas. Desses que
estão declarando o voto hoje, pelo menos um percentual
ainda admite que pode mudar de idéia. A solução
seria valorizar mais a declaração espontânea
da intenção de voto, revelar essa indecisão,
essa tomada de decisão no fim do processo, que é
uma característica normal. Na Inglaterra, todos erraram
na eleição do Kinnock contra o Major. Havia uma
fluidez do eleitorado muito grande, isso nunca é apresentado.
Esse é o grande problema, nenhum de nós (pesquisadores)
diz que o candidato tem 35% exatos, por exemplo. No entanto,
é o que sai divulgado. Nenhum de nós diz que aquele
voto é definitivo, no entanto é o que sai. Há
outro componente: a Folha de S.Paulo fez uma experiência,
ela pediu que a pessoa declarasse o nome do candidato e depois
o número que teclou no computador. Entre o que o eleitor
acha que fez (declarando o candidato) e o que fez (declarando
o número), havia diferenças significantes. Então,
você vai somando erros. Você faz a amostra com base
numa estimativa de eleitorado real da população,
ou com base no registro do TRE? No caso de Brasília,
que foi o mais discutido, a diferença entre os dois critério
era enorme. O certo seria fazer uma amostra probabilística,
nesse caso, o que é absolutamente impossível porque,
com o prazo que ela leva, quando você acabou de fazê-la,
o eleitor já votou. Então você acaba ficando
amarrado. Tem uma série de distorções que
estão se compondo. Tem-se que lidar com o conjunto deles.
Tem de haver uma depuração dos cadastros do TRE
(e essa é uma tarefa muito mais difícil para nós
pesquisadores) e ao mesmo tempo tem se que atacar também
(os problemas de) toda essa forma de divulgação.
NM:
Mas essa questão da previsão eu responsabilizo
os pesquisadores por uma série de razões, hoje
a pesquisa evoluiu muito nas outras áreas, tem metodologias
muito adequadas para serem preditivas. Agora, vamos imaginar
que a intenção de voto fosse preditiva, esse é
outro erro do pesquisador: ele não assume, no diálogo
com a mídia, com o cliente, o seguinte, 95% de certeza
que aquele dado vai estar entre 35% e 40% significa que existe
5% de possibilidade de erro. Se esse erro fosse divulgado, quando
tivesse um erro a mídia e os políticos poderiam
encarar como natural da pesquisa. Não é que a
pesquisa foi errada, é um erro natural. Como eles fazem
hoje, quando surge um erro, qual a primeira reação?
Teve fraude, o instituto vendeu a informação e
assim por diante. É sempre uma discussão ética
e não técnica. Mas os pesquisadores também
não assumem que tem esse erro técnico.
Nunca
um pesquisador é que está fazendo a comunicação
da pesquisa
DP:
Alguns poucos fazem; voltando a épocas passadas, nós
chegamos a uma pequena linha embaixo dizendo o erro amostral
é "X". De qualquer forma eu concordo com o
Olsen, tem uma porção de coisas que podem ser
feitas do lado técnico. Outra coisa é a da comunicação,
da fragilidade, nunca um pesquisador é que está
fazendo a comunicação da pesquisa. Uma das coisas
que eu queria comentar foi o que o Olsen falou, que pesquisa
eleitoral é aferida pelas eleições, e a
pesquisa de mercado não. Não é verdade,
pelo o que o Nelson acaba de falar. As duas pesquisas têm
aferição...
OO:
Mas na pesquisa eleitoral você está falando de
erro por 2 pontos percentuais, com período entre a pesquisa
e a aferição de 48 horas. Na pesquisa de mercado
você tem todo um mecanismo humano e outros fatores que
podem ajudar a explicar o afastamento da previsão em
relação à realidade. A aferição
eleitoral é imediata, é pública e existe
uma pressão muito grande dos meios de comunicação
em cima de predição. Acho que, exatamente, cabe
às associações que representam as empresas
e a atividade profissional de pesquisa buscar meios efetivos
de melhorar esta situação.
JT:
Aí eu retomo a questão inicial: a novidade neste
processo eleitoral foi a consciência dos pesquisadores
sobre a nossa fragilidade a nível institucional para
dar uma resposta competente a um ataque injusto à nossa
atividade. Nós da SBPM, e certamente todas as associações
aqui representadas, sentimos na pele um imenso desafio pela
frente. Em nenhum momento a grande mídia fez qualquer
registro de uma ANEP, de uma ABIPEME, uma WAPOR, uma ESOMAR
ou uma SBPM. A SBPM deu dois depoimentos em circunstâncias
criadas a partir de suas próprias iniciativas, que foram
dois seminários sobre pesquisa política recentes,
em que estavam presentes jornalistas da Gazeta Mercantil e de
uma emissora de rádio, então a SBPM deu um depoimento.
Esse ponto é comum praticamente em todos os países
onde existe o processo eleitoral. Entretanto, está aí
o nosso desafio. De 78 países pesquisados (conforme relatório
"The Freedom to Publish Opinion Polls" publicado pela
ESOMAR, WAPOR e The Foundation for Information), em 60% deles
não existe restrição para a publicação
de pesquisas; e por que não existe? Na minha interpretação
é porque existe uma postura institucional competente
dos fazedores de pesquisa. E se nós considerarmos países
sem nenhuma restrição ou com restrição
apenas no dia anterior ao dia das eleições, esse
percentual vai para 87%. O que eu quero concluir é o
seguinte: no Brasil temos códigos de ética de
pesquisa que regulamentam todas essas questões que estamos
discutindo. A SBPM assina o código de ética da
Câmara Internacional do Comércio. Temos o código
da ESOMAR, que foi publicado em 1977 em 3 versões: Inglês,
Francês e Alemão. Em 1981 foi feita a 1a edição
em Português, com o patrocínio e apoio da SBPM
e ABIPEME. Em 1983, foi feita uma outra edição
em Inglês, Francês e Alemão, e em 89 essa
outra versão foi publicada também em Português.
Ou seja, nós temos um regulamento, códigos que
apontam para a ética de publicação de resultados.
E em nenhum momento qualquer instância do país
nos buscou e levantou qualquer situação nessa
campanha eleitoral que pudesse ser devidamente encaminhada à
luz dessa ética.
NM:
É isso que estamos falando, da fragilidade da instituição.
Na ANEP, estamos com um projeto que é reelaborar, baseado
em toda essa documentação internacional e considerando
as características locais, normas de divulgação
de resultados. Agora, só isso não basta, falta
mais, como a questão da previsão. Quando os institutos
divulgam que acertaram os resultados, o que estão dizendo
é que fazem pesquisa preditiva e não dá
para ser preditiva utilizando-se apenas dos dados referentes
à intenção de voto.
JT:
Eu descartei a previsibilidade na pesquisa política por
várias razões, não só pelo fato
de que ela é o retrato de momento. Responder a um questionário
é diferente de sair para votar. A diferença é
como você assistir um filme num vídeo ou numa sala
de cinema, futebol na televisão ou ir ao Pacaembú.
O fenômeno das massas cria uma consciência que nem
sempre um depoimento individual consegue resgatar...
NM:
Quando falei que não acho que ela é preditiva,
quero dizer do jeito que é feita, considerando a intenção
de voto estimulado. Mas se eu pegar a intenção
de voto estimulado e pegar um histórico e uma série
de elementos que uma pesquisa fornece, eu posso fazer alguma
previsão, como na pesquisa com produtos e marcas.
OO:
Nessa questão de normas de publicação de
resultados de pesquisas, o Código de Ética a que
somos filiados é uma auto-regulamentação
absolutamente suficiente para tratar da questão. Há
realmente a necessidade de um maior esclarecimento desta questão,
deveria haver uma discussão maior da indecisão
do eleitor. Eu tive a oportunidade de acompanhar uma eleição
que nos permitiu montar um modelo de classificação
do voto indeciso. Entrava o conhecimento do candidato, rejeição,
imagens, entrava o bolo todo e a amostra era suficientemente
grande para se fazer uma análise. O modelo é dinâmico.
Não há modelo genérico, nós temos
para cada candidato um modelo diferente do outro, não
conseguimos chegar a um modelo comum. Agora, no processo de
realização da maioria das pesquisas eleitorais,
em primeiro lugar, o tamanho do questionário não
permite fazer uma pesquisa do porte dessa em que criamos modelos.
O tempo disponível para a análise muito menos.
Você enfrenta obstáculos para utilização
de pesquisas com modelos no dia a dia, ela não é
prática para a publicação. Já dei
seminários para todos os diretores de jornalismo da Globo
sobre interpretação de pesquisa. Acontece que,
na prática, muitas vezes, eles têm 30 segundos
para falar de um resultado. Então você luta contra
o tempo. A manchete nunca será a indecisão, sempre
será quem está na frente. Essa atitude da mídia
de publicar quem vai ganhar não vai mudar. Alguma representação
de pesquisa, desde que o espaço lhe seja dado, devia
se expor para que as pessoas se acostumem a ler corretamente
esta informação. Ou você gostaria de ter
a utopia da absoluta objetividade na mídia ou você
tem um instrumento legal que obriga uma divulgação
técnica, adequada.
NM:
Isso é um projeto que está sendo desenvolvido
na ANEP, vamos oferecer sugestões ao legislativo de um
projeto de lei para controlar a divulgação de
resultados.
DP:
Vinte anos atrás, polêmicas entre Globo e Estado
faziam com que a gente dissesse que era terminantemente proibido
qualquer publicação de resultados que não
fosse aprovada pelo instituto. É óbvio que se
for lei é mais forte e é geral, mas de qualquer
forma já existem acordos de cavalheiros.
OCE:
Eu vou pegar a 1a questão, o que as eleições
de 98 trouxeram de novidade para a pesquisa eleitoral. Pela
informação que tive através da imprensa
não se fez nada de novo, continuou-se a usar a mesma
tecnologia, inclusive cometendo o pecado de não comunicar
qual a natureza das amostras. Não se sabe se são
por cotas ou probabilísticas, se as entrevistas são
nos domicílios ou na rua... Existe um rol de informações
que devem ser publicadas...
OO:
Aliás, nós que fazemos pesquisa pré-eleitoral
estamos nos comprometendo quando dizemos: "o erro aqui
é 3% a mais ou a menos". A amostra não é
probabilística, é uma amostra por cotas, muitas
vezes baseada em informações precárias,
conforme foi acentuado aqui, e desta forma a possibilidade que
se cometam erros é uma possibilidade grande.
DP:
Eu duvido que a gente tenha amostras probabilísticas
sendo aplicadas no Brasil, probabilísticas mesmo, (o
que tem é) aquela que a gente chama de semi probabilística,
já começa daí.
JT:
O custo inviabiliza tais tipos de amostra.
Você
está medindo um fenômeno muito volátil
NM:
E mais do que o custo, é o que o Olsen já tinha
falado, é o prazo, você está medindo um
fenômeno que é muito volátil, pode começar
um estudo, nos primeiros 3 dias aquela amostra dar um resultado
e depois alterar muito nos 3 dias subseqüentes.
OO:
A amostra mais próxima da probabilística seria
com entrevistas telefônicas, mas nós não
somos como a Europa e os Estados Unidos, onde há cobertura
telefônica quase total e uma atualização
de listas. Mesmo assim, lá você já começa
a ter índices de recusa de atender o pesquisador na faixa
de 30%, o que já não torna mais a amostra representativa.
Por melhor que você se saia, você sempre tem um
problema nessa área.
OCE:
A título de recomendação o que poderíamos
fazer? Temos que educar. O pecado é podermos dar a impressão
que temos uma bola de cristal e nós realmente não
prevemos o futuro. Estamos falando de uma situação
de momento que pode ser alterada por mil circunstâncias.
Nós temos que começar a convencer os meios de
divulgação que o instrumento que estamos utilizando
não é um instrumento de medida como um metro.
Nós estamos sempre sujeitos a erros e o erro é
uma característica de pesquisa pré-eleitoral e
da pesquisa de mercado. Nós temos que conviver com esses
erros para continuar com a nossa atividade de obter informações
que possam ser úteis para decisões dos políticos,
dos governos e das empresas. Mas voltando à questão
das novidades desta eleição, eu gostaria de colocar
o seguinte: os questionários utilizados em pesquisas
de pré-eleitorais seguem todos o mesmo feitio, qual candidato
que você prefere, qual que você odeia, etc. Isto
dá a impressão de que os eleitores se decidem
por este ou por aquele e estão firmemente comprometidos
a partir do momento que dão a sua opinião. Do
ponto de vista metodológico, nossos questionários
não medem a intensidade dessas preferências e por
isso podem levar a distorções. Alguns anos atrás,
surgiu na África do Sul um estudo. É um modelo
de conversão, mede o grau de comprometimento que o eleitor
tem com o candidato que prefere. Em 1996, eu tomei a iniciativa
de fazer um estudo empregando esse modelo e me surpreendi em
que medidas e em que termos pode-se determinar o número
de pessoas efetivamente comprometidas com um candidato a uma
determinada altura. É relativamente pequeno, e a possibilidade
de outros eleitores que não preferem aquele candidato
virem a mudar o seu voto para ele é também considerável.
OO:
Na última eleição, no Correio Braziliense,
eles publicaram a intenção de voto, grau de conhecimento
das pessoas, familiaridade com os candidatos, grau de certeza
de voto e de rejeição, mostrando que, dos que
diziam que iam votar em Lula, tantos admitiam poder votar em
outros candidatos. Isso foi publicado de maneira constante.
JT:
Quanto ao conflito entre melhor amostra e menor tempo exigido
nas pesquisas eleitorais a ESOMAR já fez referência
e até sugere que é mais interessante você
trabalhar uma amostra menor e mais rápida do que você
manter uma amostra maior, privilegiando uma menor margem de
erro, exatamente buscando contornar essa situação
de mudança rápida do cenário pela volatilidade
do eleitorado. Por outro lado, talvez por pressão da
mídia ou dos políticos que têm interesse
numa informação mais simples, não se desenvolvem
metodologias mais sofisticadas.
OCE:
Nós, em pesquisa, estamos trabalhando com uma concepção
maniqueísta...
JT:
Mas Dr. Octávio, o senhor não acha que isso é
quase uma "imposição da mídia",
porque a quantidade de informações relevantes
que são levantadas no processo eleitoral, as respostas
espontâneas e os porquês é um material riquíssimo,
que dá para você pelo menos usar de uma forma mais
adequada e completa as informações...
OCE:
...A pressão da mídia é de todos conhecida,
embora eu reconheça as limitações de tempo,
etc. que eles têm. Mas eu estou chamando atenção
para a possibilidade de melhorar nossa qualidade... Nada que
impeça a inclusão de uma pergunta sobre grau,
certeza da preferência por cada candidato, e essa divulgação
cabe no tempo. O que nós temos é um substituto
muito mais perigoso: na medida em que essas perguntas de razão
de preferência têm um custo elevadíssimo,
começou a aparecer o mau uso da pesquisa qualitativa.
OO:
Tivemos exemplos em que 8 discussões de grupo em São
Paulo acabaram sendo usadas como reproduzindo as razões
do voto do eleitorado no país. A gente cai no âmago
da questão política: que papel essa pesquisa representa?
Essa questão de que o sujeito vota em quem está
na frente é desculpa. Onde é que a pesquisa influencia
de fato? Ela começa a influência quando é
usada para lançamento de candidatura, no período
pré-eleitoral quando não é divulgada e
não existe um "check" de realidade. Para o
sujeito se reforçar, pegar dinheiro dos patrocinadores:
a pesquisa é um instrumento político o tempo todo.
Ela afeta a militância, a coleta de fundos, o ânimo
de uma equipe de produção. Quando cai uma pesquisa
na equipe de produção, e ela é desfavorável,
é uma ducha de água fria.
DP:
São dois trabalhos que têm que ser feitos, dos
meios de divulgação mas também os pesquisadores
não deviam aceitar fazer esse tipo de trabalho tecnicamente
errado, tipo uma discussão em grupo para aprovar um determinado
candidato.
OO:
Não é para aprovar, é fazer uma discussão
em grupo e divulgar o resultado...
DP:
Volta o assunto do projeto de lei ou a autorização
do instituto para a divulgação. Contra esse desconhecimento
de tipos de pesquisas e de técnicas deveria haver um
boletim ou algo semelhante sempre presente nos meios de comunicação.
OO:
Eu fiz mestrado em jornalismo nos Estados Unidos. É matéria
obrigatória, durante 2 semestres, métodos de pesquisa.
Um semestre em que você aprende o método e outro
em que você aplica o processo. Não adianta só
fazer um manual e deixar numa redação.
JT:
A SOVIMO, que é a Sociedade Venezuelana de Investigação
de Marketing e Opinião, antevendo dificuldades tradicionais
na sua atividade de pesquisa num processo eleitoral, tomou a
iniciativa de oferecer ao mercado de políticos e jornalistas
um seminário sobre pesquisa. A experiência foi
tão feliz que a ESOMAR estava se dispondo junto à
Sociedade Argentina para fornecer subsídios para replicar
a mesma experiência na Argentina. Não chegou ao
Brasil, na SBPM, nenhuma missiva neste sentido, entretanto,
nós pensamos nisso porque seria uma das formas da gente
estar patrocinando alguma coisa para o mercado.
OO:
Nesta eleição, por iniciativa da ANJ e da ABERT,
se promoveram em Brasília e em São Paulo seminários
sobre pesquisa eleitoral na presença dos editores chefes.
O que não existe é uma forma mais institucional
e um pouco mais longa deste trabalho, porque você não
consegue em 4 horas transmitir o necessário. Já
há uma conscientização dos veículos
de que tem que haver um trabalho neste sentido, mas é
necessário que ele passe também para a reportagem,
não fique no mundo de editores. É necessário
lembrar do sujeito que escreve a matéria. Mesmo no DataFolha,
uma vez que o relatório sai do DataFolha e vai para a
redação cessa a influência do DataFolha.
A área de pesquisa tem um nível de informação
maior, mas a responsabilidade editorial passa a ser da redação.
Tem que haver uma conscientização e há
espaço para isso sim, e a própria mídia
tem se preocupado com isso.
NM:
Nós reunimos um grupo de pessoas para discutir a possibilidade
de se fazer um seminário com jornalistas e políticos
e, depois de muitas reuniões, decidimos não fazer,
porque para você mudar o comportamento da mídia
não pode ser com um repórter comum, você
tem que falar com os editores.
OO:
Agora fala-se em uma lei em que seria vedado ao instituto que
trabalha para candidatos trabalhar para divulgação.
NM:
Eu acho que um instituto pode atender tanto mídia quanto
candidato.
OCE:
Aí surge um problema ético sério. Quando
começamos a redação do Código de
Ética da ABIPEME eu defendi o seguinte: uma empresa pode
trabalhar para concorrentes, desde que não seja concomitantemente.
Não sei se hoje eu aceitaria esse posicionamento. O mesmo
problema diz respeito ao instituto trabalhando para um candidato
e ao mesmo tempo para um órgão de divulgação.
Até que ponto esse instituto vai, consciente ou inconscientemente,
apresentar resultados enviesados?
NM:
Mas isso é um problema ético anterior, o que garante
esse instituto, mesmo não trabalhando concomitantemente
para mídia e candidato, não ter um comportamento
não ético? Nada. Vou te dar um outro exemplo:
o DataFolha é um instituto de pesquisa da Folha, só
trabalha para a Folha, isso é mais ético do que
outro que trabalha para candidatos? Não é.
OCE:
Não é ético por parte da empresa apresentar
informações para favorecer esse candidato e ao
mesmo tempo para serem divulgadas na mídia.
NM:
O que eu quero dizer é que isso pode acontecer mesmo
que a pessoa só trabalhe para um candidato. Ela pode
fornecer informações para o outro. O problema
ético é anterior.
OCE:
É claro que pode haver ética ou não por
parte de A, B ou C ou D, não estou negando que há.
A nossa profissão é geralmente muito ética,
pesquisa de mercado é uma profissão ética.
ATUALMENTE,
A PESQUISA PRÉ-ELEITORAL NO BRASIL ESTÁ NAS MÃOS
DE QUANTOS INSTITUTOS?
DP:
Só que há muita gente inexperiente nesta profissão
hoje, que faz grande parte dos problemas que nós estamos
comentando agora.
OCE:
Não é só um problema ético, é
de oportunidades profissionais. Quando um instituto trabalha
simultaneamente com um candidato e um órgão de
divulgação, ele está, de uma certa forma,
cortando as possibilidades de um concorrente trabalhar para
um ou para outro. Então fecha o mercado. Atualmente,
pesquisa pré-eleitoral no Brasil está nas mãos
de quantos institutos? 3 ou 4.
OO:
Que são divulgadas pela grande mídia.
OCE:
Então há esse outro aspecto que precisa ser considerado.
Nós que dirigimos órgãos da categoria,
temos essa preocupação, que não haja um
domínio de determinados órgãos sobre o
mercado. É necessário dar oportunidade aos médios
e pequenos que muitas vezes são criativos e trabalham
tão bem quanto os grandes, às vezes até
melhor.
DP:
É exatamente isso o meu ponto. Se eu estou trabalhando
para 2 ou 3 candidatos, ou para mais meios de comunicação,
considerando que esse instituto seja ético, não
vai divulgar informação de um cliente para outro,
a experiência dele é maior e a possibilidade dele
acertar os diagnósticos é maior.
NM:
Coloco essa questão de exclusividade muito mais como
um aspecto comercial do que ético. A questão ética
é anterior e muito mais relevante.
DP:
A questão ética esbarra no seguinte: porque se
está falando agora em controles adicionais, standards
mínimos de qualidade para pesquisa de mercado? Na Europa,
muitos clientes exigem que os seus institutos tenham o certificado
ISO 9001. Isto significa que os institutos estariam tendo menos
credibilidade, seja de ética, seja da experiência
ou da competência dos profissionais, exatamente porque
o mercado cresceu demais aqui e lá fora. Eu insisto nisso,
haver só uma minoria que realmente entende de pesquisa
de mercado no Brasil é uma situação perigosa.
As empresas cresceram e o treinamento está relegado a
um 2o plano, ou as pessoas estão sendo treinadas pela
3a geração que não recebeu treinamento
adequado. Esse problema é mundial, a gente se considera
ético, mas fora desse fórum nós não
podemos botar a mão no fogo por todos aqueles pequenos
e médios que estão entrando no mercado sem a qualificação
necessária.
JT:
Ainda assim eu insisto que a ética vem antes da qualidade,
que a qualidade deve pressupor a ética.
OCE:
Quando você faz uma pesquisa de mercado para múltiplos
clientes no mesmo ramo eles sabem que não há exclusividade.
A discussão aqui é se o leitor ou a pessoa que
assiste televisão tem esse mesmo conhecimento.
NM:
Aí cabe a ele julgar se o instituto é ético
ou não, mas ele tem uma informação a mais
com os resultados da pesquisa.
OCE:
O erro vem da data da publicação dos resultados
de pesquisas, no Brasil temos liberdade de publicar resultados
no dia da eleição. Falando em meu nome pessoal,
eu considero isso um erro da nossa legislação.
Se nós acreditamos que há um consenso, eu diria
que há divergências, se a publicação
de resultados de pesquisas favoráveis a um candidato
levam o voto feito maria vai com as outras...
DP:
Ou o voto contra...
JT:
Eu só retificaria o seguinte: há consenso de que
essa questão é absolutamente polêmica....
OO:
A maior gravidade não é divulgar resultados no
último dia, é gente que faz uma pesquisa favorável
em janeiro e depois coloca na mídia antes das eleições,
dizendo que aquilo veio de pesquisa.
DP:
Pois é, nós estamos tratando com problemas éticos.
JT:
Eu poderia até concordar com essa colocação
de proibição de divulgação de pesquisas
um dia antes, entretanto, isso vai levantar outra questão,
porque não dois dias antes ou três dias antes?
OCE:
Do ponto de vista do processo democrático, acho que o
eleitor deveria ser isentado da publicação do
resultado de pesquisa nos últimos 7 a 10 dias antes das
eleições, é uma opinião pessoal.
DP:
Inclusive do debate político.
NM:
Suíça, Espanha, Hungria e França, 7 dias
antes é proibida a divulgação. Os países
europeus que não tem restrições ou a restrição
é no mesmo dia da eleição são Armênia,
Bulgária, Croácia, Kasaquistão, Lituânia
e Eslovênia.
OCE:
Eu pessoalmente concordo que no Brasil a publicação
de pesquisas só saia até 2 dias antes da eleição.
OO:
Com os meios de divulgação que existem, na própria
França a proibição não tem mais
efeito, porque o pessoal joga na Internet e todo mundo sabe
no dia seguinte. No Brasil não será menos inócuo...
OCE:
É um ponto de vista pessoal meu, não estou falando
como presidente de nada, mas eu acredito que, para que o processo
democrático atenda as normas da democracia, não
se deveria forçar o eleitor com essa informação
"olha o Pitta vai ganhar, vote nele", "o Covas
que vai ganhar, vote nele"...
NM:
Dr. Octávio, eu penso justamente o contrário,
por ser informação relevante ela tem que ser divulgada.
JT:
A pesquisa eleitoral num processo de eleições
é o balizamento do eleitor, ele tem direito de dispor
deste balizamento. O que a sociedade, as suas representações
de atividade profissional têm que fazer de alguma maneira
é constituir mecanismos para evitar que haja manipulações
de interesses que não sejam do eleitor. Essa é
a grande questão, por que em qualquer instância
um instrumento como a informação pode ser manipulado
e não necessariamente apenas quando se lida com intenção
de voto.
NM:
Como são todas as outras informações que
são passíveis de serem manipuladas...
DP:
Que pelo menos seja coerente a restrição de divulgação
de pesquisa e de propaganda política. É o mesmo
tipo de informação quanto a poder influenciar
o eleitor que se está passando, mas dá um tempo
para as pessoas de alguma maneira refletirem. Que seja rompida
essa restrição com Internet, mas a Internet vai
ficar também restrita ao pequeno público...
NM:
Estou me lembrando de uma coisa que a gente vai sugerir para
o projeto de lei: as propagandas políticas não
devem usar os resultados de pesquisa como meio de propaganda.
Um país que tem um PROCON mas não tem um Pró
Cidadão
JT:
Um país que tem um Procon mas não tem um Pró
Cidadão paga o pato de circunstâncias como essa.
Nós deveríamos ter uma instância que resgata
ao eleitor o seu direito, a partir do momento que tivermos essa
instância funcionando, o instrumento da pesquisa como
balizamento vai estar resguardado, essa é a questão.
OO:
O pressuposto de tudo isso que se fala contra as pesquisas,
é o seguinte: o eleitor votaria em quem está na
frente. Qual evidência nós temos deste tipo de
comportamento? Nenhuma. Com essa questão da CPI, eu fui
buscar os estudos que eu consegui localizar. Nos melhores estudos
deste tipo de comportamento, tinha uns 3% ou 4% que iam no sentido
do vencedor. Você tinha, porém, os outros que iam
contra quem estava na frente... A situação extrema
era dos Estados Unidos, onde a votação termina
na costa leste, e o pessoal da costa oeste ainda está
votando e já tem as previsões na mão. A
evidência empírica que existe não chega
à conclusão de que haja efeito da divulgação
de pesquisas sobre os resultados das urnas. E quantas vezes
houve candidatos que caíram, apesar de estarem na frente
na pesquisa?
NM:
Do ponto de vista conceitual a informação da pesquisa
é apenas mais uma informação. A decisão
do voto é feita através de um conjunto de variáveis,
não adianta mudar só essa informação...
OO:
Se uma difamação de última hora, a denúncia
sem fundamento não é controlada, nada disso é
controlado, porque querer controlar apenas a pesquisa? Para
os institutos seria uma tendência ironicamente boa a proibição
de divulgação de pesquisa por exemplo 7 dias antes
da eleição, para dobrar o faturamento. Porque
aí o político que puder comprar pesquisa vai ter
a informação e ele vai influenciar todo mundo
que ele puder. Ele vai influenciar todas as fontes de financiamento
que ele puder para boca de urna. E ele não vai ter um
"check" publicado. O sujeito vai comprar a pesquisa
Ibope, ele vai comprar a pesquisa Vox Populi, a pesquisa Gallup,
a pesquisa Brasmark, vai comprar todas elas e deixar os candidatos
concorrentes e o público sem informação.
Isso já aconteceu no passado, de não haver instituto
disponível para um candidato em alguns estados.
DP:
A candidata que se disse prejudicada por pesquisa, na minha
opinião foi favorecida. Se tem dois candidatos, o primeiro
e segundo muito próximos, e eu sou contra o segundo,
eu vou votar no terceiro ou no primeiro para poder descartar
o segundo. Então quem está correndo por fora é
favorecido. Agora, o momento de reflexão, que seja de
48 horas sem nem meio de comunicação, nem debate
político, nem pesquisas publicadas, daria ao eleitor
a possibilidade de pensar a respeito sem aquele bombardeio.
OO:
Esses comunicadores, que têm programas aos Domingos na
TV de quatro horas, a opinião deles é controlável?
NM:
Eles já podem até estar usando pesquisa.
OO:
O noticiário de manhã cedo é controlável?
Nada é controlável. Então você tira
um elemento proibindo a divulgação de pesquisas,
o resto continua solto. Ou você deveria ter o equilíbrio
como há em jornais na Alemanha, Inglaterra...
DP:
Mas lá são debates, debates mais positivos.
OO:
Trabalhistas, conservadores, social democracia, cada um tem
seu poder de expressão e há equilíbrio
no mercado de idéias, que aqui não existe.
NM:
Como vamos chegar a isso? Com a prática, a divulgação,
as distorções que a gente vai cobrar, o cidadão
cobrando...
DP:
Desmistificando a bola de cristal. Mas também não
necessariamente indo com divulgação de pesquisa
até a véspera da eleição.
OO:
Na eleição onde o Maluf perdeu para o Fleury no
2º turno, a equipe do Maluf estava meio desajustada, a
equipe do Fleury tomou conta do interior, e aí, não
com base em pesquisa. Quem teve força de fazer campanha
de boca de urna levou a eleição. Em várias
eleições, se você tivesse um instrumento
para gerar recursos para campanha de boca de urna você
talvez levasse a eleição. E um dos instrumentos
seria a pesquisa. Eu acho que é o conjunto dessas ações
políticas a preocupação real da classe
política. Então a questão é se nós
queremos um instrumento mais confinado a uma minoria ou um instrumento
que, apesar de ter falhas, permita um aperfeiçoamento
na sua divulgação.
JT:
A segunda opção é muito melhor no ponto
de vista de desenvolver o cidadão.
CB:
A propaganda eleitoral gratuita é um elemento forte de
influência do eleitor?
JT:
Se considerarmos o nível de educação e
cultura do eleitor brasileiro qualquer informação
que consiga atingir as bases do eleitorado é interessante.
Nesse sentido, por mais chato que seja, o horário eleitoral
é bom porque é levado ao ar em um veículo
de massa, no horário nobre. Eu acho difícil precisar
o seu grau de influência, mas certamente existe uma influência
nas urnas.
DP:
Tem casos famosos, como aqueles políticos que estavam
em ascendência e um dia, não sabe o preço
do pãozinho, no dia seguinte perde, outro comunica que
é ateu também sai da parada...
OO:
A TV tem efeito forte, tem tido, porém, efeito decrescente
nas candidaturas, porque o eleitor conhece a gramática
televisiva. A 1ª vez que foi usada foi fortíssima,
na 2ª vez o sujeito já começava a falar "ah,
mas isso foi cortado, foi editado". O eleitor já
conhece, então a TV começa ter uma perda de influência,
porque o eleitor tem tanto que fazer na vida que ele monitora
o tempo dele, ele escolhe três ou quatro sinais críticos
nas campanhas dos políticos e faz seus julgamentos. A
TV começa a ter influência quando aquele padrão
que o eleitor construiu ou a realidade que ele visualizou é
desmentida. Mas você começa a ter também
uma fragmentação da mídia, entrada de TV
a cabo, portanto, um efeito declinante da influência da
TV. Mas ela ainda pesa muito, principalmente porque somos obrigados
a votar.
OCE:
Eu faria duas alterações: uma, eliminar os dados
de pesquisa de propaganda política, e segundo, da mesma
forma que a propaganda tem um órgão regulador
para verificar o que é verdade ou mentira sobre o marketing,
que é o Conar, a propaganda política deveria ter
também. Não TRE, mas uma equipe, um controle da
situação, porque se dizem muitas inverdades.
OO:
Você faz a pesquisa, por exemplo, entrega às 2hs30min.
da madrugada para o sujeito fazer a produção do
programa eleitoral para o dia seguinte. Com que velocidade qualquer
órgão pode atuar, mesmo o TRE?
OCE:
Numa eleição não tem, mas à medida
que esse órgão vai atuando, as pessoas vão
se disciplinando e fazendo uma propaganda mais adequada.
Cláusulas
de barreira são necessárias
JT:
A minha expectativa é que houvesse uma restruturação
da lei política e da lei dos partidos, porque é
ridículo, você tem mil depoimentos de dez mil candidatos
pequenos, acho que isso não é informativo, isso
atrapalha o processo.
OCE:
Nós que pesquisamos temos pouco a dizer sobre isto. Do
ponto de vista democrático, é evidente que precisamos
ter uma alteração na nossa política. Agora
a questão é, o fulano tem meio minuto, outro tem
meio minuto, são chatos de galocha, todos sabem disso,
mas têm direito de dizer o que eles acham que é
a sua mensagem. Sou favorável ao horário gratuito,
absolutamente favorável como cidadão, para dar
oportunidade de mostrar a cara aos candidatos que não
têm poder econômico.
OO:
Cláusulas de barreira são necessárias,
como na Alemanha ou na Suécia: o partido pode ser dominante
numa cidade, mas não tem acesso nacional enquanto ele
não tiver o mínimo nacional. Foi o caso do Partido
Verde na Alemanha, gradualmente foi abrindo espaço, com
uma atuação consistente, gerou adesão e
virou um partido de fato. Não pode é uma série
de amigos se juntarem em 7 estados e escreverem um estatuto
fundando um partido, e aí você tem direito a 30
segundos de espaço no horário político,
que você usa como elemento de negociação.
CB:
Gostaria de perguntar sobre a questão da CPI da Pesquisa.
NM:
Foi feito um requerimento de CPI envolvendo 4 empresas: Ibope,
DataFolha, Vox Populi e Brasmark. Como três delas fazem
parte da ANEP, nós discutimos muito dentro da ANEP, e
a ANEP tem um objetivo que não é só defender
a pesquisa política, nossa preocupação
era muito mais defender a atividade de pesquisa como um todo
do que a pesquisa política...
JT:
A nível mundial o faturamento de pesquisa é de
US$ 8 bilhões de dólares, desse total 3% é
de pesquisa política.
NM:
...Então, nosso julgamento foi que uma CPI não
resolveria os problemas relacionados à pesquisa política
e poderia até trazer influências negativas sobre
a pesquisa como um todo. Porque quem está pedindo a CPI
é um pessoal que não conhece a atividade, não
tem interesse nos aspectos técnicos. Por que surge uma
CPI? A primeira coisa é que desconfiam dos dados, que
é fraudulento. Isto é um problema ético,
quando na verdade nós temos mais problemas técnicos
do que éticos e esse pessoal iria se envolver com o ético
porque isso aparece mais na mídia. Então, evitamos
a CPI, fizemos uma petição baseada em dois argumentos:
primeiro, que não havia fato concreto a ser investigado,
era uma CPI da pesquisa em geral. Segundo que a convocação
extraordinária do Congresso, período no qual seria
feita a CPI, não tinha esta matéria como objetivo.
JT:
Uma das coisas que me surpreendeu quando ouvi falar da CPI:
como a pesquisa é órfã no coletivo em que
atua! Porque se um determinado laboratório teve problema
de fabricação, se constitui uma ação
para apurar aquele laboratório, se o Presidente da República
tem um problema também. Você não faz CPI
da indústria farmacêutica em geral ou da Presidência
enquanto instituição. Por que se propõe
uma CPI da nossa profissão? Por outro lado, seria uma
oportunidade para as instituições ligadas à
pesquisa comparecer à CPI e mostrar seu valor e sua existência
ao longo desses duros e bons anos do mercado brasileiro. Existem
esses dois aspectos, um deplorável e um que poderia nos
fortalecer.
NM:
Eles pediram às empresas de pesquisa cópia de
contratos, resultados de pesquisas realizadas em 98 em todo
o território nacional, lista dos 30 principais clientes,
cópia do balanço, descrição da composição
societária, listagem das contas bancárias, listagem
de todas as linhas telefônicas... Isso não tem
nada a ver com aquilo que falamos em relação às
técnicas de pesquisas, então isso ia deixar nossa
atividade que já é frágil mais vulnerável
ainda. E todas as empresas, Ibope, Vox Populi e DataFolha (a
outra eu não sei porque não faz parte da ANEP),
forneceram. Nós, da ANEP, é que achamos que a
Associação, até por todos os argumentos
que você utilizou, deveria estar presente nesse processo
e mostrar que as empresas envolvidas na CPI não são
empresas órfãs.
OCE:
Não conheço bem esse mecanismo de CPI, mas a observação
do Júlio é procedente, temos a oportunidade de
mostrar a cara. A mídia divulgaria os depoimentos dos
que fossem convocados para a CPI, eu acho isso importante. O
fato de haver aí uma enumeração inadequada
de documentos pedidos não anula o objetivo mais importante
que é a nossa oportunidade de dizer: "isso que vocês
estão dizendo é inadequado, nós temos tais
avanços, temos tais contribuições, temos
também tais problemas, etc."
NM:
Quero esclarecer que o requerimento que a ANEP enviou contra
a CPI não é uma tentativa de evitar a discussão,
que merece uma análise por toda a sociedade a fim de
possibilitar o aperfeiçoamento dos métodos e técnicas
e, consequentemente, a qualidade das informações
de pesquisa. A ANEP se coloca à inteira disposição
da Casa Legislativa para debater o assunto e assegurar à
população, aos clientes interessados e às
associadas uma melhor técnica e segurança nos
dados obtidos e divulgados. Isso foi colocado, inclusive, na
petição enviada contra a realização
da CPI.
OCE:
Acho que temos que fazer um esforço conjunto para levar
ao Congresso essa idéia de debater essa questão.
OO:
Tem uma série de questões não resolvidas,
desde informações se a pessoa tem o título
de eleitor... Você pega os dados oficiais do IBGE e do
TRE não batem, é uma questão do governo.
DP:
Eu acho que valeria a pena dar uma olhada no que está
sendo feito na América Latina, e tentar fazer alguma
coisa em conjunto.
NM:
Realmente tem que se fazer um esforço e co-produzir um
material para uma ampla discussão técnica.
OCE:
Não sei até que ponto você foi feliz pedindo
a suspensão da CPI. A questão tem duas faces,
de uma certa maneira você se colocou na defensiva. Podem
pensar que nós estamos com medo que alguma coisa venha
a ser revelada sobre os nossos associados, essa é uma
interpretação equivocada e possível.
NM:
Você não pode exigir abertura de sigilo bancário,
de contas telefônicas, se não houver uma acusação
de fato.
OCE:
Se houver uma comissão abrindo inquérito sobre
pesquisa e convocarem a mim eu vou lá...
NM:
Eu também vou, nós temos que ir, mas...
OCE:
...Expor o nosso ponto de vista.
NM:
...Mas eu quero ter uma oportunidade adequada, não inadequada.
OO:
Adequadas você tem que criar, essa é a regra do
jogo.
JT:
Então, nós estamos criando aqui, por exemplo.
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